Inimigos mortais, pai e filho se reencontram no Afeganistão

Zahra Nader e Mujib Mashal

Em Cabul (Afeganistão)

  • Hassan Serdash/The New York Times

    O combatente do Taleban Said Muhammad (dir) se rende e entrega as armas ao pai Abdul Basir, comandante da milícia do governo afegão, após anos de combates entre os dois

    O combatente do Taleban Said Muhammad (dir) se rende e entrega as armas ao pai Abdul Basir, comandante da milícia do governo afegão, após anos de combates entre os dois

Cerca de 20 convidados se encontraram em um recanto empoeirado do norte do Afeganistão na noite de domingo para comemorar uma trégua milagrosa: a união de dois inimigos ferrenhos que estiveram em lados opostos na guerra.

O prato principal da refeição era bode assado, um sacrifício oferecido pelo pai pelo retorno de seu filho, pois era isso o que estava acontecendo. Apenas três meses antes, o anfitrião, Abdul Basir, comandante de uma milícia do governo, tinha disparado seu rifle no escuro, à noite, contra seu filho Said Muhammad, um empedernido combatente talibã, e estava triste por não ter conseguido matá-lo.

Agora, depois de tentar várias vezes cumprir suas promessas de matar um ao outro, pai e filho se abraçavam e trocavam guirlandas de flores plásticas na província setentrional de Faryab, onde sua batalha se desenrolou.

"Ele era meu filho, mas tinha sido um covarde ao me combater", disse Basir, um comandante esguio e bem barbeado, de seus 40 anos, que conheceu pouco além de combate desde que tinha 15.

Vários de seus filhos e cinco de seus irmãos servem em sua milícia. "Agora estou muito feliz porque ele voltou para nós. Eu o abracei e disse: 'Não importa o que você fez, você é meu filho'."

Foi uma virada extraordinária, e talvez não a última, em uma história de como as famílias afegãs têm alimentado uma guerra perpétua, emoldurada por grandes ideologias, mas mais verdadeiramente retratada em sofrimento e perda.

De repente, um novo capítulo estava começando. O banquete comemorativo foi interrompido quando vigias de Basir foram alvo de tiros dos talibãs, aparentemente em retaliação por Muhammad ter trocado de lado e trazer consigo alguns de seus camaradas, além de armas e munições preciosas. Em uma entrevista por telefone, Basir descreveu com orgulho como ele e seu filho correram para lutar juntos, quando Muhammad virou sua arma contra os antigos camaradas.

Desde então, diversas entrevistas com pai e filho, assim como com parentes e autoridades da província de Faryab, contaram em detalhe o sofrimento da família.

Hassan Serdash/The New York Times
Abdul Basir e o filho, Said Muhammad, dão entrevista após se reconciliarem, em Maimana, no Afeganistão

Durante a maior parte de sua vida, Basir foi um comandante na milícia setentrional de Abdul Rashid Dostum, um ex-chefe guerreiro que hoje serve como vice-presidente do Afeganistão enquanto continua sendo acusado de abusos aos direitos humanos.

Basir cruzou o caminho do homem que voltaria seu filho contra ele nos anos 1990, enquanto o Taleban estava no poder. Aquele homem, Mawlawi Said Hafiz, era um comandante militar talibã na província de Faryab, e Basir era um comandante de milícia que o combatia em favor de Dostum.

Depois da invasão americana em 2001, Basir ganhou mais poder, mas perdoou Mawlawi Hafiz sob a condição de que ele abandonasse suas ligações com o Taleban. Basir disse que fez de Mawlawi Hafiz o imã de uma mesquita de aldeia, fazendo os congregados lhe pagarem um dízimo em trigo como salário.

O próprio Basir tentou assumir uma vida civil, mas manteve seu estoque de armas e munição.

Mawlawi Hafiz também tinha o seu. Ele secretamente mantinha suas ligações com o Taleban e chegou a se tornar juiz graduado para o governo na sombra dos insurgentes em Faryab. Depois que o Taleban se fortaleceu na província nos últimos anos, Mawlawi Hafiz estava em posição de obter vingança.

Primeiro, ele recrutou o filho adolescente de Basir. Muhammad roubou milhares de balas de seu pai, mais de 40 pentes e um rifle Kalashnikov, e uniu-se ao Taleban.

"Os mulás nos disseram: 'Seu pai é um infiel, ele é apoiado pelos americanos. Você deveria entrar para a nossa jihad'", lembrou Muhammad. "Eu estava decidido a matá-lo."

Mais de três anos atrás, Muhammad chegou a sua casa com duas pistolas, para matar seu pai. Mas outros aldeões tinham avisado Basir, que o dominou.

