Derrota de Clinton em eleição levou Hillary ao mundo corporativo para sustentar a família

Amy Chozick

Em Little Rock, Arkansas (EUA)

  • Clinton Presidential Library via The New York Times

    Bill e Hillary Clinton com Chelsea em 1980

    Bill e Hillary Clinton com Chelsea em 1980

Perder a disputa para governador aqui em 1980 foi tão devastador para o jovem Bill Clinton a ponto de ele não conseguir encarar seus apoiadores, de modo que ele enviou sua mulher para agradecer aos seus funcionários de campanha. Ele posteriormente se reuniu com amigos próximos para um jantar, mas ficou amuado, tocando a canção country "I Don't Know Whether to Kill Myself or Go Bowling" (Não sei se me mato ou vou jogar boliche, em tradução livre) na jukebox.

Mas sua mulher tinha uma preocupação mais urgente: dinheiro. O ex-governador precisava de um emprego, a família precisava de um lugar para morar e deixar a mansão do governador significava perder a ajuda que tinham para criar a filha deles de 9 meses, Chelsea.

Na manhã após a eleição, Hillary Clinton fez várias ligações telefônicas da mansão, para falar com amigos ricos e pedir ajuda.

"O mundo mudou. Aquela foi uma mudança sísmica", disse Thomas F. McLarty 3º, um amigo de Bill Clinton que serviu como seu chefe de gabinete na Casa Branca.

Bill Clinton era de pouca ajuda por estar fixado na rejeição pelos eleitores. E pela primeira vez, disseram amigos, Hillary Clinton vislumbrou fragilidade no futuro que ela visava no Arkansas ao se mudar para lá. Ela se preocupava em economizar para a faculdade de Chelsea, cuidar de seus pais idosos e, até mesmo, se sustentar caso seu casamento ou os sonhos políticos do casal se desfizessem.

"Cabia a ela manter as coisas em pé", disse Nancy Pietrafesa, uma amiga de faculdade de Hillary que se mudou para o Arkansas para trabalhar para Bill Clinton nos anos 70.

O relacionamento de Hillary Clinton com dinheiro há muito confunde até mesmo alguns de seus apoiadores mais próximos: apesar de escolher uma vida no governo, ela parece disposta a ganhar dinheiro, movida pelo desejo de prover para sua família e a ajudando a acumular uma fortuna de mais de US$ 50 milhões com seu marido.

Mas Hillary pode parecer cega para a forma como suas decisões financeiras são vistas, e em consequência já sofreu repetidos danos políticos e acusações de conflito de interesse, desde servir no conselho diretor do Wal-Mart enquanto seu marido era governador até inicialmente aceitar uma hipoteca de US$ 1,35 milhão. garantida pessoalmente por um importante arrecadador de fundos, para o lar da família em Chappaqua, Nova York.

Sua arrecadação de mais de US$ 21 milhões em taxas de palestras junto a vários grupos, incluindo firmas de Wall Street e outros interesses, resultou em um dos ataques mais potentes contra ela neste ciclo eleitoral, diante da fúria dos eleitores em torno da desigualdade econômica. Metade de todos os eleitores disse se sentir "muito" incomodada por Hillary ter dado numerosas palestras a bancos de Wall Street, segundo uma pesquisa Bloomberg Politics realizada em junho.

Donald Trump chamou Hillary de "totalmente controlada por Wall Street".

Trump, cujas próprias finanças provocam intenso escrutínio, pode ser um mensageiro imperfeito, mas "os republicanos podem dizer: 'Isso mina tudo o que ela está dizendo sobre o que deseja fazer para regular Wall Street, assim como sua posição econômica populista'", disse Anna Greenberg, uma analista de pesquisas de opinião democrata.

Até mesmo alguns aliados de Hillary dizem de forma privada que não entendem a decisão dela de fazer palestras para Wall Street, diante da probabilidade disso se transformar em uma questão em uma campanha presidencial. E para alguns deles, suas decisões financeiras entram em conflito com o credo metodista altruísta de fazer bem aos outros, que ela costuma dizer que a guiou para sua vida no serviço público.

Mas velhos amigos dizem que a contradição está enraizada na praticidade de Hillary e nos altos e baixos financeiros que caracterizaram a vida dela com Bill Clinton.

Em nenhum momento esses momentos difíceis recaíram tanto sobre os ombros de Hillary do que no período difícil de dois anos em Arkansas, quando ela e seu marido se viram afastados do poder, em aperto financeiro e profundamente incertos a respeito de seu futuro. E a lembrança daquela época moldou o desejo dela de se ver livre do fardo financeiro.

"Hillary provou por dois anos o que significa ser uma mãe que trabalha fora, sem qualquer ajuda, de ter que cuidar de seu bebê e cuidar de seu emprego", disse James B. Blair, um amigo próximo de Hillary e um advogado que ofereceu a ela uma dica de investimento nos anos 70.

A perda inesperada pelo casal Clinton de sua vida confortável ocorreu em um momento em que o Arkansas estava repleto de novo dinheiro e esquemas para enriquecer rapidamente, à medida que empresas como Tyson e Wal-Mart criavam milionários e novas instituições de crédito e poupança se espalhavam por todo o Sul.

Uma geração de jovens formados das universidades de elite do Nordeste, como Bill Clinton, voltava aos seus Estados de origem para deixar sua marca. Dinheiro parecia estar a toda volta do casal Clinton, mas eles próprios não tinham muito. E diferente de Hillary, uma pessoa preocupada por natureza, Bill Clinton, consumido por seus sonhos de uma carreira política, parecia indiferente em assegurar um futuro financeiro.

"Ele nunca foi interessado em dinheiro", disse Blair. "Ela é que teve que assegurar que Chelsea teria condições de cursar uma universidade."

Pessoas próximas de Hillary Clinton não invejam o desejo dela de prover generosamente à sua família, e certamente muitos candidatos presidenciais e funcionários públicos acumulam vasta riqueza pessoal. Ao ser perguntada em uma entrevista se as dificuldades financeiras do passado a levaram a buscar a atividade lucrativa de palestrante, Hillary disse: "Eu realmente acho que é mais simples que isso", acrescentando que é comum secretários de Estado compartilharem seus pontos de vista em palestras após deixarem o cargo.

Decoração de brechó

Era uma das menores casas na quadra no setor Hillcrest de Little Rock, e Hillary Clinton em grande parte a comprou com seu próprio dinheiro, um mês após a derrota eleitoral devastadora de 1980.

Ela mobiliou os cômodos com móveis que não combinavam, comprados em brechós e emprestados de sua sogra extravagante. Ela converteu o sótão sem janelas em um quarto para Chelsea, estacionava seu Oldsmobile Cutlass na entrada de carro cheia de trepadeiras e corria atrás do cocker spaniel da família, Zeke, que gostava de abrir caminho na cerca.

O casal Clinton ficou em aperto financeiro para adquirir a casa de US$ 112 mil, que ficava colina abaixo das mansões dos antigos ricos da cidade. A ampla propriedade de Winthrop Rockefeller, o célebre ex-governador, era tão próxima que praticamente fazia sombra no quintal gramado da família Clinton.

Amigos descreviam a decoração como feia, um contraste chocante com a mansão do governador.

"Aquela poltrona saltou aos meus olhos", disse Bobby Roberts, um ex-assessor de Bill Clinton, descrevendo a poltrona vitoriana de cor escarlate que a mãe de Bill Clinton, Virginia Kelly, emprestou para eles. "Tinha uma cor chamativa e agressiva."

E sem os pais ou sogros em Little Rock, Hillary recorria a amigos e vizinhos por ajuda. Ela persuadiu Carolyn Huber, que ajudava a administrar a mansão do governador enquanto Bill Clinton estava no cargo, a continuar ajudando a cuidar de Chelsea, que tinha criado um laço afetivo com ela.

Um vizinho, Manuel J. Lozano, lembrou: Hillary "tinha coisas para resolver, e minha mulher cuidava de Chelsea sempre que ela precisava de ajuda".

Bill Clinton recusou ofertas de trabalho fora do Estado no meio acadêmico e na política democrata, e em vez disso aceitou a única oferta em Arkansas, para servir como consultor jurídico do escritório de advocacia Wright, Lindsey & Jennings, onde o antigo conselheiro de Bill, Bruce R. Lindsey, era sócio, por US$ 55 mil por ano.

Mas ele passava grande parte de seu tempo na estrada, frequentemente acompanhado por Lindsey, tentando reconquistar os corações dos eleitores.

"Ele percorreu todo o Estado, contatando toda a base e pedindo desculpas, e escutando o motivo por ter perdido", lembrou Pietrafesa, "e cada uma dessas visitas demorava duas, três, quatro horas".

