Com o Brexit, buscar a cidadania de onde ancestrais foram mortos no nazismo vira opção

Roger Cohen

  • Niklas Halle'n/AFP Photo

A decisão dos britânicos de deixarem a União Europeia teve muitas consequências, entre elas a queda da libra esterlina, um declínio na confiança empresarial, uma crise de identidade entre os dois principais partidos políticos do Reino Unido, além de confusão e incerteza. Um de seus resultados menos conhecidos é o fato de que minha filha Adele agora está considerando virar polonesa.

"Pai", ela me disse uma noite durante um jantar no Brooklyn, "se o Reino Unido começar esse negócio de Artigo 50, vou correr atrás da cidadania polonesa". O Artigo 50 do Tratado de Lisboa discorre sobre como um país sai da União Europeia. Como o governo britânico está confuso sobre o que fazer, ele ainda não deu início a esse processo. Mas é quase certo que ele irá.

Diante disso, a escolha de Adele é algo curioso. Os nazistas mataram sua bisavó, Frimeta Gelband, na Polônia, em uma câmara de gás. A avó de Adele, Amalia, que tinha 11 anos em 1942, se viu sozinha na Polônia ocupada pelos nazistas, uma garota judia perseguida. Ela mudou seu nome para Helena Kowalska, passou por católica, encontrou trabalho em uma fazenda e sobreviveu à tentativa da Alemanha de aniquilar o povo judeu da Europa.

Depois da guerra, as autoridades polonesas colocaram Amalia em um orfanato judeu em Cracóvia, onde ela permaneceu por três anos. Tudo que ela queria da Polônia era sair dela. Sua mãe, seus primos, tias e tios haviam todos sido mortos.

Amalia Baranek hoje é uma cidadã brasileira vivendo no Rio. Ela celebrou as maravilhosas Olimpíadas que acabaram de terminar, e tem pouco tempo a perder com os detratores do Brasil, o país que a acolheu. Ela vive no Rio desde 1948, ano em que ela se encontrou pela última vez com seu pai, que deixou a Polônia pouco antes da guerra. Não existe brasileira mais orgulhosa do que Amalia. Ela sabe quando um país tem um espírito generoso.

Adele, que hoje tem 18 anos e cursa o segundo ano da Universidade do Sul da Califórnia, adora sua avó brasileira. Mesmo assim, ela está disposta a se tornar polonesa.

Não tenho certeza de quem posso culpar por isso, ou se culpar é a palavra certa (ver abaixo). O mundo era cheio de medo e de raiva nos anos 1930, o suficiente para levar um incitador de ódio ao poder na Alemanha. E hoje ele está cheio de medo e raiva novamente, o suficiente para levar o Reino Unido para fora da União Europeia e um homem tão equivocado quanto Donald Trump à beira da presidência americana.

Uma psique problemática requer um bode expiatório. Para Hitler, foram os judeus, entre outros. Os bodes expiatórios de hoje são buscados em toda parte pela sensação generalizada de que há algo de errado: de que empregos estão sendo perdidos; de que a precariedade substituiu a segurança; de que a renda está estagnada ou em declínio; de que os políticos foram comprados; de que os banqueiros por trás da crise de 2008 se safaram incólumes; de que os imigrantes são aproveitadores; de que a desigualdade está fora de controle; de que os sistemas tributários estão distorcidos; de que os terroristas estão em toda parte. Esses bodes expiatórios, de ambos os lados do Atlântico, incluem refugiados sírios, imigrantes africanos, trabalhadores poloneses no Reino Unido, mexicanos, muçulmanos e, agora que está aberta a temporada para o ódio, praticamente qualquer um que seja considerado "estrangeiro".

Não há nada de novo debaixo do Sol. Como Rudyard Kipling observou: "Toda gente boa concorda/E toda gente boa diz/Toda gente decente, como a gente, somos Nós/E todo o resto são Eles."

Depois da loucura contra "todo o resto", vem o remorso. Os descendentes de famílias que foram assassinadas ou expulsas da Polônia durante o Holocausto hoje podem se candidatar a uma cidadania por ancestralidade. Alguns dos parentes próximos de Adele já se tornaram poloneses. É claro, um passaporte polonês hoje é também um passaporte para se trabalhar em qualquer lugar da União Europeia, a maior criação política da segunda metade do século 20, uma união sem fronteiras de cerca de meio bilhão de pessoas (pelo menos até a saída do Reino Unido). Os jovens, incluindo todos os jovens britânicos que votaram em massa a favor da permanência, querem poder viver, amar e trabalhar em qualquer lugar da Europa.

Adele faz parte deles. Ela adora Londres, onde terminou o colegial, adora sua receptividade. Ela não consegue acreditar que seu passaporte britânico em breve poderá deixar de ser um passaporte da União Europeia, a menos que de alguma forma a sanidade se reinstaure. E assim a Polônia vai se tornando atraente, assim como a Alemanha, com uma lei parecida, para alguns judeus britânicos de origem alemã desde o Brexit. E a história completa um ciclo.

De certa forma, esse retorno é correto. Adele deve sua existência a um corajoso polonês chamado Miecyslaw Kasprzyk, que em 1942 arriscou sua vida para esconder Amalia no sótão da casa da fazenda da família perto de Cracóvia. Ele conhecia a família Gelband, estava revoltado com a matança de judeus e, como uma vez ele me disse: "Como você pode não ajudar, se uma criança lhe pede?"

Kasprzyk me disse mais uma coisa: "Alguém que não saiba a diferença entre o bem e o mal não vale nada. Na verdade, uma pessoa dessas deveria estar em um hospício."

Muitos poloneses colaboraram, mas não foram todos. Que a clareza moral de Kasprzyk inspire Adele, seja como polonesa ou não, e que o mundo não tenha nunca mais de mergulhar na escuridão à qual ele se sentiu obrigado a resistir.
 

Tradutor: UOL

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