O que há realmente por trás da proibição do "burquíni" na França

Amanda Taub

  • 17.ago.2016/Reuters

Há algo inerentemente atordoante nas proibições ao chamado "burquíni" que estão surgindo no litoral da França. A obviedade da contradição --impor regras sobre o que as mulheres podem vestir sob a alegação de que é errado as mulheres terem de obedecer a regras sobre o que elas podem vestir-- deixa claro que deve haver algo mais profundo por trás disso.

Os "burquínis" são essencialmente maiôs de corpo inteiro que respeitam os padrões de recato do islamismo, e na quarta-feira (17) o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, entrou no furioso debate sobre a proibição em algumas das cidades litorâneas do país, denunciando o traje raramente visto como parte da "escravização das mulheres".

Isto não tem a ver com o traje de banho, é claro. Cientistas sociais dizem que também não se trata basicamente de proteger as mulheres islâmicas do patriarcado, mas de proteger a maioria não muçulmana da França de ter de enfrentar um mundo em mutação: um que exige que eles ampliem seu sentido de identidade quando muitos prefeririam deixá-lo como está.

"Esse tipo de declaração é uma maneira de policiar o que é francês e o que não é", disse Terrence G. Peterson, um professor na Universidade Internacional da Flórida que estuda a relação entre a França e os imigrantes muçulmanos e o mundo islâmico.

Enquanto essa batalha sobre identidade cresce agora no rastro dos atentados terroristas, ela vem fervendo de uma forma ou de outra na sociedade francesa há décadas, segundo Peterson. O que parece ser uma luta sobre a questão menor da indumentária islâmica é na verdade sobre o que significa ser francês.

Durante a era colonial da França, quando o país controlava vastas regiões muçulmanas, o véu se tornou um "símbolo hipercarregado", disse Peterson. Era tratado como um símbolo do atraso muçulmano, e os padrões de vestimenta mais flexíveis da mulher francesa eram considerados um sinal da superioridade cultural francesa, opiniões que ajudavam a justificar o colonialismo.

O colonialismo preparou a França para a crise de identidade que está experimentando hoje, ao inspirar um sentido de identidade nacional francesa como diferente e superior às identidades muçulmanas --e ao mesmo tempo mantendo a promessa de oportunidade aos muçulmanos colonizados, que começaram a migrar em grande número para a França. O choque resultante muitas vezes refletiu em debates sobre a vestimenta.

O véu permaneceu um símbolo poderoso de diferença quando o colonialismo ruiu depois da Segunda Guerra e os muçulmanos dos países colonizados acorreram à França. Mas hoje essa diferença estava dentro de um país que tenta desvendar sua própria identidade pós-colonial.

Durante gerações, o véu tornou-se mais comum entre as muçulmanas da França, como prática religiosa e, talvez, como símbolo de sua herança cultural diferente. Era um sinal visível do modo como a própria França, assim como seu papel no mundo, estava mudando.

Em consequência, o véu se tornou um símbolo não apenas de diferença religiosa, mas do fato de que as pessoas de ascendência francesa não gozam mais de uma predominância exclusiva sobre a identidade francesa. A França se tornou uma nação multicultural e multiétnica, onde as tradições significam coisas muito diferentes para pessoas diferentes.

O simbolismo da era colonial do véu como sinal da inferioridade muçulmana fez dele um foco conveniente para discussões de que a identidade francesa "tradicional" deveria permanecer não apenas predominante, mas também a única identidade cultural na França.

O "burquíni" pode parecer assustador porque é visto como uma ameaça àquele tipo particular de identidade francesa, ao expressar uma forma alternativa de identidade --nesse caso, a muçulmana. Muitos franceses, em vez de acreditar que essas duas identidades podem coexistir, as percebem como necessariamente concorrentes.

Há até uma palavra francesa pejorativa para a introdução dessas identidades alternativas, "comunitarismo", cujo crescimento é visto como uma crise nacional.

Artigos de vestuário muçulmanos, como o véu ou o burquíni, tornaram-se símbolos do fato de que a identidade nacional francesa não é mais o domínio somente dos grupos demográficos que vivem lá há séculos. Regras como a proibição ao burquíni têm a finalidade de evitar a ampliação da identidade francesa, ao forçar os muçulmanos franceses não apenas a se assimilarem, mas também a adotar a identidade mais estreita e rígida.

Esse é um método que a França usa há décadas, com fracassos repetidos.

John Bowen, um antropólogo da Universidade Washington em St. Louis, disse que a França tendia a experimentar com tais restrições em momentos em que lutava com tensões internas e internacionais relativas aos muçulmanos e ao mundo islâmico.

Isso começou em 1989, com o chamado "affaire du foulard" (o caso do lenço), em que três escolares francesas foram suspensas por se recusarem a tirar suas coberturas de cabeça. Ostensivamente, isso ocorreu porque os lenços eram símbolos religiosos visíveis e assim infringem a regra francesa da laicidade ou secularismo. Mas a laicidade está nos livros desde 1905, e os lenços sempre foram permitidos.

O que mudou, segundo escreveu Bowen em um livro sobre o assunto, foram fatos em outras partes do mundo que fizeram o islã parecer uma força especialmente perniciosa. Em 1989, o líder iraniano aiatolá Ruhollah Khomeini emitiu uma fatwa contra o romancista Salman Rushdie. Mais ou menos na mesma época, alguns argelinos formaram a Frente de Salvação Islâmica, um partido linha-dura e mais tarde grupo insurgente.

Proibir os lenços de cabeça nas escolas francesas tornou-se uma maneira de enfrentar a ansiedade que surge desses fatos domésticos e externos, e de afirmar o desejo de proteger os valores franceses.

Os lenços nas escolas voltaram à berlinda em 1993 e 1994, quando as autoridades francesas temeram que jovens de famílias imigrantes argelinas se unissem à insurgência islâmica na Argélia. Depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, os véus foram novamente um ponto focal dos temores das comunidades muçulmanas que estavam isoladas da sociedade e cultura francesas da corrente dominante.

E neste verão a França foi abalada por uma série de ataques terroristas mortais e está cada vez mais preocupada com jovens franceses muçulmanos que viajam à Síria para se unir ao Estado Islâmico ou outros grupos jihadistas. Mais uma vez, alguns na França veem a necessidade de assimilação como uma questão de segurança nacional.

O véu é um símbolo especialmente poderoso da ansiedade social relativa à assimilação, porque usá-lo é uma opção. Enquanto características fixas como raça ou cor da pele não implicam um julgamento da cultura ou dos valores franceses, a vestimenta implica uma decisão de ser diferente --de dar prioridade a sua identidade religiosa ou cultural sobre a do país adotado.

A proibição à vestimenta pretende, na verdade, pressionar os muçulmanos franceses a desconsiderar qualquer sentido de identidade comunitária e adotar a identidade estritamente francesa anterior a sua chegada. Mas tentar forçar a assimilação pode ter o efeito contrário: dizer aos muçulmanos franceses que eles não podem ter identidades francesa e muçulmana ao mesmo tempo, obrigando-os a escolher e assim excluindo-os da identidade nacional, em vez de convidá-los a contribuir para ela.

A França tem outra opção: poderia ampliar sua identidade nacional para incluir os franceses muçulmanos como eles são. Isto pode parecer assustador para muitos franceses, como desistir de uma identidade "tradicional" confortável do que ganhar uma nova dimensão para ela. Na ausência de aceitar essa mudança, há um desejo de pressionar os muçulmanos franceses a solucionar a crise de identidade, mas décadas disso trouxeram pouco progresso e uma tensão significativa.

 

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