Depois de ataques em Dallas, milhares de americanos tentam ingressar na polícia

Jack Healy

Em Dallas (EUA)

  • Eric Gay/AP

Há dois anos, Dakota Leierer trabalhava em turnos de duas semanas nos campos de petróleo no oeste do Texas, dormindo em trailers e dirigindo quatro horas para ver sua mulher e os dois filhos pequenos. Mas em 7 de julho, quando um atirador matou cinco policiais em Dallas, Leierer decidiu que precisava fazer uma mudança. Queria se tornar um policial de Dallas.

"Tudo o que está acontecendo no mundo --as crises, as comunidades que não se entendem, os protestos", disse Leierer, 22. "Isso meio que me atingiu."

As relações entre a polícia e o público são especialmente cruas neste momento, cheias de tensões políticas e raciais. Mas a morte de oito oficiais de polícia no Texas e na Louisiana no último mês geraram algumas pontes sobre a divisão, com policiais de todo o país relatando gestos de bondade --café e refeições que lhes serviram, ofertas espontâneas de orações e agradecimentos.

O ataque aos policiais de Dallas produziu outro resultado: um surto de interesse por entrar para suas fileiras.

Leierer, cuja família vive a cerca de uma hora de Dallas, enviou um pedido de inscrição um dia depois do ataque. Foi um dos 467 que inundaram o Departamento de Polícia de Dallas nas duas semanas após o tiroteio, mais que o triplo do número em um período semelhante um mês antes.

Os policiais disseram que as matrículas continuam chegando, dando à força de 3.500 indivíduos um banco de interessados maior que o normal para encher uma classe da academia de polícia, que nos últimos meses lutava para encontrar recrutas.

Para alguns, um anúncio de que a cidade está contratando policiais apresentou a oportunidade de um emprego fixo, com benefícios, embora com salário modesto, horários inconstantes e riscos. Mas para autoridades da cidade e da polícia a enxurrada de inscrições e telefonemas de possíveis recrutas foi um sinal de resiliência e apoio, como se centenas de pessoas, horrorizadas pelo ataque contra policiais, estivessem se unindo para oferecer ajuda.

"Nossos policiais correram na direção do evento", disse o major Mike Rawlings. "E é isso o que os jovens homens e mulheres estão fazendo, correndo para isto e seguindo os policiais que morreram. É uma grande homenagem a suas vidas."

O vice-delegado Jeff Cotner, que supervisiona o treinamento policial, disse que o aumento de inscrições demonstra o ditado sobre se reerguer quando você é derrubado.

Foi um tema usado por Hillary Clinton, que disse em seu discurso de aceitação da nomeação na Convenção Nacional Democrata na semana passada que o aumento de inscrições na polícia de Dallas mostra "como os americanos respondem quando há um pedido de ajuda".

A reação vem em um momento especialmente frágil para a polícia. As mortes de policiais cresceram 8% em relação a um ano atrás, com um aumento de 78% em fatalidades de oficiais relacionadas a armas de fogo, incluindo ataques do tipo emboscada como o de Dallas. Em seu discurso no mês passado na Convenção Nacional Republicana, Donald Trump disse que "a América está chocada em seu âmago" com os tiroteios em Dallas e em meia dúzia de outros Estados.

Alguns dos inscritos disseram que faziam isso porque queriam ajudar a polícia. Outros disseram que queriam servir nos bairros onde os tiros disparados pela polícia contra homens negros desarmados agravaram anos de raiva e desconfiança. Eles admitiram que estavam entrando no policiamento em um momento angustiante.

"Muita gente disse: 'Não quero que você vá para a polícia. Não pode encontrar outra coisa para fazer?'", disse Jamile Owens, 29, que é afro-americana e se inscreveu no Departamento de Polícia de Dallas um mês antes dos tiroteios.

O aumento de inscrições foi provocado por pedidos ao público feito pelo chefe David O. Brown, que falou em público quatro dias depois das mortes, expondo francamente os desafios do trabalho policial e as necessidades do departamento.

"Estamos contratando", disse Brown. "Saiam da fila de protesto e façam uma inscrição. E nós os colocaremos em seu bairro e os ajudaremos a resolver alguns dos problemas que causam seu protesto."

O surto de interesse poderá se verificar uma bolha, do mesmo modo que os alistamentos militares aumentaram um pouco depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, mas enfraqueceram durante as duas guerras que se seguiram.

Há anos, a polícia e os departamentos de delegados de todo o país lutam para encontrar recrutas qualificados --especialmente mulheres e membros de minorias-- para cargos que às vezes não parecem compensar a promessa de aposentadoria e bons benefícios. No rastro dos protestos e do escrutínio da mídia sobre os tiros da polícia contra homens negros em lugares como Ferguson, Missouri, Minnesota e Louisiana, policiais dizem que convencer os civis a se inscrever para usar um uniforme ficou ainda mais difícil.

"Quem quer trabalhar nesse tipo de ambiente?", disse Cotner. "É uma ocupação nada atraente, e você tem de realmente ser apaixonado pelo que faz."

A polícia de Dallas lutou em duas frentes: para encontrar recrutas suficientes para uma classe na academia de polícia e para impedir que os oficiais migrem para forças policiais que pagam melhor. Os policiais de Dallas ganham um salário inicial de US$ 44.658 (R$ 146.924,82 anuais), segundo o site do departamento, cerca de US$ 10 mil a menos que alguns departamentos de polícia próximos.

A maioria das 467 pessoas que se inscreveram para o exame do Serviço Civil --o primeiro passo para ser contratado-- provavelmente nunca usará um distintivo da polícia de Dallas. O departamento diz que só contrata cerca de 15% dos inscritos que passam por um mês de checagens, testes de capacidade física, testes de polígrafo e entrevistas.

Jaiston Sawyer, 30, um guarda de segurança, disse que sentiu que a exortação de Brown parecia dirigida a ele. Embora ele seja um usuário crítico das redes sociais, segundo Sawyer, depois do ataque de Dallas simplesmente postar uma resposta pareceu banal demais. Ele disse que se inscreveu na polícia em sua cidade, Denton, a noroeste de Dallas, e pretendia também se inscrever em Dallas.

"Nada acontece quando você fica online ou tenta protestar", disse Sawyer, que descreveu sua decisão à Fox 4 News em Dallas. "Isso não faz diferença, ao contrário de realmente vestir o uniforme."

A mãe de Sawyer, Terri, disse que ficou aterrorizada no início, com a memória dos funerais de policiais e o cerco no centro de Dallas ainda recentes. Ela e a namorada de Sawyer temem por sua segurança. Elas lhe perguntaram: por que agora?

"Eu queria ter uma função real", disse Sawyer. "E decidi dar o salto."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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