O que já se sabe sobre os relatos falsos de tiros no aeroporto de Nova York

Michael Wilson e Joseph Goldstein

  • Brigitte Dusseau/ AFP

    14.ago.2016 - Passageiros se deitam na área do controle de imigração após boato de tiroteio no Aeroporto Internacional JFK, em Nova York

    14.ago.2016 - Passageiros se deitam na área do controle de imigração após boato de tiroteio no Aeroporto Internacional JFK, em Nova York

Enquanto as pessoas corriam por um terminal do Aeroporto Internacional JFK (John F. Kennedy), um agente da Administração de Segurança dos Transportes (TSA, na sigla em inglês) que corria com elas foi ouvido gritando, "Há uma bomba!" Outro agente gritou, "Alguém foi baleado!"

Alguns passageiros foram parar na pista, correndo por baixo de um avião estacionado na direção de um terminal diferente, seguro, apenas para terem sua entrada barrada por um policial. Enquanto outras autoridades no centro de comando da polícia no aeroporto de Nova York tentavam determinar o que estava ocorrendo, elas não tinham acesso imediato às imagens das câmeras de segurança do terminal, que são operadas pela American Airlines.

O caos na noite de domingo (14) ocorreu após aparentes falsos alarmes de um atirador nos terminais do aeroporto.

Mesmo assim, sem nenhuma perda de vida ou ferimentos sérios, o episódio bizarro está sendo visto como uma espécie de presente, dando às autoridades um caso de estudo em segurança de aeroportos e suas falhas. Os eventos daquela noite também oferecem um curso sobre a capacidade humana de pânico, o efeito impressionante, sobre uma população que conta com mais informação do que nunca à sua mão, de basicamente gritar "fogo" em um teatro lotado.

Não está claro se a coordenação e comunicação entre as agências da lei no aeroporto seguiram o protocolo, mas testemunhos de passageiros e informação da polícia deixam evidente que o controle de multidão e a manutenção da segurança dos passageiros às vezes fracassaram. Ironicamente, a caça ao suposto atirador foi complicada pelo fato de não haver nenhum, de modo que a busca por um prosseguiu e cresceu, talvez alimentando o pânico.

Na quarta-feira, o governador Andrew M. Cuomo disse que criaria um painel para investigar os eventos que causaram e depois alimentaram o caos que se seguiu.

"Todo o evento foi uma infelicidade, mas podemos aprender com situações como essa", disse Cuomo, um democrata. "Estou formando uma equipe multiagências de autoridades estaduais que analisará a resposta e apontará como podemos fazer melhor."

Entrevistas com autoridades familiarizadas com a segurança no aeroporto mostram uma colcha de retalhos de agências com vários papéis. O policiamento cotidiano cabe ao Departamento de Polícia da Autoridade Portuária, uma força de cerca de 1.800 policiais designados para aeroportos, pontes, túneis, portos e várias outras instalações de transporte.

Mas esse departamento não se responsabiliza pelo policiamento de todo o aeroporto: o fluxo de tráfego de passageiros nos terminais, basicamente a linha de frente da segurança, é de responsabilidade das companhias aéreas, que empregam seguranças privados para o trabalho. O Departamento de Polícia de Nova York responde aos chamados para assistência à polícia da Autoridade Portuária no JFK, mas não é a agência que responde primeiro.

Também há a presença da Guarda Nacional ali, além de funcionários da TSA e agentes da Agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos.

Mas os agentes da Autoridade Portuária posicionados no aeroporto, um número que ultrapassa 400, disse um ex-policial designado para lá, podem parecer poucos e distantes uns dos outros. Em um turno típico, há apenas um ou dois policiais patrulhando em um terminal, uma área imensa e cavernosa, ele disse. Ele falou sob a condição de anonimato para discutir francamente o tamanho da presença policial.

Kenneth Maxwell, um ex-agente do FBI que posteriormente trabalhou como diretor de segurança da JetBlue Airways, disse que o contingente policial da Autoridade Portuária no aeroporto JFK geralmente exibe bom desempenho, particularmente o esquadrão de elite que fica na reserva para emergências. "Eles se esforçam ao máximo", disse Maxwell, "mas acho que são limitados um pouco pelo número de pessoas que dispõem".

Os investigadores ainda estão tentando descobrir o que deu início ao pânico. Nos últimos dias, eles estiveram contatando algumas das pessoas que ligaram para o 911 (número que aciona os serviços de emergência), disseram dois funcionários da Autoridade Portuária de Nova York e Nova Jersey, que supervisiona os aeroportos em Nova York. Eles pediram anonimato porque a investigação está em andamento.

Uma teoria que tem ganhado força no noticiário é que passageiros que estavam assistindo à Olimpíada e celebravam a mais recente medalha de ouro do corredor jamaicano Usain Bolt podem ter feito barulho suficiente para convencer alguém que o terminal estava sob ataque. Apesar de a polícia não ter confirmado isso, uma análise posterior das imagens de vídeo sugere que o problema teve início perto do Juan Valdez Cafe, no Terminal 8.

A primeira chamada ao 911 ocorreu às 21h33. A pessoa que ligou, uma mulher no Terminal 8, disse ter ouvido tiros, disse um dos funcionários. Um minuto depois, outra mulher ligou com um relato semelhante. Outras chamadas logo se seguiram, cerca de 100 ao todo. Às 21h57, o pânico parecia ter se espalhado: uma chamada foi feita sobre uma emergência no Terminal 1, disse o funcionário.

Os terminais, apesar de próximos um do outro no mapa do aeroporto, são separados pela via expressa Van Wyck.

Um dos funcionários da Autoridade Portuária sugeriu que os passageiros no Terminal 1, após verem nas redes sociais os relatos de disparos, podem ter concluído que a emergência estava ocorrendo ali, em vez de no Terminal 8.

Stephanie Keith/ Reuters
Agente do Departamento de Polícia da Autoridade Portuária faz a guarda no terminal 8 do aeroporto JFK

Jay Carson, um roteirista e ex-porta-voz de Hillary Clinton, estava no Terminal 1 com sua mulher naquela noite. Um alarme soou, como se uma porta de segurança tivesse sido aberta, mas não houve aviso do que aconteceria a seguir, ele disse.

"Primeiro você ouve os gritos, então você vê a correria, pessoas se escondendo em cantos", disse Carson. "Pessoas correndo como se quisessem salvar suas vidas. Minha primeira reação foi de não levantar e correr, mas então vi dois agentes da TSA vestidos de azul em meio à multidão." Ele disse ter ouvido um agente gritar sobre uma bomba, e o outro sobre uma pessoa baleada e um atirador em ação.

Carson disse que ele e sua mulher ficaram atrás de um funcionário da manutenção com colete laranja, que portava um crachá de identidade. "Ele abriu uma porta de segurança que levava à pista", disse Carson. Vários passageiros o seguiram até lá.

"Por um segundo, você pensa, 'OK, estamos em relativa segurança'", disse Carson. Mas essa sensação não durou.

"Mais pessoas saíram gritando pela porta como se estivessem sendo caçadas", ele disse. "Era como se tivesse um atirador logo atrás delas. Havia terror em suas faces."

Carson disse que não tinha dúvida de que havia um atirador no aeroporto. Ele e outros fugiram. "Nós cruzamos a pista até o Terminal 2, passando por baixo de um avião da Alitalia estacionado no portão", ele disse. Ele correu até uma porta trancada e, espiando pela janela, viu um policial do outro lado. O policial não abriu a porta.

"Você tem que nos deixar entrar", Carson lembrou de ter gritado. "Não somos pessoas más. Somos cidadãos americanos!" Um carregador de bagagens os viu e abriu a porta, e Carson, sua mulher e estrangeiros vindos da Europa entraram e correram pelo terminal até os táxis estacionados no lado de externo, entrando em um vazio e dizendo ao motorista, "Apenas dirija".

"Carros de polícia chegavam de todas as direções", ele disse. Elas trouxeram aparentemente parte dos aproximadamente 200 policiais de Nova York que foram ao JFK naquela noite.

Outro passageiro, Brandon Webb, 42 anos, um escritor e ex-SEAL da Marinha, disse que aguardava para retirar sua bagagem quando ouviu um agente uniformizado gritar: "Salvem suas vidas! Há um atirador em ação!"

Webb disse que em meio à confusão ("Histeria completa, pessoas sendo pisoteadas") ele recorreu ao seu treinamento militar, tentando acalmar as pessoas enquanto ele e outros eram levados para a pista. Ele acabou levando as pessoas até a cerca de arame farpado próxima da fila de táxis, jogando sua jaqueta por sobre o arame farpado e escalando a cerca.

Ele disse que um homem se aproximou e disse: "Achei que você fosse um terrorista".

Webb disse: "Já estive no Iraque e no Afeganistão, mas nunca estive em uma situação como essa, estando no meio de uma multidão e sem ter nada que possa fazer".

Nem Webb e nem Carson disseram ter visto o que a polícia descreveu posteriormente como os aspectos bem-sucedidos da resposta das autoridades. Na noite de domingo, Bobby Egbert, o porta-voz do sindicato que representa os policiais da Autoridade Portuária, chamou a resposta da agência de digna de um manual.

"Eles entraram imediatamente no terminal e transmitiram informação de que não havia confirmação de atirador, de vítimas ou evidência física de algo assim", disse Egbert.

Ocorreram problemas de comunicação. No Terminal 8, onde os relatos iniciais indicavam a presença do atirador, a polícia da Autoridade Portuária contava com imagens ao vivo de apenas duas câmeras próprias, disse Egbert. Nenhuma das câmeras podia ser ajustada ou movimentada de forma remota. E apesar da American Airlines contar com uma ampla rede de câmeras de segurança no terminal, nenhum dos policiais pôde ter acesso às imagens delas no centro de comando da polícia naquela noite, ele disse.

Ross Feinstein, um porta-voz da American Airlines, disse que apesar dos policiais da Autoridade Portuária não terem acesso às imagens das câmeras da companhia aérea no centro de comando da polícia, as imagens estavam disponíveis para a polícia no escritório de segurança da American Airlines, também no Terminal 8.

Carson e sua mulher voltaram para casa naquela noite, voltando ao JFK no dia seguinte para voar para a Dinamarca como originalmente planejado. A jornada ocorreu sem nenhum acontecimento significativo e as dores de cabeça foram mais mundanas.

"Nós ainda estamos sem nossa bagagem", ele disse na quinta-feira (18).

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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