O que pensam alguns eleitores da extrema-direita da Europa?

Palko Karasz

  • Hannibal Hanschke/ Reuters

Recentemente, pedimos aos leitores que apoiam os partidos de extrema-direita na Europa que nos dissessem porque se afastaram dos movimentos políticos tradicionais. Recebemos centenas de respostas dos eleitores, a maioria citando preocupação com a imigração e um desejo de contestar as posições da União Europeia.

Alguns se incomodaram em ser identificados como eleitores de extrema-direita, dizendo que estão simplesmente contestando os partidos tradicionais que não refletem suas crenças ou experiências. E muitos dos leitores, predominantemente do sexo masculino, não quiseram dizer seus nomes, dizendo temer estigmatização.

As respostas deles foram editadas para fins de espaço e clareza. E como muitas das questões levantadas são altamente contenciosas por toda a Europa, fornecemos contexto para cada uma delas.

Mikael Jakobsen, 24 anos, estudante de Direito, Aarhus, Dinamarca. Partido Popular Dinamarquês

Políticas simbólicas de "ajuda" aos necessitados que os convidam, independente das circunstâncias e da economia, não ajudam. Nossa economia não cresce na mesma proporção da chegada incessante de imigrantes. Para ajudar, é preciso encontrar a causa do problema e resolvê-la. É como comprar baldes para goteiras no telhado em vez de consertar o telhado.

  • A Dinamarca, assim como outros países nórdicos, reduziu os benefícios para os imigrantes à medida que o número de chegadas aumentou no ano passado.
  • O Parlamento, onde o Partido Popular Dinamarquês anti-imigrantes é a segunda maior força, aprovou uma lei exigindo que os novos refugiados entreguem pertences de valor para ajudar a pagar pelo seu alojamento.


Oscar Lind, 43 anos, economista, Estocolmo, Suécia. Partido dos Democratas Suecos

Três coisas me fizeram considerar votar pelos Democratas Suecos, mesmo considerando repulsivos os laços históricos do partido com supremacistas brancos e não concordar com suas posições anti-União Europeia e contra ser membro da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental): imigração em massa e fronteiras abertas, políticas de identidade e a propagando do "establishment" em prol das duas primeiras.

A Suécia recebeu imigrantes em massa ao longo das duas últimas décadas. Em vez de reconhecer os problemas relacionados à imigração em massa, os partidos tradicionais e a mídia os ignoraram por décadas ou os atribuíram ao racismo dos suecos, à falta de serviços sociais ou alegaram que apesar da imigração apresentar um custo inicial, é lucrativa a longo prazo.

Por que um trabalhador de etnia sueca do sexo masculino votaria em partidos políticos que veem "homens brancos" como opressores e denigrem regularmente sua etnia e cultura?

  • A imigração na Suécia vem aumentando em ritmo constante nas últimas três décadas. No ano passado, foi concedida residência a quase 10 vezes mais pessoas do que em 1980. Apesar de a criminalidade ter aumentado nas últimas décadas, o número de crimes registrados não cresceu proporcionalmente ao número de imigrantes.
  • A reputação da Suécia de ser um dos países mais receptivos da Europa vem sendo contestada. Os ataques contra imigrantes do Leste Europeu aumentou, assim como cresceu o sentimentos anti-imigrantes com a chegada dos refugiados do Oriente Médio.


Mark Cserepes, 24 anos, estudante de administração, Pecs, Hungria. Jobbik, Movimento por uma Hungria Melhor

Na condição de jovem adulto, gostaria de votar em algo novo, com pouca ou nenhuma ligação com regimes anteriores. Apenas o partido de extrema-direita fala sobre os problemas reais, enquanto os dois partidos maiores prometem resolver as questões ligadas aos ciganos (sua baixa escolaridade e baixa renda), mas nunca fazem nada.

Como estudante universitário, posso dizer que a maioria dos meus amigos, a maioria das pessoas que conheço, pensa da mesma forma. Elas querem apoiar algo novo, porque nem o Fidesz e nem o Partido Socialista funcionam, e gostaríamos que o país melhorasse.

