Com Madre Teresa prestes a ser canonizada, seu trabalho permanece vivo nas ruas

Elisabetta Povoledo

Em Roma

  • Gianni Cipriano/The New York Times

    Religiosas da congregação Missionárias da Caridade participam de comunhão em Roma

    Religiosas da congregação Missionárias da Caridade participam de comunhão em Roma

Com seus sáris brancos de bordas azuis, as irmãs são uma discreta, mas característica presença nas ruas à noite, oferecendo consolo para os mais pobres e, quando possível, um lugar para ficar.

Mas essas irmãs da Missionárias da Caridade, a congregação religiosa fundada por Madre Teresa, que deve ser canonizada no domingo (4) pelo papa Francisco, não estão ajudando os pobres de Calcutá, na Índia, onde a ordem começou em 1950. Elas estão ajudando os indigentes e abandonados de Roma.

"A Madre costumava dizer que isso era uma gota no oceano, mas sem essa gota, não seria o mesmo", diz a irmã Mary Prema Pierick, a superiora geral da congregação, em uma entrevista dentro de um antigo galinheiro transformado em alojamentos para algumas das irmãs em Roma.

Ativos em 139 países, as irmãs, os irmãos e os padres afiliados que formam o que é conhecida como a família da Missionárias da Caridade estão dando continuidade ao trabalho iniciado por Madre Teresa há quase 70 anos, cuidado daqueles que ela chamava de "os mais pobres entre os pobres". Independentemente de onde os pobres possam estar.

Nos 19 anos desde que Madre Teresa morreu, seu legado continuou a crescer, atraindo homens e mulheres para a congregação, que hoje conta com mais de 5.800 membros em todo o mundo.

Considerada uma santa por muitos, mas criticada por outros, Madre Teresa, uma freira católica romana de origem albanesa que ficou famosa por seu trabalho com os pobres na Índia, foi beatificada em 2003. Sua canonização será uma das mais rápidas dos tempos modernos.

Roma sempre teve um lugar especial no coração de Madre Teresa, de acordo com conhecidos seus, e a cidade se tornou uma parada frequente em suas viagens. Isso acontecia em parte porque ela se encontrava frequentemente com o papa João Paulo 2º, ele mesmo canonizado em 2014, que lhe disse para visitá-lo sempre que estivesse em Roma.

Essa era "uma obrigação que ela obedecia alegremente", diz a irmã Prema, uma mulher de fala mansa em um inglês com leve sotaque alemão, um aceno a suas raízes em Essen. A capital italiana também foi a primeira cidade europeia onde Madre Teresa abriu uma casa para membros da missão, em 1970.

Ela escolheu uma área na periferia chamada Tor Fiscale, na época uma favela habitada em sua maior parte por refugiados do pós-guerra, alguns deles vivendo em casas improvisadas nas galerias dos antigos aquedutos romanos que ainda cruzam o interior do país.

"Aqui tem uma foto da Madre ao lado de um Fiat 600; aqui tem outra das irmãs construindo a casa em Tor Fiscale", diz o reverendo Brian Kolodiejchuk, o postulante --ou principal promotor-- da causa para sua canonização, em uma entrevista na casa. Ele aponta para as fotografias em uma parede do lado de fora de um quartinho onde Madre Teresa costumava ficar.

Em uma delas, meia dúzia de irmãs vestidas de sári misturam cimento e empilham tijolos para uma parede do lugar que viria a se tornar uma das primeiras casas de formação europeias, para aspirantes a irmãs viverem e estudarem.

"As irmãs vão até onde os pobres estão, então elas simplesmente vieram para cá", ele diz.

 

Hoje, 15 estudantes homens de teologia ocupam a casa com três padres da Padres Missionários da Caridade, o braço fundado para "prestar serviços clericais para os pobres e fornecer assistência espiritual para a família MC", ele diz.

Pela manhã, o pátio coberto de trepadeiras da casa é aberto para homens sem-teto, que chegam para tomar banho, tomar café da manhã e talvez jogar pingue-pongue.

Quando o reverendo Sebastian Vazhakala, o cofundador junto com Madre Teresa da Irmãos Contemplativos Missionários da Caridade, buscou um lugar para viver em Roma em 1979, ele se mudou para uma área decadente --muito perto do que foi outrora a antiga estrada romana de Via Praenestina-- povoada com cerca de 8 mil pessoas vivendo em barracos improvisados. "Para mim era como Calcutá, isto aqui era uma favela", ele lembra.

Um pequeno grupo de irmãos limpou a terra e construiu estradas, dentro de um programa municipal para reabilitar vizinhanças abandonadas. Em 1993, eles abriram um abrigo para homens sem-teto, o Casa Serena. Hoje ele fornece camas e chuveiros para 80 pessoas, juntamente com duas refeições quentes por dia.

Giuseppe, um romano de meia idade que não quis dar seu sobrenome, está hospedado na Casa Serena há pouco menos de dois meses. "De uma hora para outra, perdi tudo", ele disse sobre seu revés. "Espero que não dure muito".

Ele disse que passou a conhecer melhor Madre Teresa durante sua estadia, já que há palavras suas anotadas em toda a hospedaria. "O que ela fazia era muito humano", ele diz.

"Aprendi com ela que é melhor acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão", diz Vazhakala, que fez parte do primeiro grupo de seis homens que fizeram seus votos em 1968, e o único do grupo que continua na família da Missionárias da Caridade. "Não são palavras dela, mas era o que ela estava praticando. Ela diria, 'Se eu posso fazer algo, então eu devo fazer.'"

Em Roma, as irmãs administram um abrigo para homens sem-teto, perto de sua casa em frente ao Monte Palatino --onde o quarto de Madre Teresa se tornou um ponto de peregrinação-- e uma cozinha comunitária e abrigo para mulheres sem-teto na Cidade do Vaticano.

Elas possuem um abrigo noturno para homens sem-teto perto da principal estação ferroviária de Roma, além de duas casas onde dão hospedagem para mulheres grávidas e mães com crianças. Elas visitam as famílias dos doentes e necessitados, e oferecem acampamentos de verão para crianças de famílias que não têm condições de enviá-las para um. Há voluntários que ajudam a elas e aos irmãos em seu trabalho.

A canonização, diz Vazhakala, que fundou a Missionários Leigos da Caridade, um movimento aberto para católicos praticantes que se comprometem a servir aos mais pobres dos pobres, oferecerá um púlpito renovado para seus trabalhos.

"Ah, com certeza, fora a santidade de sua vida, é como se fosse surgir uma escola da Madre Teresa: será uma chance de vivenciar sua espiritualidade", ele disse.

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos