Opinião: Brancos bem-intencionados veem um presidente negro e acham que o racismo acabou

Nicholas Kristof

  • Jonathan Bachman/ Reuters

    9.jul.2016 - Manifestante para diante de policiais durante protesto pela morte de Alton Sterling, detido e morto por policiais, em Baton Rouge, Louisiana, EUA

    9.jul.2016 - Manifestante para diante de policiais durante protesto pela morte de Alton Sterling, detido e morto por policiais, em Baton Rouge, Louisiana, EUA

Em 1962, 85% dos americanos brancos disseram ao Instituto Gallup que as crianças negras tinham a mesma probabilidade que as brancas de receber uma boa educação. No ano seguinte, em outra pesquisa Gallup, quase a metade dos brancos disseram que os negros tinham uma probabilidade igual à dos brancos de conseguir um emprego.

Em retrospectiva, podemos ver que essas crenças brancas eram ilusórias, e em outras perguntas da pesquisa os brancos admitiam candidamente atitudes racistas. Em 1963, 45% disseram que objetariam se um membro da família convidasse uma pessoa negra para jantar em casa.

Essa complacência entre nós, americanos brancos, tem sido uma constante histórica. Mesmo na última década, quase dois terços dos americanos brancos disseram que os negros são tratados justamente pela polícia, e 4 em cada 5 brancos disseram que as crianças negras têm a mesma probabilidade que as crianças brancas de receber uma boa educação. Em suma, a história das atitudes dos americanos brancos em relação à raça sempre foi de auto-ilusão.

Assim como em 1963, quando muitos brancos bem-intencionados olhavam ao redor e não conseguiam ver o problema, hoje muitos brancos bem-intencionados olham ao redor, veem um presidente negro e declaram que o problema foi resolvido.

Esse é o pano de fundo das tensões raciais que corroem os EUA hoje.

É claro, sempre houve avanços. Em 1939, 83% dos americanos acreditavam que os negros deviam ser mantidos fora dos bairros onde viviam pessoas brancas. Mas se uma lição desse antigo número é que fizemos progresso, outra é como é fácil para uma maioria distinguir minorias de maneiras que mais tarde nos parecem repugnantes.

Para ser justos, a evidência também mostra ilusões dos negros. Mas o que é notável ao rever os dados históricos é que os negros não exageraram a discriminação, mas reduziram sua importância.

Em 1962, por exemplo, a maioria dos negros disse que as crianças negras tinham as mesmas oportunidades educacionais que as brancas, e quase um quarto dos negros disse que tinham as mesmas oportunidades de trabalho que os brancos. Isso foi absurdo: a história não desacreditou as queixas dos negros, mas sobretudo mostrou que eles foram emudecidos.

Meu palpite é que nós olharemos para trás do mesmo modo e concluiremos que os pedidos de justiça racial de hoje minimizam o problema, e que os americanos brancos, embora bem-intencionados, são incrivelmente distraídos sobre a extensa desigualdade.

Afinal, o cirurgião de traumas que dirigia o pronto atendimento em Dallas na última quinta-feira (7), quando sete policiais foram trazidos com ferimentos de bala, é um negro, Brian Williams. Ele lutou para salvar a vida daqueles policiais e chorou pelos que não conseguiu ajudar. Mas em outros contextos ele teme a polícia.

Williams disse à agência de notícias Associated Press que certa vez foi parado pela polícia no trânsito e foi deitado de braços abertos sobre o capô do carro policial.

Williams mostra sua admiração pelos policiais às vezes, pagando suas contas em restaurantes, mas ele também expressou seus sentimentos pela polícia desta maneira no jornal "The Washington Post": "Eu os apoio. Eu os defendo. Eu cuidarei de vocês. Isso não quer dizer que não os temerei".

Essa é uma narrativa que muitos americanos brancos não percebem. A metade de todos os americanos brancos hoje diz que a discriminação contra os brancos é um problema tão grande quanto a que atinge os negros. Mesmo? Isso contraria a maioria das pesquisas que mostram que os negros têm maior probabilidade de ser suspensos na pré-escola, processados por uso de drogas, receber penas mais longas, ser discriminados na habitação, ser recusados em entrevistas de emprego, ser rejeitados em consultórios médicos, sofrer preconceito em quase todos os setores mensuráveis da vida cotidiana.

Na minha mente, uma indignação ainda maior de direitos civis nos EUA do que os abusos policiais pode ser um sistema educacional que habitualmente envia os mais necessitados estudantes negros para escolas mal financiadas, de terceira linha, enquanto dirige recursos abundantes para as escolas brancas ricas.

"Para que a América seja a América, temos de nos envolver em uma conversa maior do que apenas o sistema de justiça criminal", comenta Darren Walker, presidente da Fundação Ford.

"Se você examinar a maioria das instituições que sustentam nossa democracia --educação superior, educação público-privada, sistema habitacional, sistema de transporte, sistema de justiça criminal--, encontrará um racismo sistêmico embutido nesses sistemas."

Mas Walker é um otimista, em parte por causa de sua própria trajetória. Em 1965, como uma criança afro-americana na zona rural do Texas, ele pôde se matricular na Head Start assim que foi fundada-- e tudo mudou. "Ela transformou minha vida e criou possibilidades para mim e um caminho suave", diz ele. "Ela me ofereceu uma vida que eu jamais teria imaginado."

Como sugere a jornada de Walker, temos instrumentos capazes de ajudar, porém, é claro, a desigualdade racial é complexa, envolve não apenas discriminação, mas também empregos, educação, estrutura familiar e mais. Um ponto de partida é que nós brancos acordemos de nossa atual ilusão em massa para reconhecer que na prática a vida dos negros não importava tanto quanto a dos brancos, e que isso é uma afronta aos valores em que todos afirmamos acreditar.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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