Conheça Papi Jiang, a webcelebridade chinesa que supera famosos em número de seguidores

Amy Qin

Em Pequim (China)

  • Papi Jiang

Jiang Yilei é a garota comum que fala muito em dieta e reclama dos pais rabugentos na sala lotada de seu apartamento. Ela usa franja e pouca maquiagem, e tem dois gatos.

Ela também é uma das mais populares e repentinas celebridades online da China, mais conhecida como Papi Jiang. Em menos de um ano, segundo seus parceiros de negócios, ela acumulou 44 milhões de seguidores em diversas plataformas, com seus vídeos humorísticos em que fala muito rápido.

Apesar de haver provavelmente uma certa sobreposição de plataformas, esse número supera a audiência de celebridades populares no YouTube como Ryan Higa (17,8 milhões) e Jenna Marbles (16,4 milhões).

No mês passado, a primeira transmissão ao vivo de Jiang --um vídeo confuso, sem roteiro, de 90 minutos-- foi assistido mais de 74 milhões de vezes em um dia. Isso supera o número de acessos que o último clipe de Taylor Swift, "New Romantics", teve no YouTube em quatro meses.

É verdade, a maioria das coisas na China são em escala maior que em outros lugares. Mas até pelos padrões chineses Jiang, 29, se destaca, tanto que os canais de mídia do país passaram a chamá-la de celebridade nº 1 de 2016.

"Papi Jiang é de longe a mais popular celebridade online", disse Kunkun Yu, executiva- chefe do aplicativo de rede social Linglong, com sede em Pequim. "Muitos jovens chineses a consideram seu ídolo."

A ascensão meteórica de Jiang reflete a natureza da internet chinesa, em rápida mutação e, em particular, sua demanda insaciável por conteúdo.

A web chinesa tornou-se cada vez mais dirigida para celulares e tablets, com mais de 92% dos 710 milhões de usuários da rede no país acessando-a por meio de aparelhos celulares, segundo um relatório publicado este mês pelo Centro de Informação sobre a Internet na China, um órgão oficial.

Eles usam a rede para fazer compras, conversar com amigos e procurar informação e entretenimento em aplicativos como Weibo, uma plataforma de microblog, e Weixin, o app de mensagens também conhecido como WeChat.

Isto levou ao crescimento do que os chineses começaram a chamar de zimeiti, literalmente "automídia", um termo abrangente que inclui o conteúdo autopublicado nas plataformas de redes sociais.

Yang Ming, sócio de Jiang e ex-colega de classe na Academia Central de Teatro em Pequim, disse em uma entrevista: "Vimos que a automídia estava crescendo muito, então pensamos:  'Devemos fazer algo com isto?'" (Jiang, que raramente fala com os canais de notícias, não quis ser entrevistado.)

Ainda em 2015, disse Yang, não muitas pessoas faziam vídeos curtos na China, enquanto nos EUA as celebridades do YouTube são comuns há anos. "Eles nem eram chamados de clipes na época", disse ele. "Eram apenas vídeos."

Jiang, que havia voltado a estudar na Academia Central de Teatro depois de trabalhar em entretenimento durante vários anos, incluindo como atriz e assistente de direção, começou a experimentar, jogando com elementos que se tornariam parte de seu estilo pessoal: uma voz modificada digitalmente, entrega super-rápida e cortes saltados.

Aos poucos, ela começou a formar um público, até um dia de novembro, quando um vídeo que ela fez zombando das mulheres de Xangai e sua tendência a usar palavras inglesas na conversa, tornou-se viral.

"Fiquei chocada, mortalmente assustada", disse ela em uma entrevista em junho ao site chinês Sina. "Pensei: 'O que vou fazer?' Não conseguia nem comer."

Desde então, ela fez cerca de 60 vídeos que enfocam temas familiares aos jovens urbanos instruídos, como a traição aos namorados, a cultura das celebridades e os dialetos regionais.

Em um exemplo memorável, ela fala como odeia as pessoas apaixonadas que falam constantemente sobre seus parceiros. Em outro, trata dos estereótipos de gênero na China.

"Coisas que você definitivamente ouviu em algum momento", anuncia ela à câmera. "Esse trabalho é cansativo demais. Não é adequado para mulheres." Corte rápido. "Jogar basquete? É melhor as mulheres ficarem em casa." Corte rápido. "Uma mulher deve usar cabelos compridos." Corte rápido. "As mulheres que experimentam a homossexualidade, tudo bem. Mas não suporto isso em homens." Corte rápido. "Um enfermeiro homem? Argh."

Ela se despede no vídeo de dois minutos com o que se tornou sua assinatura: "Eu sou Papi Jiang, uma mulher que possui beleza e talento".

Para seu público, formado principalmente por jovens de 20 a 30 anos nas cidades litorâneas, Jiang, original de Xangai, oferece uma nova perspectiva urbana raramente vista na comédia chinesa.

"Antes, você tinha comediantes stand-up populares como Zhao Benshan, mas era com frequência um tipo de humor bem rural, com piadas sobre coisas como arar os campos e comer repolho", disse Yu, a executiva de app de rede social.

Ela acrescentou: "A atração de Papi, por outro lado, é com os trabalhadores de colarinho branco que querem falar sobre como têm 39 anos e ainda não se casaram, e o que devem fazer".

Enquanto a popularidade de Jiang disparava, as empresas de internet e os investidores começaram a notar. Nos últimos anos, desde que o governo começou a reprimir o conteúdo pirata e, especialmente desde 2012, o conteúdo importado, as empresas estão sedentas por material original de alta qualidade feito no país.

Contra esse pano de fundo, a atração de Jiang como alguém que escreve, grava e edita seus próprios vídeos é clara.

Em março, ela se tornou uma das primeiras estrelas virais da China a atrair capital de risco, quando um grupo formado por quatro grandes investidores institucionais anunciou que estava aplicando US$ 1,8 milhão em sua empresa.

"Em sua forma atual, o mercado só teve uma série de celebridades online de curta duração", disse um desses investidores, Luo Zhenyu, fundador e anfitrião de um popular programa de entrevistas, ao site chinês The Paper. "Estamos vendo uma pessoa que tem um potencial ilimitado de transformar este mercado, trazendo uma lógica empresarial totalmente nova."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos