'Eles vão nos matar': Tradutores afegãos imploram por visto americano atrasado

Emmarie Huetteman*

Em Washington (EUA)

  • Andrew Quilty/The New York Times

    7.ago.2016 - Mohammad Nasim Hashimyar, que trabalhou como tradutor para as forças armadas dos EUA e hoje, vivendo em Cabul, tenta receber o visto que foi prometido

    7.ago.2016 - Mohammad Nasim Hashimyar, que trabalhou como tradutor para as forças armadas dos EUA e hoje, vivendo em Cabul, tenta receber o visto que foi prometido

Zar Mohammad Stanikzai lembra da promessa que lhe fizeram quando se tornou um tradutor para as forças armadas americanas em 2012: ajude-nos e o manteremos em segurança. Quatro anos depois, seu medo de represálias pelo Taleban o transformaram em um prisioneiro em seu lar afegão, ele disse, e ele ainda aguarda pelos americanos honrarem seu compromisso. 

Em vez disso, o Congresso está brigando em torno do programa que proporcionaria sua salvação.

Stanikzai, 24 anos, pediu em 2013 por um dos milhares de vistos reservados aos tradutores e intérpretes que auxiliaram os militares durante as guerras no Afeganistão e Iraque.

Em uma carta às autoridades americanas naquele ano, ele disse que um imã alertou ao pai de Stanikzai que seu filho deveria parar de trabalhar para os americanos ou seria morto. Ele então descreveu como seu carro foi baleado enquanto ele voltava de sua mesquita, com o veículo apresentando três buracos de bala de um fuzil AK-47, ele disse. 

Se o Taleban o encontrar, ou a qualquer um dos afegãos que esperam que os Estados Unidos lhes concedam vistos, "eles nos matarão", ele disse. 

Mas disputas internas no Congresso, carregadas de tons nativistas, deixam em dúvida se o programa especial de vistos será renovado, um golpe potencialmente devastador para os aproximadamente 12 mil tradutores e intérpretes afegãos cujos pedidos de imigração se encontram no limbo. 

"Estamos realmente tentando reforçar o fato aos afegãos de que estamos comprometidos com eles, e que isso dá ao inimigo uma propaganda, ao poderem dizer: 'Ei, essas pessoas realmente não estão comprometidas com vocês'", disse o general de brigada Charles H. Cleveland, porta-voz do comando americano no Afeganistão. 

"É nossa credibilidade que está em jogo", ele acrescentou. 

O senador John McCain do Arizona, presidente do Comitê de Serviços Armados do Senado e um antigo defensor do programa de vistos, foi direto. "Pessoas vão morrer", disse McCain no plenário do Senado, contestando um colega republicano que estava bloqueando a continuidade da emissão de vistos. "Você não entende a gravidade disso?"

Por mais de oito anos, o Departamento de Estado contou com um programa de vistos destinado aos muitos que enfrentam uma "ameaça séria contínua" por terem fornecido apoio linguístico fundamental (seja por meio de interpretação oral ou tradução por escrito) no Afeganistão e Iraque.

Nos últimos 2 anos e meio, dizem as autoridades, foram emitidos vistos para mais de 8.000 afegãos e suas famílias por meio do programa, que membros dos serviços armados, oficiais militares e legisladores de ambos os partidos consideram indispensável para a segurança nacional. 

O Congresso respondeu ao programa do Departamento de Estado de forma parcimoniosa, alocando os vistos especiais aos poucos por meio de seu projeto de lei anual de políticas de defesa. Desde o final de 2014, os legisladores destinaram cerca de 7.000 vistos especiais aos tradutores e intérpretes afegãos.

Até 10 de julho, restavam menos de 3.000 desses vistos, mas cerca de 12 mil indivíduos já deram entrada ao pedido de visto, segundo o Departamento de Estado. Os requerentes devem dar entrada ao requerimento até 31 de dezembro para que sejam considerados. 

Então neste ano, algo mudou: alguns poucos republicanos disseram não, perguntando se mais vistos eram necessários quando o Departamento de Estado ainda conta com milhares de vistos dos anos anteriores para serem distribuídos. 

O senador Charles E. Grassley de Iowa, presidente do Comitê Judiciário do Senado (que tem jurisdição sobre assuntos de imigração), também questionou o custo de adicionar os 4.000 vistos que o governo Obama requisitou neste ano, apontando para uma estimativa do Escritório de Orçamento do Congresso de US$ 446 milhões ao longo dos próximos 10 anos. 

Depois que o Congresso fracassou em aprovar mais vistos nos projetos de lei de defesa a Câmara e no Senado, um grupo bipartidário de senadores tentou de novo no mês passado, com um acordo que adicionaria 2.500 vistos, apenas para ser bloqueado pelo senador Mike Lee, republicano de Utah, que disse que sua disputa não é com o programa de vistos, mas com o fato dele estar sendo colocada em votação, enquanto um de seus próprios projetos de lei, não relacionado, não está. 

McCain respondeu acusando Lee de "assinar sentenças de morte" de pessoas que colocaram suas vidas em risco para ajudar os Estados Unidos. 

Com nem a Câmara e nem o Senado aprovando mais vistos, os legisladores que estão discutindo um projeto de lei de política de defesa para votação ainda neste ano dificilmente intervirão.

Grande parte da resistência parece derivar do crescente desconforto com os imigrantes, disse a senadora Jeanne Shaheen, democrata de New Hampshire, uma das apoiadoras mais ativas do programa de vistos. Uma contraproposta republicana neste ano compensaria cada visto especial deduzindo um "green card" (visto de residência permanente nos Estados Unidos) dos 50 mil destinados a cada ano a imigrantes comuns.

"O que isso me diz é que a questão aqui não se trata realmente dos vistos especiais de imigração para nossos intérpretes", ela disse. "Trata-se de, 'Como continuamos permitindo a entrada dessas pessoas nos Estados Unidos?'"

Mohammad Nasim Hashimyar, 29 anos, disse que trabalhou para as Forças Especiais americanas no Afeganistão por pouco mais de um ano, mas que seu visto foi rejeitado por "falta de um serviço fiel e valioso", segundo a carta que recebeu da embaixada americana.

Ele a manteve junto com um punhado de certificados de apreço e cartas de recomendação dos soldados que ajudou, incluindo um que escreveu que Hashimyar foi "a chave para o sucesso" em muitos de seus esforços. Ele apelou da rejeição. 

Enfrentando ameaças a ele e sua família, ele disse que evita sair de casa sempre que possível e anda com uma arma. "Quem dera nunca tivesse trabalhado para eles", ele disse. "Eu destruí minha vida."

*Mohammad Fahim Abed, em Cabul (Afeganistão), contribuiu com reportagem.

Sem duas pernas, soldado dos EUA se recupera e ganha bolsa

  •  

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos