Após decadência, balneário britânico prevê nova vida depois do Brexit

Steven Erlanger

Em Blackpool, Inglaterra (Reino Unido)

  • Andrew Testa/The New York Times

O brasão de Blackpool destaca o lema "Progresso". Mas houve pouco disso até recentemente nesta vitrine da era vitoriana, onde milhares de britânicos, livres de seus empregos nas fábricas por uma semana, costumavam vir com suas famílias respirar o ar marinho, admirar as casas de jogos e a iluminação de rua intricada e beber cerveja barata.

O apogeu da cidade foi do final dos anos 1950 até o início dos 1980. Mas com a desindustrialização no norte, as viagens baratas ao exterior e a crescente popularidade dos pacotes turísticos para lugares como Manchester e Birmingham, assim como Londres e Paris, Blackpool entrou em declínio.

Muitas das antigas pousadas bed-and-breakfast ('quarto e café da manhã') ao longo da beira-mar da cidade estavam deterioradas ou fechadas, as atrações haviam perdido a graça e ficado antiquadas, e os jovens se mantinham distantes. Até os dois principaispartidos políticos do Reino Unido, que muitas vezes faziam suas conferências anuais em Blackpool, deixaram de vir em 2007.

Agora a cidade tenta se reinventar como um balneário da era moderna. Ela também espera tirar vantagem de uma possível consequência da decisão do Reino Unido de sair da União Europeia: um aumento no número de britânicos que decidirão não viajar ao exterior nas férias.

Desde 2007, Blackpool investiu cerca de US$ 588 milhões (R$ 1,9 bilhão) para melhorar o transporte público e a faixa litorânea. A cidade reformou suas principaisatrações e promoveu festivais de rock e um teatro melhor. Ela revigorou a espinha dorsal vitoriana do balneário, remodelando os Jardins de Inverno --com sua ópera, teatro e salão de bailes, que costumava abrigar as convenções políticas-- e a torre de ferro, marco da cidade.

Blackpool também está tentando atrair visitantes de todo tipo, incluindo um número significativo de muçulmanos que vivem e trabalham em cidades próximas como Manchester, Birmingham e Liverpool.

O Parque Aquático Sandcastle, o maior do Reino Unido, é um bom exemplo do esforço de Blackpool para se reinventar.

Cannes, na França, pode ter proibido o "burquíni", traje de banho inteiriço destinado às muçulmanas, mas Sandcastle fica feliz em alugá-los ou vendê-los. Lá há funcionários que falam línguas asiáticas, como urdu, para atrair famílias muçulmanas. Também tem gente treinada para receber e ajudar visitantes autistas e deficientes, promovendo o "turismo acessível".

John Child, o diretor-gerente de turismo interno, disse que o parque tem capacidade para receber cerca de 80 mil visitantes por mês, e está pensando em se expandir.

"A acessibilidade é uma parte importante do turismo doméstico, especialmente com uma sociedade que envelhece", disse ele. "Vale milhões."

Com uma queda de mais de 10% no valor da libra esterlina desde a votação pelo Reino Unido em 23 de junho do chamado "Brexit" --a saída da UE--, as férias no exterior de repente se tornaram bem mais caras para as famílias de classe média que poderiam pensar em viajar à França, Espanha ou Itália. Depois também há uma nova ansiedade sobre o terrorismo no continente europeu.

"Estamos lembrando às pessoas que o valor de suas libras em Blackpool é exatamente o mesmo que era em junho", disse Alan Cavill, diretor de turismo em Blackpool, que depende quase totalmente de visitantes domésticos. Só cerca de 1% de seus 17 milhões de visitantes anuais vêm de fora do Reino Unido.

"Achamos que vamos nos beneficiar do Brexit, mas também há outros fatores", disse Gillian Campbell, vice-líder da câmara de vereadores de Blackpool, controlada pelo Partido Trabalhista. "É o medo do desconhecido no exterior; há muitas coisas com que se preocupar."

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Passou pouco tempo depois da votação do Brexit, mas os operadores dos hotéis e atrações de Blackpool disseramque as visitas aumentaram cerca de 3% em relação ao ano passado, incluindo mais pernoites em hotéis.

Isto se encaixa com os números da VisitEngland, que em uma pesquisa até meados de julho relatou que a metade das empresas de hotelaria acredita que Brexit causará um aumento dos visitantes domésticos. Se eles estiverem certos, os ganhos virão acima do sólido crescimento de viagens internas no ano passado, quando as viagens de férias domésticas e gastos aumentaram 7%.

A firma de pesquisas de mercado GfK disse que por causa do referendo do Brexit e o maior medo de terrorismo no exterior, 20% dos britânicos --e 30% dos da faixa de renda mais alta-- têmmaior probabilidade de considerar férias ou feriados no país.

Uma pesquisa da Associação Automobilística da Grã-Bretanha sugeriu que uma em cada 14 pessoas que pretendiam tirar férias no exterior, especialmente famílias e estudantes, abandonou esses planos. A metade dos pesquisados disse que trocaria suas férias para o Reino Unido.

Em junho, mais de dois terços dos eleitores de Blackpool optaram por sair da União Europeia, apesar de a cidade ter recebido 25 milhões de libras em ajuda europeia desde 2005 para modernizar a zona litorânea, reparar diques, reformar o bonde à beira-mar e melhorar os Jardins de Inverno e a Torre de Blackpool. Estes dois foram comprados pela cidade em 2010, mas são operados por companhias privadas como a Merlin Entertainments, que é proprietária do Madame Tussauds, da Legoland e do London Eye.

Com 155 metros de altura, a Torre de Blackpool foi inaugurada em 1894, cinco anos depois da Torre Eiffel, que a inspirou. Em 1899 já foi reformada, devido ao sucesso turístico.

A base da torre continha um zoológico com leões e tigres, e em 1904 ganhou 40 ursos polares. Ela apresentava um circo com decoração oriental que ainda é usado (hoje sem animais), com instalações hidráulicas da era vitoriana que permitem que o ringue desça até uma piscina; um salão de baile dourado, onde os casais ainda jantam e dançam; e, é claro, a plataforma no topo, que oferece vistas sobre a cidade, o calçadão à beira-mar e o frio mar da Irlanda.

A antiga Blackpool continua aqui --as casas de jogos eletrônicos, ainda populares entre as crianças; o parque de diversões Praia do Prazer; cerveja a 1.95 libra por meio litro; o cheiro de peixe frito com batatas; e placas que anunciam bebidas e máquinas caça-níqueis. Algumas pessoas vêm dispostas a gastar mais em bebida que em hospedagem.

Mas Blackpool não tenta atrair uma classe de turistas que não existe mais. Ao contrário, a cidade pretende captar mais visitantes para estadas de três noites ou mais, enquanto promove melhores hotéis e menos pousadas antiquadas. A câmara planeja uma ampliação do bonde moderno da estação ferroviária até a praia e um centro de conferências moderno, com ar-condicionado, que seria ligado aos Jardins de Inverno, esperando atrair as convenções de partidos.

Aqui há ao mesmo tempo uma dureza e uma doçura, uma forte consciência e orgulho de classe e regional.

Enquanto a Torre de Blackpool se moderniza --com um filme em 4D que mostra gaivotas em voo e o borrifo das ondas, que custou cerca de US$ 1 milhão--, também há nostalgia, com seu circo e salão de bailes e seu sentido de um passado embelezado. Ela atrai cerca de 9.000 visitantes por dia.

Uma foto de 1929 na parede da torre mostra três jovens com vestidos de verão, com os cabelos ao vento e sorrindo, com a torre ao fundo. Uma delas é Lillian Bullen, avó de Kate Shane, que administra as atrações da Blackpool Entertainment.

Shane lembra com grande carinho de Lilly, que viveu até os 95 anos. "Tenho boas lembranças dela quando criança, de ir ao circo com os animais", disse Shane. "E lembro de ir com ela ao Robert's Oyster Bar", um famoso restaurante forrado de lambris que abriu em 1876, mas hoje está reduzido a uma feia banca de moluscos na fachada da loja.

Hoje a foto de Lilly pode ser vista em uma toalha de chá e numa bela caneca feita na Tailândia, ambas à venda na loja de lembranças.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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