Roubo de arquivos sugere envolvimento de Putin em eleição presidencial americana

David E. Sanger

  • Doug Mills/The New York Times

    E-mails roubados sugerem que Vladimir Putin está tentando interferir na eleição presidencial americana

    E-mails roubados sugerem que Vladimir Putin está tentando interferir na eleição presidencial americana

Uma pergunta incomum está atraindo a atenção de ciberespecialistas, especialistas em Rússia e dos líderes do Partido Democrata na Filadélfia: será que Vladimir Putin está tentando interferir na eleição presidencial americana?

Até sexta-feira, essa acusação, com sua estranha sugestão de uma conspiração elaborada no Kremlin para auxiliar Donald Trump, era apenas sussurrada.

Mas a divulgação na sexta-feira de cerca de 20 mil e-mails roubados dos servidores de computador do Comitê Nacional Democrata, muitos deles embaraçosos para os líderes democratas, intensificou a discussão do papel das agências de inteligência russas na disrupção da campanha de 2016.

Os e-mails, divulgados primeiro por um suposto hacker e posteriormente pelo WikiLeaks, expôs o grau com que o aparato democrata favoreceu Hillary Clinton em detrimento de seu principal rival, o senador Bernie Sanders de Vermont, e provocou a renúncia de Debbie Wasserman Schultz, a presidente do partido, às vésperas do primeiro dia da convenção.

Provar a fonte de um ciberataque é reconhecidamente difícil. Mas pesquisadores concluíram que o comitê nacional foi invadido por duas agências de inteligência russas, que também foram responsáveis por ciberoperações russas contra a Casa Branca, o Departamento de Estado e o Estado-Maior das Forças Armadas no ano passado. E os metadados dos e-mails divulgados sugerem que os documentos passaram por computadores russos. Apesar de um hacker ter alegado a responsabilidade pelo fornecimento dos e-mails ao WikiLeaks, as mesmas agências são as principais suspeitas. Se os roubos foram ordenados por Putin ou apenas realizados por burocratas que achavam que isso poderia agradá-lo, ninguém sabe.

Na manhã de domingo, a questão veio à tona, quando o diretor de campanha de Hillary, Robby Mook, argumentou no programa "This Week" da "ABC" que os e-mails foram vazados "por russos visando ajudar Donald Trump", citando "especialistas", mas sem fornecer evidências.

Mook também sugeriu que os russos poderiam ter um bom motivo para apoiar Trump: o candidato republicano indicou em uma entrevista ao "New York Times" na semana passada que poderia não apoiar os países da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar do Ocidente) caso fossem atacados pela Rússia, a menos que estivesse convencido de que os países fizeram contribuições suficientes à aliança.

Foi um momento notável: mesmo no auge da Guerra Fria era difícil encontrar uma campanha presidencial disposta a acusar a rival de, basicamente, atender secretamente as ordens de um adversário americano fundamental. Mas a acusação está despontando como um tema da campanha de Hillary, como parte da tentativa de retratar Trump não apenas como isolacionista, mas um que evitaria confrontar a Rússia enquanto esta ameaça nações que demonstram independência demais em relação a Moscou ou, como no caso da Lituânia, Letônia e Estônia, se uniram à Otan.

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Trump também disse que gostaria de se dar "bem com a Rússia" caso seja eleito, e parabenizou Putin, dizendo que ele é mais líder do que o presidente Barack Obama. Putin, por sua vez, elogiou Trump.

Mas representantes da campanha de Trump rejeitaram fortemente no domingo qualquer ligação entre seu candidato e os ciberesforços para minar os democratas.

"Há alguma ligação entre o sr. Trump, você e sua campanha e Putin e seu regime?" perguntou George Stephanopoulos, do "This Week", a Paul Manafort, o diretor de campanha de Trump.

"Não, não há", respondeu Manafort. "Isso é absurdo. E, como você sabe, não há base para isso."

Evidências sugerem que o ciberataque foi obra de pelo menos duas agências separadas, cada uma aparentemente trabalhando sem o conhecimento de que a outra tinha invadido os sistemas de computador dos democratas. Não está claro como o WikiLeaks obteve os e-mails. Mas a suposição é de que as agências de inteligência os forneceram, seja de forma direta ou por meio de um intermediário.

Além disso, o momento da divulgação, entre o fim da convenção republicana e o início da convenção democrata, parece muito bem planejado para ser uma coincidência.

O próprio Trump não perdeu tempo em explorar a notícia após a divulgação pelo WikiLeaks no sábado. Em uma mensagem pelo Twitter, ele escreveu: "E-mails vazados do CND mostram planos para destruir Bernie Sanders. Zombam de suja herança e muito mais. Online pelo 'Wikileakes' (sic). realmente feio. Fraude".

Os especialistas citados por Mook incluem a CrowdStrike, uma empresa de cibersegurança contratada pelo Comitê Nacional Democrata quando seus dirigentes suspeitaram que tinham sido hackeados. Em meados de junho, a empresa anunciou que os invasores aparentemente incluíam um grupo que identificou anteriormente pelo nome de "Cozy Bear" (algo como urso acolhedor ou aconchegante) e "APT 29", e que estava dentro dos servidores do comitê há um ano.

Um segundo grupo, "Fancy Bear" (algo como urso extravagante ou caprichoso), também chamado de "APT 28", entrou no sistema em abril. Ele parece ser operado pelo GRU, o serviço de inteligência militar russo, segundo investigadores federais e empresas privadas de cibersegurança.

O primeiro grupo é bastante conhecido pela unidade de contrainteligência do FBI (Birô Federal de Investigação, a polícia federal americana), pela CIA (Agência Central de Inteligência) e outras agências de inteligência. Ele foi identificado pelos investigadores federais como provável culpado por invasões aos sistemas de computador não confidenciais do Departamento de Estado e da Casa Branca.

As agências de inteligência russas não mediram esforços para cobrir seus rastros, disseram os investigadores, incluindo o apagar meticuloso de logs de dados e a mudança dos registros de hora e data dos arquivos roubados.

Membros de várias outras empresas que examinaram o código do malware usado contra o Comitê Nacional Democrata e os metadados dos documentos roubados encontraram evidência de que os documentos foram acessados por múltiplos computadores, alguns deles configurados para língua russa. Moscou já terceirizou no passado hacking politicamente motivado para grupos externos. Um ciberataque debilitante contra a Estônia em 2007, por exemplo, foi atribuído à organização jovem Nashi pró-Kremlin. Autoridades de inteligência e pesquisadores de segurança acreditam que essa terceirização é feita, em parte, para preservar um grau plausível de negação.

Invasões como essa para coleta de inteligência estão longe de ser incomuns, e os Estados Unidos com frequência fazem o mesmo, roubando e-mails e outros segredos de serviços de inteligência e até mesmo de partidos políticos. Mas a divulgação para o WikiLeaks adiciona outro elemento estranho, por sugerir que a inteligência encontrada foi transformada em arma, usada para influenciar a eleição de algum modo.

Nick Corasaniti,em Washington, e Nicole Perlroth, em Olympic Valley, Califórnia, contribuíram com reportagem.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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