"Eu queria matá-lo bem ali, mas meus parentes disseram: 'Deixe-o. Ele é seu filho'", lembrou Basir. "Eu o deixei viver e o convenci a não voltar ao Taleban, mas a entrar para o Exército."

Muhammad se alistou numa unidade do Exército que foi enviada à província de Paktia, no leste. Mas sua lealdade ainda estava com o Taleban. Todo mês, disse ele, enviava seu salário de cerca de US$ 202 (R$ 654) ao Taleban, depositando-o em uma conta da insurgência.

De volta a casa, disse Basir, ele descobriu esse arranjo e advertiu os superiores de Muhammad para estarem alerta caso o jovem tentasse entregar um posto aos insurgentes. Mas então o Taleban de Mawlawi Hafiz veio diretamente atrás de Basir. Ele foi preso, e evitou por pouco a execução. Ele e sua segunda mulher e seus filhos fugiram de casa, no distrito de Qaisar em Faryab.

"Nós pagamos em dinheiro por sua libertação, e todos deixamos a área", disse o irmão de Basir, Said Abdul Rahim. "Mas o Taleban continuou a queimar nossas cinco casas e a cortar nossas árvores. Então Basir decidiu combatê-los."

Quando Muhammad voltou de sua base do Exército no leste, no ano passado, foi diretamente procurar Mawlawi Hafiz em Faryab e se reuniu aos Taleban lá. Quando Muhammad voltava a Faryab, Basir soube dos planos de seu filho e montou emboscadas.

Muhammad conseguiu evitar as armadilhas, mas Basir tinha adotado a missão de matar seu filho.

"Deus é quem sabe, mas eu acho que o sangue dele é legítimo para mim", disse Basir a "The New York Times" em maio, depois de um ataque mal-sucedido para matar seu filho. No meio da noite, os homens de Basir cercaram sua aldeia natal ancestral de Zyaratgah, que continuava sob controle do Taleban.

"Minha mãe veio e contou que alguém tinha matado o cachorro a tiros", disse Muhammad sobre aquela noite. "Eu peguei a arma e disparei algumas vezes, mas percebi que eles tinham me cercado."

Muhammad se atirou de uma janela e correu para os pomares. Basir deu alguns tiros, o perseguiu em vão e então partiu quando outros talibãs chegaram para repelir o ataque.

No centro de sua briga sangrenta, as mulheres da família foram apanhadas em lados opostos --especialmente a mãe de Muhammad, a primeira mulher de Basir. Ela continua em território Taleban e não pôde ser contatada por telefone.

Rahim, o irmão de Basir, sugeriu que ela poderia ser um fator que levou Muhammad a se unir aos Taleban.

"A mulher de Basir se queixava de que ele se casou com outra e não cuidava dela", disse Rahim. "Então convenceu seu filho a se unir ao Taleban."

Basir insiste que sua primeira mulher não está com raiva dele. "Essas coisas acontecem", disse ele. "Mas eu amo aquela minha mulher. Ela já suportou muita coisa."

Muhammad disse: "Minha mãe estava nos dois lados. Às vezes ela estava no meu, às vezes no de meu pai".

Basir não pôde dizer o que afinal o fez mudar de ideia sobre seu filho desde que tentou matá-lo em maio. Nos meses que se passaram, ele começou a tentar convencer Muhammad a voltar.

A reunião dos dois foi garantida por uma diplomacia de parentes que iam e voltavam entre os dois. Eles tentaram convencer Muhammad de que, na verdade, estava queimando sua própria propriedade, tentando destruir os pomares e a casa que ele deveria herdar.

Muhammad disse que aos poucos percebeu que o Taleban não eram os guerreiros sagrados que eles próprios se pintavam. Os altos comandantes recebiam pagamentos, e para os combatentes como ele não havia nada.

"Eu disse a Muhammad: 'Seu pai é um sério inimigo do Taleban. Se o pai é um inimigo, o filho não pode ser amigo'", disse Said Qayum, um dos primos de Basir que serviu de intermediário.

Por enquanto, Muhammad está lutando ao lado do pai. Mas alguns da família e de seu distrito natal continuam céticos de que alguém que já esteve tão decidido a matar seu pai, e que mal sobreviveu aos tiros do pai, possa esquecer tudo. E se ele for um infiltrado?

Basir disse que não tem dúvidas.

"Eu acredito nele agora. Ele era ignorante. Meus amigos disseram a ele que se seu pai matou de 300 a 400 talibãs um dia eles o matarão. Não vão deixá-lo vivo", disse Basir. "Eu disse a ele: 'Quero que você se case'."

Quando indagado sobre esse plano, Muhammad --que anos atrás escolheu o Taleban explicitamente para não ceder à pressão de sua família para que se casasse-- deu apenas uma resposta hesitante: "Ainda não está claro. Não posso dizer que me casarei".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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