Vigiados e perseguidos, egípcios gays caem na clandestinidade

Liam Stack

No Cairo (Egito)

  • Hassan Ammar/AP

     Oito homens egípcios são condenados por "incitar devassidão" após aparecerem em vídeo de festa de casamento gay no Cairo, no Egito

    Oito homens egípcios são condenados por "incitar devassidão" após aparecerem em vídeo de festa de casamento gay no Cairo, no Egito

Os últimos dias do governo de Hosni Mubarak e a turbulenta revolução que se seguiu foram tensos, às vezes horripilantes, para muitos egípcios. Mas para os gays e transgêneros também foi um período de liberdade incomum.

Eles se reuniram em bares e cafés nas calçadas e conheceram parceiros por meio de aplicativos de celular com um maior grau de abertura e conforto do que estavam habituados.

Mas essa era chegou ao fim abruptamente, com o retorno do regime militar.

Desde a intervenção militar em 2013 que estabeleceu o ex-general Abdel-Fattah el-Sissi como governante do país, pelo menos 250 pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros foram presas em uma repressão silenciosa que destruiu o que havia sido uma comunidade cada vez mais vibrante e visível.

Por meio de uma campanha de vigilância e armadilhas online, prisões e fechamento de empresas ligadas aos gays, a polícia empurrou essas pessoas de volta para os porões e, em muitos casos, para fora do país.

Antes da repressão, "não havia uma campanha deliberada de prisões e monitoramento", disse Dalia Abdel Hameed, uma pesquisadora na Iniciativa Egípcia para os Direitos Pessoais. "Mas agora a polícia faz o possível para prender homens gays e mulheres trans."

Entre a dissolução do governo Mubarak e a derrubada do primeiro presidente eleito democraticamente no Egito, Mohammed Morsi, os membros da comunidade LGBT enfrentaram pouca ameaça da polícia, que estava concentrada em outras questões e amplamente ignorava o que acontecia em festas privadas ou nos bares no velho centro boêmio do Cairo.

A repressão começou para valer quando um toque de recolher imposto após a remoção de Morsi terminou no outono de 2013, segundo Scott Long, um ativista de direitos humanos que viveu no Egito durante muitos anos e escreveu um relatório importante para a HRW (Human Rights Watch, uma organização de defesa dos direitos humanos) sobre a escalada da repressão.

Na época, o controle das ruas do Egito passou do Exército, uma instituição relativamente confiável, para a polícia, um símbolo odiado do governo Mubarak.

"Alguém no Ministério do Interior percebeu que essa era uma maneira de conseguir publicidade para a polícia", disse Long.

As prisões indicaram o retorno de uma abordagem agressiva pela divisão de moral da polícia, que efetuou uma repressão maior, prendendo dezenas de milhares de pessoas desde 2013. Com instrumentos usados pela última vez em uma campanha contra a comunidade LGBT há mais de dez anos, a divisão reafirmou sua autoridade perdida pela polícia antes e durante a revolução.

Outros ramos das forças de segurança também ganharam importância depois do retorno do regime militar, detendo manifestantes ou reprimindo vendedores de rua, segundo ativistas.

"A polícia quer mostrar que tem mão forte na sociedade", disse Hameed. "Então a polícia moral faz sua própria campanha para prender pessoas LGBT."

Não há lei no Egito que proíba especificamente os atos homossexuais, por isso as pessoas gays e transgêneros são acusadas de "depravação habitual" sob uma lei de 1961 que é usada para processar homens por homossexualidade e mulheres por prostituição, disse Hameed. Até agora, as sentenças variaram de 2 a 12 anos.

A repressão visa principalmente homens gays e mulheres transgêneros, alguns dos quais foram presos em batidas em residências ou pegos na rua quando sua aparência desperta suspeita. (As mulheres transgêneros são geralmente processadas como homens, porque a polícia, os tribunais e a mídia noticiosa no Egito, ao contrário da ocidental, não faz distinção entre os dois, segundo ativistas.)

A maioria, porém, foi detida depois que autoridades os apanharam em aplicativos de encontros como Grindr, que agora adverte os usuários que se conectam sobre a possível presença da polícia no site.

Abdel Hameed disse que a polícia usou os apps para flertar com as pessoas, envolver-se em conversas sexuais e pedir fotos eróticas que pudessem servir de prova no tribunal, antes de convidá-las para sair. Quando os alvos dos espiões chegam para os encontros, são rapidamente presos.

Esta não é a primeira vez que essas táticas foram usadas contra pessoas da comunidade LGBT no Egito. Uma repressão que começou em 2001 ainda é lembrada por uma batida na boate Queen Boat, onde a polícia prendeu dezenas de homens acusados de ser gays. Seus julgamentos dominaram a mídia egípcia durante meses e causaram uma onda de terror nos círculos gays.

"Houve o Queen Boat e suas repercussões, depois nossa vida normal e agora essa maior repressão depois do Queen Boat", disse Hameed.

Talvez a maior manifestação física da repressão esteja na proliferação de postos de controle da polícia no centro do Cairo e o fechamento de cafés e outras empresas que eram pontos de encontro de ativistas, intelectuais e gays nos dias acalorados da rebelião política.

Um homem gay de 24 anos, que pediu para ser identificado como Ali, por medo da prisão, disse que a campanha da polícia devastou sua comunidade.

"Tudo leva a ser preso", disse Ali. "A maior ameaça é ser preso ou perder seus amigos na prisão, porque depois da revolução fracassada houve uma enorme repressão à comunidade no centro, especialmente. Esta é a minha comunidade, e está sendo destruída."

Muitos gays e transgêneros deixaram o país ou pretendem fazê-lo, disse Ali, acrescentando que ele quer se mudar para a Europa ou a América do Norte. "Estou ficando sem amigos, porque todos estão sendo presos ou deixando o Egito."

A polícia também apreende os telefones dos detidos e vasculha seus dados para encontrar outros, disse Hameed. Quando os encontram, muitas vezes os torturam para produzir listas de amigos gays e ex-parceiros sexuais.

Os detidos também são submetidos a exames anais forçados, uma forma de tortura que a polícia acredita ser capaz de provar se uma pessoa teve relações homossexuais, o que juristas egípcios já disseram que é falso.

Long disse que o engodo online se tornou especialmente eficaz nos últimos dois anos, porque o fechamento de espaços de encontros gays deixaram muitos sem lugar para ir.

"Não há muitos locais gays no centro ou no resto da cidade, então as pessoas dependem mais dos apps e das redes sociais", disse ele. "As pessoas ficam solitárias e encontram alguém que parece lhes interessar e pronto, são presas."

Ali concordou que apesar dos perigos a internet é um dos poucos espaços públicos que restam para os gays e transgêneros.

"Não há outra maneira", disse Ali. "Isso é o Egito."

Discussões sobre o casamento gay pelo mundo
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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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