Líder de 'revolta' contra Hillary, Bernie agora tenta abafar protestos

Michael Barbaro e Yamiche Alcindor*

Na Filadélfia (EUA)

  • Timothy A. Clary/AFP

    Adversário de Hillary nas prévias, o senador Bernie Sanders declarou apoio à democrata em discurso no primeiro dia da convenção

    Adversário de Hillary nas prévias, o senador Bernie Sanders declarou apoio à democrata em discurso no primeiro dia da convenção

Bernie Sanders gosta de se gabar de que iniciou um movimento inflamado. Às vezes, na última segunda-feira (25), parecia que ele tinha perdido o controle das chamas.

Na abertura da Convenção Nacional Democrata, a coalizão desordenada de liberais que Sanders entregou a Hillary Clinton perturbou na plateia da convenção. Eles marcharam nas ruas e protestaram diante da arena.

Recusaram-se a sair silenciosamente.

Eles irromperam em críticas carregadas de xingamentos à presidente do partido, emitiram denúncias ácidas contra Hillary e, mais vividamente, deram uma reação morna e hesitante ao apoio de Sanders a Hillary no horário nobre.

"Bernie para presidente!", gritaram alguns. "Estamos muito decepcionados!", bradou uma mulher.

Para os fiéis a Sanders, a decepção foi o tema inconfundível do dia.

"Diabos, não, convenção democrata! Não votaremos em Hillary!", gritaram os seguidores dele para os delegados democratas que entravam no salão da convenção na noite de segunda-feira. "Prendam-na!", eles gritavam das ruas.

As revoluções raramente terminam calmamente. Foi uma lição que Sanders pareceu absorver em rede nacional de televisão, com seu rosto traindo surpresa e seu dedo balouçante pedindo paz, enquanto seus apoiadores gritavam mais alto em um comício no Center City na tarde de segunda. "Queremos Bernie!", gritaram eles quando o políticoexplicou seu apoio a Hillary.

Sanders apelou por união, mencionando o nome de Hillary 15 vezes em seu discurso no final da segunda-feira e declarando que "Hillary Clinton deve ser a próxima presidente dos EUA".

Mas seus seguidores mais leais estavam famintos por mais combate.

"Estou vaiando agora e vou vaiar durante mais quatro dias", disse Jody Feldman, uma delegada da Califórnia, sentada na plateia da convenção.

Liz Maratea, 31, uma delegada de Nova Jersey, disse que se recusa a baixar as armas e aceitar Hillary como candidata. "Ela tem a profundidade moral de um dedal", disse Maratea. "Nós temos de aceitar isso, ou devemos nos levantar?"

Sanders pede que apoiadores votem em Clinton para barrar Trump

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Aqui na Filadélfia os ativistas inspirados em Sanders se apossaram da mensagem e do megafone de sua autoproclamada rebelião contra o dinheiro e o poder e decidiram que o homem que inspirou sua causa, e que enfeitava suas camisetas, não é mais o líder inconteste de seu movimento.

"Por mais amado que seja Bernie", disse Norman Solomon, um delegado de Sanders da Califórnia, "ele não está dirigindo o show."

Pressionado na segunda-feira sobre se Sanders poderia impedir que delegados fizessem manifestações perturbadoras na convenção, Solomon, que coordenava centenas de delegados de Sanders, sugeriu que a voz do senador não tem maior poder que a de qualquer outro.

"Nós a levaremos em consideração como faríamos de qualquer outra fonte", disse Solomon.

Horas depois, Sanders fez exatamente isso, pedindo aos delegados em um e-mail urgente que não pusessem em risco sua reputação e a deles ao vaiar ou abandonar Hillary e seus aliados na convenção.

"Nossa credibilidade como movimento será prejudicada", advertiu Sanders, acrescentando: "É isso o que Donald Trump quer. Mas não é o que expandirá o movimento progressista neste país".

Nem todos os seus partidários obedeceram.

A rejeição a Hillary no interior do Wells Fargo Center era dispersa, mas persistente. Os leais a Sanders mostravam punhos com os polegares voltados para baixo. Eles gritavam "não". Usavam broches, adesivos, camisetas e chapéus com o rosto de Sanders. E desfiguravam cartazes de Hillary que antes diziam "Mais fortes juntos", transformando a mensagem em "Detenham-na".

De certa maneira, os irados remanescentes da campanha presidencial de Sanders não estão mais ligados a ele: tornaram-se um cozido de reclamações fervilhantes das primárias sobre regras, processo, dinheiro, justiça e democracia --e foram reavivados por e-mailsvazados do ComitêNacional Democrata revelando a inclinação de algumas autoridades do partido em favor de Hillary.

"Ele entrou para este partido para produzir algumas mudanças sérias, e eles têmbrincado com ele o tempo todo", disse Alec Mondello, um apoiador de Sanders que veio de El Paso, no Texas, para ver a campanha do senador chegar a seu amargo fim.

Mas para os fiéis a Hillary, que esperaram anos para coroá-la como a candidata democrata, o repúdio dos seguidores de Sanders foi uma virada dolorosa e inesperada.

Michael Charney, um delegado de Ohio, ficou atônito quando os delegados que apoiam Sanders irromperam em vaias ao ouvir o nome de Hillary.

"Estou frustrado", disse Charney, "porque eu acho que isso representa uma imaturidade política enganada sobre como fazer uma revolução política."

As demonstrações de desobediência revelaram as fissuras no movimento de Sanders, que rachou em campos aparentemente implacáveis. Há os verdadeiros fiéis que cantam "Bernie ou nada". Há os eleitores desiludidos que gravitam na direção de Trump. E há os pragmáticos que abandonaram a luta e vão apoiar Hillary.

Estatisticamente, os que estão preparados para abraçar Hillary são, de longe, o maior grupo de seguidores de Sanders, segundo diversas pesquisas. Mas aqui na convenção eles estão lutando para ser ouvidos acima de seus colegas mais irados e ruidosos, que não querem entrar na linha.

Sua desconfiança de Hillary é mais profunda. Mesmo que ela vença, eles já esperam ser decepcionados por sua presidência. Rosario Dawson, uma atriz e apoiadora de Sanders, aconselhou os colegas democratas a observarem cuidadosamente uma Casa Branca de Hillary por sinais de traição sobre questões liberais como a atenção à saúde universal e um salário mínimo federal de US$ 15 a hora (R$ 49,20).

Se não, advertiu ela, "haverá desobediência civil, porque falamos sério".

Durante todo o dia, em meio a cantos e contracantos, lampejos de fúria e tentativas febris de contê-los, os fiéis a Sanders se mostraram inimigos espertos dos que tentavam proteger Hillary.

Com o avançar da noite, os seguidores de Hillary distribuíram placas destinadas a encobrir as divisões na sala, que diziam: "O amor vence o ódio" [Love trumps hate].

Mas um apoiador de Sanders, armado com uma caneta preta, a reescreveu em protesto. "Ame Bernie", dizia a versão deturpada, "ou o ódio de Trump vencerá."

Para calar as vaias que irrompiam quase toda vez que se mencionava sua candidata, os apoiadores de Hillary tentaram gritar seu nome mais alto. Mas os delegados de Sanders continuavam encontrando meios de superar.

Seu candidato pode ter lhes pedido uma cortesia calma, mas sua raiva era maior que ele agora.

"Ele tem de jogar bonito", disse Kim Netherton, uma delegada do Colorado que vaiava Hillary da plateia. "Mas eu não."

*Colaboraram na reportagem Matt Flegenheimer, Nick Corasaniti e Deborah Acosta

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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