Opinião: Trump é o reflexo da fragilidade do homem branco que perdeu privilégios

Charles M. Blow

  • Ty Wright/The New York Times

    6.jul.2016 - Donald Trump acena para simpatizantes durante campanha em Cincinnati

    6.jul.2016 - Donald Trump acena para simpatizantes durante campanha em Cincinnati

As notícias sobre o fim de Donald Trump foram um grande exagero, para parafrasear Mark Twain. Sim, ele não consegue parar de falar e dar tiros no pé, e há relatos de que sua bagunçada campanha está quase beirando um motim.

Sim, ele não sabe quase nada de assuntos internacionais, e isso se torna cada vez mais aparente toda vez que ele tropeça em alguma entrevista. Senhor, Putin invadiu a Ucrânia em 2014, mesmo ano em que o senhor gravou seu último episódio do reality show "O Aprendiz - Celebridades".

Sim, sua briga contínua com a família de um soldado muçulmano morto pode ser o erro mais impensado e imprudente já cometido na história recente da política (Trump não para de bater esses recordes).

Esse é o mesmo homem que recebeu cinco dispensas durante a Guerra do Vietnã, uma delas por "esporão no calcanhar", de acordo com o "New York Times". Enquanto milhares de seus contemporâneos lutavam—e morriam—nos campos de batalha, Trump aparecia na primeira página do "New York Times" depois que ele e seu pai foram processados pelo Departamento de Justiça por discriminação contra negros na locação de suas propriedades.

Três anos depois, o "New York Times" fez um perfil seu ironizando os novos ricos: "Ele anda pela cidade em um Cadillac prateado dirigido por chofer com suas iniciais, DJT, na placa. Ele namora modelos sensuais, é membro dos mais elegantes clubes e, com somente 30 anos de idade, estima valer 'mais de US$ 200 milhões'."

Sim, ele não parece saber a diferença entre Tim Kaine, o senador democrata da Virgínia que Hillary Clinton escolheu como vice, e Tom Kean, o ex-governador republicano de Nova Jersey que ocupou esse cargo pela última vez 26 anos atrás, mesmo ano em que Trump se vangloriou em seu livro "Sobrevivendo ao Sucesso" que nunca teve "problemas na cama", e aconselhou, na "Vanity Fair": "Quando um homem deixa uma mulher, especialmente quando se vê que ele a deixou por uma trepada—e das boas!—50% da população vai adorar a mulher que foi abandonada."

Sim, sim e sim.

Mas Donald Trump é maior que tudo isso, ou devo dizer, menor.

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Ele apela para algo mais profundo, mais visceral: o medo. Todo o slogan de sua campanha, "Torne os Estados Unidos grandiosos novamente", é na verdade uma admissão invertida de perda—perda de primazia, perda de privilégios, perda de prestígio.

E quem sente que mais perdeu? Os homens brancos.

Como a coluna "Upshot" do "New York Times" apontou em julho, "De acordo com nossas estimativas, Hillary Clinton está se saindo melhor entre basicamente todos os grupos de eleitores, exceto pelos homens brancos sem ensino superior." Ou colocando de outra forma: "Hillary Clinton em geral está se saindo tão bem ou melhor que Barack Obama em 2012, exceto entre homens brancos sem ensino superior."

De fato, uma reportagem no "New York Times" de segunda-feira colocou da seguinte forma: "Uma pesquisa do 'New York Times'/CBS News de duas semanas atrás descobriu que homens brancos preferiam seu adversário republicano, Donald J. Trump, a Hillary Clinton, em uma proporção de quase 2 para 1, com 55% contra 29%".

Esses são os eleitores que estão mantendo a candidatura de Trump viva.

Ele atrai uma branquitude americana patriarcal, retrógrada, na qual homens brancos prosperaram, em parte porque minorias raciais e étnicas, para não mencionar mulheres como um todo, eram desvalorizadas e mal pagas, quando não totalmente excluídas.

Homens brancos reinaram soberanos em uma história idealizada, e tudo estava bem com o mundo. (É curioso que Trump nunca especifique um período quando os Estados Unidos foram grandiosos em sua visão. Teria coincidido com os movimentos dos direitos das mulheres, dos direitos civis ou dos direitos gays? Para quem o país era grandioso?)

O muro de Trump não é prático, mas é uma metáfora. O banimento de muçulmanos de Trump não é factível, mas é uma metáfora. O imenso plano de deportação de Trump não é viável, mas é uma metáfora.

Existe uma parte da população que se sente ameaçada por mudanças inexoráveis, representadas pela imigração, pela globalização, pelo terrorismo, pelo multiculturalismo, e essas pessoas querem alguém que, pelo menos metaforicamente, construam um muro em torno de seu patrimônio cultural, que elas confundem em igual medida com o patrimônio americano.

Na cabeça delas, seja explícita ou implicitamente, os Estados Unidos são brancos, cristãos, heterossexuais e dominados por homens. Se você apoia Trump, você está em algum grau apoiando sua intolerância e seu racismo. Não tem como você ter um cachorrinho e não recolher o seu cocô.

E a aceitação do racismo é um ato de racismo. Você é culpado de sua cumplicidade.

Não estou acostumado a pisar em ovos; prefiro dar nome aos bois. Prefiro apontar uma luz forte para a questão até que ela murche. Apoiar Trump é algo indefensável e torna você tão pária quanto ele.

Como Toni Morrison disse um dia para Charlie Rose:

"Você não entende que as pessoas que fazem isso, que praticam o racismo, são carentes? Há algo de distorcido com a psique delas. É uma grande devastação, é uma grande corrupção e uma distorção. É como uma profunda neurose que ninguém examina pelo que ela é."

Isso acaba aqui, agora. Enquanto o racismo e a xenofobia existirem neste país, os pontos fracos de Trump não vão sinalizar sua derrocada final. Mas não vamos isentar as pessoas que o apoiam, alegando que elas são simplesmente leais ao partido ou que odeiam Hillary ou que estão preocupadas com a Suprema Corte.

Trump é um espelho. Ele é um reflexo—na verdade, uma revelação—da feiura que você nutre, é só possível que você tenha passado sua vida expressando-a de formas mais implícitas e políticas. Trump é um grito primal sem filtro da fragilidade e do medo que estão consumindo os Estados Unidos do homem branco.

Tradutor: UOL

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