Jovens negros rejeitam Hillary, e isso preocupa os democratas

Jonathan Martin

Em Washington (EUA)

  • Whitney Curtis/The New York Times

    A ativista Brittany Packnett, 31, no centro de St Louis

    A ativista Brittany Packnett, 31, no centro de St Louis

Quando um punhado de organizações de defesa liberais formaram uma série de grupos focais com eleitores negros jovens no mês passado, as avaliações de Donald Trump foram previsivelmente implacáveis.

Mas quando os participantes foram questionados sobre Hillary Clinton, as avaliações foram igualmente duras e quase tão negativas.

"O que devo fazer se não gosto dele e não confio nela?", perguntou uma mulher negra da geração do milênio em Ohio. "Escolher entre ser esfaqueada e ser baleada? De jeito nenhum!"

"Ela fez parte de todo o problema que começou a enviar negros para a cadeia", observou um homem negro jovem, também de Ohio, sobre Hillary.

"Ele é racista, ela é mentirosa, então qual é a diferença entre escolher ambos ou não escolher nenhum?", disse outra mulher negra jovem de Ohio.

Os afro-americanos jovens, como todos os eleitores de sua faixa etária, costumam ser mais difíceis de levar às urnas do que os americanos mais velhos e de meia-idade. Mas restando pouco mais de dois meses até a eleição, muitos democratas estão expressando alarme com a falta de entusiasmo, e em alguns casos pura resistência, de alguns jovens negros da geração do milênio em relação a Hillary.

O ceticismo deles está enraizado em um profundo desconforto com o establishment político que acreditam que a ex-primeira-dama e ex-secretária de Estado de 68 anos representa. Eles compartilham uma desconfiança persistente de Hillary e de seu marido em relação a questões envolvendo a justiça criminal. Eles estão exigindo mais dos políticos como parte de uma nova onda de ativismo negro confrontador que surgiu em resposta às mortes pela polícia de afro-americanos desarmados.

"Estamos no meio de um movimento com um senso real de urgência", explicou Brittany Packnett, 31 anos, uma líder baseada em Saint Louis no esforço para responsabilização da polícia. Hillary ainda não está conectando, ela disse, "porque a conversa atual entre os eleitores negros mais jovens não é sobre escolher um candidato que é melhor que a alternativa".

A questão sobre quantos afro-americanos comparecerão às urnas tem profundas implicações para esta eleição. Hillary certamente ficará à frente de Trump entre os eleitores negros, mas o percentual geral poderá importar menos do que o número total de negros que comparecerem para votar.

Para reproduzir o sucesso do presidente Barack Obama em Estados cruciais como a Flórida, Ohio e Pensilvânia, ela não pode se dar ao luxo de permitir que o percentual do eleitorado negro fique abaixo do de 2012. E apesar de uma queda modesta nos votos negros poder não colocar em risco as chances de Hillary, diante da impopularidade de Trump entre os eleitores brancos de renda mais alta, isso poderia minar o esforço dos democratas de retomar o controle do Senado e vencer outras disputas na eleição.

As dificuldades de Hillary entre os jovens afro-americanos foram expostas em quatro grupos focais realizados em Cleveland e Jacksonville, Flórida, por um punhado de organizações progressistas que estão gastando milhões na eleição: o sindicato dos trabalhadores do setor de serviços, um supercomitê de ação política envolvendo sindicatos trabalhistas e o bilionário ambientalista Tom Steyer, e um grupo progressista chamado Projeto Nova América.

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Os resultados foram apresentados em um relatório de 25 páginas por Cornell Belcher, um analista de pesquisas de opinião democrata, e compartilhados com o "New York Times" por outro estrategista do partido, que quis chamar a atenção para as dificuldades de Hillary na esperança de que a campanha trate mais agressivamente do assunto.

A notícia do relatório se espalhou por uma constelação de agentes liberais e grupos de defesa nas últimas semanas, preocupando aqueles que viram a redução do comparecimento dos negros para votar prejudicar os candidatos democratas nas duas últimas eleições de meio de mandato.

O que frustra muitos negros com menos de 40 anos é o foco excessivo de Hillary em Trump.

"Nós já sabemos qual é a do Trump", disse Nathan Baskerville, um deputado estadual de 35 anos da Carolina do Norte. "Diga-nos qual é seu plano para tornar nossa vida melhor."

Conversa como essa pode ser frustrante para os assessores de Hillary, que apontam que o primeiro discurso dela de campanha foi sobre a justiça criminal e ela apresentou uma série de propostas sobre o assunto.

"Cabe a nós assegurar que isso seja conhecido", disse Addisu Demissie, diretor de mobilização e contato com o eleitor de Hillary, acrescentando aos jovens negros ativistas que "compartilhamos suas metas, compartilhamos seus valores e queremos assegurar que estão refletidos em nossa campanha".

Justin T. Gellerson/The New York Times
Christopher Prudhome. preside grupo que busca registrar jovens eleitores, em Washington, nos EUA

Os grupos focais e entrevistas com ativistas negros jovens sugerem que muitos deles não estão cientes dos planos de Hillary a respeito da conduta policial, encarceramento em massa e racismo estrutural.

Christopher Prudhome, 31 anos, narrou uma conversa recorrente que ele tem com outros afro-americanos enquanto ele percorre o país como chefe de um grupo não partidário dedicado ao registro de eleitores jovens: eles não gostam de nenhum candidato.

"Os jovens se sentem desencorajados e apreensivos com o processo político como é, e então olham para as duas opções diante de nós", disse Prudhome, acrescentando sobre Hillary: "Ninguém viu uma agenda para a geração do milênio afro-americana. Acho que eles acreditam que ela não se importa com eles."

Dúvidas sobre quão agressivamente Hillary agirá para combater o racismo estão no âmago da suspeita dos negros em relação a ela. Alguns afro-americanos disseram que sua referência em 1996 a alguns jovens criminosos como "superpredadores" e a legislação sancionada pelo presidente Bill Clinton, impondo penas mais duras a crimes não violentos, deixam os atuais ativistas céticos a respeito das verdadeiras intenções dela.

"Essas coisas veem à tona de forma espontânea", disse Belcher.

Trump tem recorrido à linguagem notavelmente dura a respeito dos negros nas últimas semanas, retratando suas comunidades como locais infernais distópicos e perguntando a eles, ao cortejar o apoio deles, "O que vocês têm a perder?" Alguns aliados afro-americanos de Hillary acreditam que ele tem servido como o mais eficaz mobilizador de eleitores dela.

"Ele está literalmente dizendo todo dia algo que é desrespeitoso para a comunidade negra", disse Michael Blake, um deputado estadual de Nova York pelo Bronx que trabalhou nas campanhas de Obama e é próximo de muitos assessores de Hillary.

Mas quando foram mostrados aos eleitores afro-americanos nos grupos focais materiais de campanha para que avaliassem, não houve dúvida sobre quais eram os mais eficazes.

Um panfleto com uma foto de Trump que dizia, "Temos de derrotar os racistas", não sensibilizou os eleitores negros jovens.

O que recebeu uma avaliação mais alta foi um em preto-e-branco mostrando os nomes dos mortos pela polícia e outro com imagens das mães das vítimas que dizia: "Os filhos delas não podem votar, e você?"

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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