Ávida em receber o clube da elite, China se enfeita para reunião do G20

Jane Perlez e Yufan Huang

Em Hangzhou (China)

  • Lam Yik Fei/The New York Times

    Policiais patrulham as ruas de Hangzhou, na China, às vésperas da cúpula do G20

    Policiais patrulham as ruas de Hangzhou, na China, às vésperas da cúpula do G20

Enquanto a China se prepara para ser a anfitriã da reunião de cúpula do G20 (grupo das 20 maiores economias do mundo) neste fim de semana em Hangzhou, ela está determinada a mostrar ao mundo que é uma parceira igual em um dos clubes mais exclusivos dos países ricos.

A conferência, nesta notável cidade à beira de um lago ao sul de Xangai, será o encontro mais significativo de líderes mundiais na história da China, e o presidente Xi Jinping ordenou segurança rigorosa para assegurar que tudo saía sem problemas.

O governo está usando todos os poderes de seu sistema autoritário, forçando moradores a deixarem os prédios próximos do local da reunião, para diminuir o risco de protestos ou ataques, e dizendo aos trabalhadores para tirarem férias, para liberar a cidade e apresentar uma versão sanitizada de um dos centros econômicos mais vibrantes da China.

Ele chegou até mesmo a proibir cozinheiros de origem uigur, uma minoria muçulmana que é acusada de fomentar terrorismo, de trabalharem em um restaurante da cidade.

Não pela primeira vez, as autoridades querem demonstrar às pessoas em casa e no exterior que a China, a segunda maior economia do mundo depois dos Estados Unidos, merece um papel maior na governança global.

A presidência rotativa, agora ocupada pela China, é a culminação de uma longa batalha pela aceitação do topo do sistema internacional. Apesar de a China ser membro do Conselho de Segurança da ONU, do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e da Organização Mundial do Comércio, a liderança do país sente como se fosse tratada como caloura nos encontros de cúpula globais.

O G20 atrai a China como um fórum para estabelecer sua influência, já que entre seus membros estão alguns países em desenvolvimento que Pequim considera como amigos, porém como um todo o grupo representa mais de 80% da economia mundial e uma grande parte do comércio mundial.

"Receber o G20 oferece uma oportunidade significativa para a China se tornar uma autora de regras, não apenas uma seguidora de regras", disse Zhu Jiejin, um professor associado de relações internacionais da Universidade de Fudan. "O G20 pode não ser uma plataforma de força de ligação, mas ao menos assegura que nossa palavra tenha peso igual a dos países desenvolvidos."

Mas a China sobe ao palco central no momento em que o sentimento popular no Ocidente azeda em relação à globalização, os candidatos presidenciais americanos recuam do livre comércio e há abundância de ceticismo a respeito da capacidade do G20, mais um fórum de conversa do que de decisões vinculantes, de resolver o problema do baixo crescimento mundial.

Em questões geopolíticas, a China está assegurando que questões como suas atividades no Mar do Sul da China, assim como sua produção excessiva de aço, que perturbam os Estados Unidos e a Europa, estejam ausentes da agenda.

Lam Yik Fei/The New York Times
Propagandas da cúpula do G20 no aeroporto de Hangzhou


"Não surgirá nenhuma política milagrosa dessa cúpula", disse Tristram Sainsbury, diretor do projeto de estudos do G20 no Instituto Lowy para Políticas Internacionais, na Austrália.

Isso torna o show em si ainda mais importante. "Para a China, principalmente, trata-se de exibição, de mostrar que pode organizar um grande encontro internacional", disse Matthew P. Goodman, um especialista em G20 do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais.

Hangzhou, a capital da província de Zhejiang, é um dos centros mais prósperos do país e serve como base da gigante de comércio eletrônico Alibaba. Xi serviu como secretário do Partido Comunista para Zhejiang em meados dos anos 2000.

A resiliência do partido sob Xi, em exposição com bandeiras gigantes exibindo a foice e o martelo nos postos de controle, faz parte da mensagem da reunião.

Um dos sucessores provinciais de Xi, o chefe do partido, Xia Baolong, disse que a reunião "demonstrará a grande realização da abertura e reforma da China e a imensa superioridade do socialismo com características chinesas", a descrição do governo de seu sistema político e econômico.

Independente de onde as reuniões globais são realizadas, as cidades que as recebem investem em quantidades imensas de segurança para evitar ataques terroristas e protestos. Em 2012, o presidente Barack Obama transferiu uma reunião do G8 de Chicago para Camp David, Maryland, devido ao temor de grandes manifestações.

Em Hangzhou, milhares foram forçados a sair de seus edifícios de luxo próximos do centro de conferência, com seus apartamentos selados com fita adesiva para impedir que um atirador entre em um deles. Funcionários públicos e do setor privado receberam férias, e os trabalhadores migrantes foram instruídos a voltar para suas províncias de origem. Em um esforço para garantir céus azuis, as fábricas em um amplo perímetro em torno da cidade foram fechadas.

Mas algumas medidas de segurança aqui parecem excessivas. Duas semanas antes da reunião, o setor de cozinha da loja de departamentos Metro Center carecia de facas. A venda delas foi proibida desde junho, disse uma vendedora. Em um café Starbucks no centro da cidade, o balcão de comidas estava vazio. Caminhões de entrega não conseguiam passar pelo cordão de segurança, disse o barista.

Um grande foco da segurança tem sido os uigures. No restaurante Beijiang, com murais representando os desertos do oeste da China e um cardápio halal (de acordo com as normas muçulmanas), 10 cozinheiros uigures foram enviados para casa em junho, a pedido do governo, disse o gerente, Cai Ziwei.
 

Lam Yik Fei/The New York Times
Lojas fechadas em Qibao, bairro de imigrantes a 25 km do centro de Hangzhou

Apenas depois o estabelecimento foi colocado em uma lista de restaurantes recomendados aos delegados muçulmanos da reunião, ele disse.

Os hotéis foram orientados há dois meses a informarem à polícia caso um uigur tentasse se registrar, disse um funcionário da rede de hotéis Hanting.

Em junho, policiais no bairro migrante de Qibao, a 24 quilômetros do centro da cidade, ordenaram que todas as mercearias, lojas de roupas e restaurantes margeando as ruas fossem fechados, disse Wang Jinfu, um funcionário público municipal.

Em alguns casos, foi pedido a pequenas empresas que fechassem com o argumento de que se permanecessem abertas e ocorresse um acidente, as autoridades locais do partido seriam penalizadas.

"Eles nos disseram, trata-se de um evento único, e se algo acontecer enquanto Obama estiver aqui, as autoridades podem perder seus cargos, então disseram: 'Por favor, feche'", disse Li Yindeng, proprietário do Chenyang, uma estabelecimento de noodle. "Não há nada que possamos fazer e o governo não nos indenizará."

Um membro do partido foi detido por 10 dias em julho, após se queixar online sobre os custos elevados dos preparativos. O jornal estatal "Global Times" noticiou que o membro do partido, Guo Enping, foi detido porque seu artigo, "Hangzhou, que vergonha", atraiu um grande número de leitores.

Lam Yik Fei/The New York Times
Lojas fechadas em Qibao, bairro de imigrantes a 25 km do centro de Hangzhou

À medida que as regras causavam disrupção no cotidiano, mais pessoas desabafavam online e cresciam as chamadas para os telefones da municipalidade. "Todo dia nossa mídia ataca as vis potências estrangeiras, e agora elas chegam e temos que nos ajoelhar e servir", escreveu uma pessoa.

Para um público que enfrenta regularmente problemas com alimentos contaminados, houve desalento quando o líder da autoridade do Estado para grãos, Ren Zhengxiao, disse que não permitiria a entrada de "nenhum grão de arroz inseguro ou gota de óleo inseguro" nas cozinhas que prepararão o banquete dos líderes.

O governo pediu que todos cumprissem o programa.

"As pessoas não devem expressar descontentamento com ações desarrazoadas ou mesmo negar a importância do trabalho de segurança na cúpula do G-20", escreveu o jornal estatal "Diário de Zhejiang".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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