Rejeição a Trump pode fazer Utah eleger democrata pela 1ª vez desde a década de 60

Alan Rappeport

Em Salt Lake City (EUA)

  • Kim Raff/The New York Times

    Mormons em Utah

    Mormons em Utah

Donald Trump prometeu transformar Estados democratas em republicanos em novembro, mas ao continuar irritando os republicanos com seu estilo combativo e propostas provocadoras, os eleitores em alguns dos redutos mais conservadores do país estão considerando uma ideia radical: votar em Hillary Clinton.

O dilema apresentado pelos candidatos escolhidos neste ano talvez seja mais aparente aqui em Utah, o Estado montanhoso que não vota em um democrata para a presidência desde Lyndon B. Johnson, em 1964. Mais de 50 anos depois, uma grande população mórmon com forte rejeição a Trump deixa a disputa aberta no Estado, e com a presença substancial de mórmons espalhada por lugares como Arizona, Idaho e Nevada, zonas que seriam seguramente republicanas podem surpreendentemente se transformar em disputadas.

Com a campanha de Hillary buscando colocar Estados de inclinação republicana em disputa, a decisão para muitos eleitores mórmons em Utah se tornou agonizante, diante das posições de Trump em relação aos muçulmano e da própria história deles como religião com frequência marginalizada, e à medida que a mensagem dele de "América Primeiro" repele os mórmons de maior grau de instrução, que viajam pelo mundo como missionários e que acolhem refugiados.

"Pessoas que costumam votar em republicanos se encontram em um estado terrível de ambivalência no momento", disse Tim Chambless, um cientista político da Universidade de Utah. "Elas estão indecisas demais. Elas querem votar, mas não sabem ao certo em quem."

Os primeiros sinais dos problemas de Trump em Utah datam do início de março, quando Mitt Romney, o candidato presidencial republicano de 2012 e um mórmon que é muito querido no Estado, fez um discurso aqui alertando que os americanos estão sendo enganados por Trump. Mais adiante naquele mês, Trump foi derrotado pelo senador Ted Cruz na primária do Estado, ficando com apenas parcos 14% dos votos. Em junho, duas pesquisas mostraram Trump e Hillary empatados em Utah, tornando altamente plausível que seus seis votos do colégio eleitoral estejam realmente em disputa.

Restando três meses para a eleição, a campanha de Hillary agora está considerando uma possível vitória em Utah, o candidato libertário Gary Johnson está atraindo agressivamente os republicanos desencantados e, na segunda-feira, começaram a correr rumores de que Evan McMullin, um mórmon que é um ex-funcionário da CIA contrário a Trump, também estava entrando na disputa.

Eleitores como Angie Melton, que nunca votaram em um democrata, estão se sentindo profundamente divididos.

"Estou incomodada com esta situação", disse Melton, 41, enquanto estava sentada com sua família à sombra do enorme Templo de Salt Lake, o centro do mormonismo. "Sempre votei nos republicanos, mas meu pensamento é de que ela seria menos danosa em termos de políticas globais", ela disse, referindo-se a Hillary.

"Isso não significa que concorde com grande parte do que ela diz ou com ela como pessoa", acrescentou Melton, "mas prefiro que ela vença".

Esse desconforto está se tornando comum à medida que crescem diariamente as trepidações a respeito de Trump. Tanto em conteúdo quanto em estilo, ele provoca uma antipatia entre muitos mórmons que está enraizada na cultura, religião e história. Para um grupo religioso que fugiu para Utah no século 19 para escapar da perseguição, os pedidos de Trump por testes religiosos e uma proibição à imigração de muçulmanos ecoam um passado doloroso, deixando alguns se perguntando se serão os próximos.

"A questão da liberdade religiosa é importante no Estado, e a noção de um teste religioso para imigração provoca profunda preocupação", disse Chris Karpowitz, um codiretor do Centro para o Estudo das Eleições e da Democracia da Universidade da Universidade Brigham Young. "Os mórmons são sensíveis a questões como essa por causa de sua própria história."

Joseph Smith fundou a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias no interior de Nova York, em 1830. Mas os convertidos com frequência eram visados como hereges por praticarem poligamia, acreditarem em textos exclusivos do mormonismo e por alegarem que sua fé era a verdadeira restauração do cristianismo.

A maioria dos mórmons era democrata no século 19, notou Karpowitz, por causa da oposição republicana à poligamia, mas começou a se deslocar para a direita no século 20. Na eleição presidencial de 2012, tendo Romney como candidato, 90% dos mórmons de Utah votaram no Partido Republicano.

Esse número deve cair de modo significativo neste ano com Trump encabeçando a chapa. Suas posições em constante alteração a respeito de questões sociais, suas posições linhas-duras sobre imigração e seu estilo de vida ostentoso entram em atrito com a sensibilidade dos mórmons, que valorizam a humildade e a caridade.

E há sua posição contra receber refugiados do exterior.

"A retórica dele e a retórica da Igreja a respeito de refugiados não poderia ser mais diferente", disse J. Quin Monson, um coautor de "Seeking the Promised Land: Mormons and American Politics" (Buscando a terra prometida: mórmons e a política americana, em tradução livre, não lançado no Brasil).

Os democratas estão levando Utah a sério. Apesar de saberem que as maiores chances no Estado não se devem a um aumento repentino da popularidade de sua candidata, o partido adoraria quebrar a sequência de derrotas.

"Esta é a primeira vez desde meados dos anos 60 que um candidato presidencial democrata tem chance de vencer em Utah", disse Peter Corroon, o presidente estadual do partido. "Infelizmente, não é por causa da democrata, mas por causa de um republicano."

Mórmons jovens republicanos como Mary Weidman dão esperança aos democratas. Sentada do lado de fora de uma loja de refrescos em Provo, Weidman explicou que após apoiar Romney quatro anos atrás, ele votará em Hillary em novembro.

"Eu acho que é mal menor", disse Weidman, 27 anos, expressando desalento pela forma como Trump fala sobre mulheres. "Quando penso em um líder, ele carece de qualquer característica."

A despeito desses sentimentos, é arriscado contar com uma derrota republicana. Apesar da campanha de Trump não ter comentado sobre sua estratégia, o Partido Republicano estadual disse que a equipe de Trump está atuando em Utah. Antigos conservadores que dizem estar pensando em votar em Hillary podem pensar duas vezes no dia da eleição.

"A esta altura os republicanos podem estar um pouco descontentes com Trump, mas vão votar nele", disse James Evans, o presidente estadual do partido.

Esse parece ser o caso de Nathan Alder, um mórmon republicano de 21 anos que frequenta a Universidade do Vale de Utah, em Orem. Com seu skate em uma mão e seu cachorro ao seu lado, ele disse que quando chegar a hora, ele provavelmente tampará o nariz e votará em Trump.

"Não gosto do Trump, mas provavelmente votarei nele", disse Alder, explicando que suas preocupações com as posições liberais de Hillary provavelmente pesarão mais do que seus temores com o temperamento de Trump. "Mas estou dividido, não vou mentir."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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