  • A retórica anti-establishment está no centro das políticas do Jobbik. Ele ganhou proeminência durante os protestos de rua violentos contra o governo em 2006.
  • Os simpatizantes do Jobbik elogiam sua posição franca a respeito de questões como a dos "ciganos criminosos", como o partido os chama, alegando que os ciganos do país são particularmente propensos a cometer pequenos crimes. Estudos apontam que a pobreza e exclusão social, e não etnia, são as fontes da criminalidade.


Samuel Teodosio, 28, analista de negócios, Lille, França. Frente Nacional

Eu gosto da Europa e tenho muitos amigos de outros países europeus, mas isso não altera o fato de não ter o senso de pertencer à Europa, especialmente não a "Europa" nos vendida pelo projeto da UE. Sinto que o destino da França está na África e em nossos vizinhos europeus próximos, algo que a Frente Nacional abraça: uma França realmente independente trabalhando por seu próprio destino. Posso não apoiar todas as soluções e propostas do partido, mas tudo começa e termina com a soberania.

  • Sob a liderança de Marine Le Pen, a Frente Nacional rompeu com o passado radical do partido e trabalhou para conquistar um eleitorado mais amplo.
  • Após a decisão do Reino Unido de sair da União Europeia, Le Pen expressou forte apoio à "Brexit" e pediu por referendos semelhantes por toda a Europa.


Robert Meyer, 58 anos, escritor técnico, Dieburg, Alemanha. Alternativa para a Alemanha (AfD)

Ao assistir 800 mil imigrantes ilegais não convidados perambulando pelo país e ao ver a Alemanha permitir que essas pessoas ignorem a lei e façam o que bem entendem, percebi que países que não controlam suas fronteiras, ou não o fazem devido a ideias ingênuas equivocadas sobre "direitos humanos", estão condenados, a menos que as pessoas que pagam os impostos e fazem as coisas funcionar tenham algum poder de decisão sobre o assunto. É uma nova "maioria silenciosa" que tem sido intimidada à submissão pela imprensa liberal e por políticos covardes. É hora de acabar com isso.

  • Mais de 1 milhão de imigrantes chegaram na Alemanha desde o ano passado, mas o governo enfatiza que um número bem menor permanecerá no país.
  • Muitos eleitores temem que abrigar os imigrantes em suas comunidades é um fardo imposto por autoridades que não se importam com as consequências.


Werner Farkas, 36 anos, supervisor de construção, Viena, Áustria. Partido da Liberdade (FPO). O candidato do FPO, Norbert Hofer, pode se tornar presidente em nova realização do segundo turno neste ano.

Votei no FPO por muitos motivos relacionados aos estrangeiros, mas na maioria dos casos, os estrangeiros não são culpados. Nosso governo é responsável pelo ódio contra os imigrantes, porque muitos austríacos se sentem cidadãos de segunda classe em seu próprio país.

Na Áustria, é obrigatório que os homens jovens sirvam nas Forças Armadas. Sem o serviço militar completo, é quase impossível conseguir emprego. Assim, quando precisei abandonar o serviço militar devido a problemas de pressão arterial alta, tive que requerer o bem-estar social. Como nunca tinha trabalhado antes, só consegui o mínimo de 313 euros (cerca de R$ 1.140) por mês. Ao mesmo tempo, os refugiados recebem mais de 700 euros (cerca de R$ 2.550) por mês.

  • No ano passado, perto de 90 mil pessoas pediram asilo na Áustria, um país de 8,6 milhões de habitantes, três vezes mais do que ano anterior e o maior número desde 1956-1957, quando 170 mil húngaros, fugindo da represália soviética, cruzaram a fronteira.
  • A Áustria fornece assistência social a moradores legais e pessoas com status de refugiado no valor de até 837 euros (cerca de R$ 3.050) por pessoa por mês. Na verdade, as pessoas recebem em média 300 euros (cerca de R$ 1.090) e os requerentes de asilo que aguardam por uma decisão recebem no máximo 320 euros (cerca de R$ 1.165).

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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