Hillary se tornou sócia do escritório de advocacia Rose Law Firm em 1979, e durante aqueles anos magros ela equilibrava seu trabalho ali com cuidar de Chelsea, que celebrou seu primeiro aniversário e aprendeu a andar na casa em Hillcrest, na Midland Street. Ela com frequência se virava sozinha enquanto Bill Clinton cruzava o Estado, disseram amigos.

Ela ampliou suas horas para arrumar trabalho para o escritório, mas os negócios não eram tão fáceis agora que ela não era mais a mulher do governador.

"Todo aquele período serviu como aprendizado, após a derrota", lembrou Jerry C. Jones, um colega de Hillary na firma.

Amigos disseram que ela teria se concentrado no serviço público e em obras de caridade, e não teria trabalhado na firma (um escritório tradicional conhecido por representar a elite política e empresarial do Arkansas), se não fosse por sua preocupação com as finanças da família. Ann Henry, uma amiga do Arkansas, descreveu Hillary como uma "estranha ali, onde outras mulheres, a maioria secretárias e assistentes jurídicas, ficavam espantadas com o cabelo e roupas dela que não combinavam.

(Hillary Clinton trabalhou na Rose Law Firm por quase 15 anos, o emprego que ela manteve por mais tempo, apesar de não estar em sua biografia oficial de campanha.)

"Não sei ao certo se ela planejava ser uma advogada comum", disse Lissa Muscatine, uma amiga e ex-redatora chefe de discursos de Hillary. Mas ela aceitou o emprego porque "ela tinha a capacidade de um ganho de renda que ele não tinha como governador".

Um pai frugal

Criada no subúrbio de classe média alta de Park Ridge, Illinois, Hillary Rodham, cuja mãe foi criada na pobreza e cujo pai da época da Grande Depressão pregava frugalidade, trabalhou como babá e passou a arrumar empregos de verão desde os 13 anos. O pai dela, Hugh Rodham, ensinou para sua única filha sobre responsabilidade fiscal e como ler as tabelas de ações no jornal.

Mas não era uma pessoa que cobria seus filhos de bens materiais.

"A mãe dela veio do nada e o pai dela se fez sozinho, de modo que sempre houve uma conscientização de trabalhar arduamente para ganhar a vida", disse Lisa Caputo, uma amiga e ex-assessora da Casa Branca.

Também havia ansiedade. A família nunca foi confortavelmente abastada, e mesmo quando Hugh Rodham comprou para si mesmo um Cadillac, ele insistia que sua mulher e filhos vivessem modestamente. Hillary e seus irmãos ajudavam em seu negócio de cortinas, que posteriormente fechou após uma queda nas vendas.

Quando estava estudando da Faculdade Wellesley, Hillary Clinton e muitos de sua geração expressavam ceticismo a respeito da busca por dinheiro. Em seu discurso de formatura em 1969, ela condenou o materialismo e a ganância corporativa. "Estamos à procura de modos de vida mais imediatos, enlevados e penetrantes", ela declarou.

Quando ela se mudou para Fayetteville, Arkansas, e posteriormente se casou com Bill Clinton em 1975, o casal formado em Yale vivia feliz com uma renda de cerca de US$ 18 mil por ano cada em seus empregos como professores. Mas vários anos depois, enquanto Bill Clinton planejava concorrer ao governo estadual e o casal se preocupava em começar uma família, Hillary passou a ficar cada vez mais incomodada com suas rendas e passou a pensar seriamente em como começar a formar um pé-de-meia.

"Ela foi a principal provedora da família e quem tomava as decisões financeiras", escreveu sua melhor amiga, Diane D. Blair, em anotações que fez sobre aquela época.

Arkansas era um Estado pequeno com círculos que se sobrepunham de pessoas poderosas econômica e politicamente, e muitos dos contemporâneos do casal Clinton estavam enriquecendo.

"Pessoas espertas que eram politicamente ativas transformavam isso em um investimento interessante, que os elevaria das fileiras da classe média alta para a dos ricos e poderosos", disse William K. Black, um ex-regulador financeiro e professor da Universidade do Missouri-Kansas City.

Hillary Clinton começou a procurar por oportunidades de investimento, e em 1978 ela tomou uma das decisões financeiras mais lucrativas, apesar de arriscada, de sua vida.

Blair, o amigo íntimo do casal, ganhou vários milhões de dólares no mercado de commodities, e insistiu para que Hillary também ingressasse no mercado. Com um investimento inicial de apenas US$ 1.000, ela ganhou quase US$ 100 mil no mercado futuro de boi gordo em um período de 10 meses, o que a ajudou a pagar pela casa na Midland Street. Mas a decisão posteriormente a assombrou, quando o investimento se tornou alvo de investigação nos primeiros anos da presidência de Bill Clinton.

Ele ocasionalmente volta a perturbá-la: Trump a mencionou em um comício no mês passado na Carolina do Norte, quando a atacou por ser desonesta. "Veja os investimentos dela no mercado futuro de boi gordo!" ele disse para o público.

Também em 1978, outro amigo, James B. McDougal, persuadiu Hillary a investir no empreendimento imobiliário Whitewater, em terras cobertas de mato nos Ozarks. O casal Clinton acabou perdendo dinheiro no negócio, mas o investimento levou a uma investigação quando Bill Clinton estava na Casa Branca.

Os negócios eram realmente tentadores, dada a renda do casal na época. Em 1978, Bill Clinton se tornou um dos mais jovens governadores e de remuneração mais baixa do país, ganhando US$ 33.519, 14 em seu primeiro ano no cargo. A renda de Hillary Clinton na época na Rose Law Firm fez com que a renda combinada do casal em 1978 fosse de US$ 51.173.

Apesar do grande retorno que ela obteve no mercado de commodities, a experiência foi enervante. Logo após o nascimento de Chelsea, Hillary disse ao seu corretor que queria deixar o mercado. "Eu não conseguia suportar o estresse", ela disse em uma parada de campanha em junho.

Mas ela continuou carregando nas costas as preocupações financeiras da família.

Não muito depois de Bill Clinton ser reeleito em 1982, o casal vendeu a casa amarela na Midland Street e se mudou de volta para a mansão do governador, onde novamente passou a desfrutar de moradia gratuita e da assistência de uma pequena equipe.

Dois anos depois, o Estado aumentou o mandato do governador para quatro anos e as finanças do casal pareciam mais estáveis. Hillary ingressou no conselho diretor do Wal-Mart e continuava trabalhando para a Rose Law Firm. Quando Bill Clinton concorreu à presidência, eles informaram uma renda total de US$ 297.177 na declaração de imposto de renda de 1992, uma soma que colocaria a maioria dos americanos na faixa de renda mais alta, mas parecia baixa em comparação à riqueza de seus oponentes, George Bush e Ross Perot.

"Quando nos mudamos para a Casa Branca, tínhamos o menor patrimônio líquido de qualquer família desde Harry Truman", disse Bill Clinton.

Os anos na Casa Branca ofereceram um alívio para as preocupações financeiras. Como primeira-dama, Hillary Clinton escreveu um livro, "É Tarefa de uma Aldeia", pelo qual ela não aceitou um adiantamento e doou a receita das vendas para caridade. "HRC insiste que terá tempo, deseja que ele tenha impacto (é claro, também deseja que venda bastante)", escreveu Diane Blair na época.

Ainda assim, as decisões financeiras anteriores do casal ressurgiam de formas danosas. O que teve início como uma investigação do investimento em Whitewater levou às revelações do relacionamento de Bill Clinton com uma estagiária da Casa Branca, que levou a um processo de impeachment do presidente na Câmara.

Quando o casal Clinton deixou a Casa Branca em 2000, a primeira vez em que ficavam sem a rede de segurança de um cargo público em 18 anos, eles deviam US$ 5 milhões em despesas legais e novamente sentiam a incerteza financeira. Em 2014, Hillary descreveu a situação de sua família na época em um termo que tem atormentado sua candidatura: "Quebrados".

De novo, os Clinton precisavam de uma casa e de novo precisaram recorrer à ajuda de um amigo rico. Dessa vez foi Terry McAuliffe, um antigo arrecadador de fundos de campanha de Clinton, que serviu como fiador da hipoteca da casa para a qual se mudariam após deixar a Casa Branca.

Mas dessa vez, a casa, em estilo colonial holandês com 11 cômodos, no valor de US$ 1,7 milhão no elegante subúrbio de Chappaqua, Nova York, não estava entre as menores do bairro. Hillary não precisava chamar a Roto-Rooter toda vez que os velhos canos entupiam, ou ir até o vizinho para pedir leite e ovos emprestados, como fazia na casa na Midland Street.

E agora era Hillary Clinton, disputando uma cadeira no Senado por Nova York, que deixava o marido em casa enquanto caia na estrada, cruzado o Estado em campanha.

Kitty Bennett, em Seattle, e Steve Eder, em Nova York, contribuíram com reportagem.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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