Análise: Trump admira Putin por sua postura autoritária como presidente

Steven Lee Myers

Em Washington

  • Mike Segar/ Reuters

    Donald Trump fala com Matt Lauer durante fórum sobre segurança nacional, em Nova York

    Donald Trump fala com Matt Lauer durante fórum sobre segurança nacional, em Nova York

O que espanta na mais recente manifestação de admiração de Donald Trump pelo impassível líder da Rússia, Vladimir Putin, é o quão parecida ela é com a forma como Putin é retratado na Rússia: como um necessário contraste para uma liderança agressiva e equivocada dos Estados Unidos.

Entrevistado em um fórum de candidatos da NBC na quarta-feira à noite, Trump não falou nada sobre os feitos de Putin, exceto talvez pela menção a um índice de 82% de aprovação indicado por um instituto de pesquisas que agora foi declarado pela Justiça como um "agente estrangeiro".

Trump também não esboçou uma perspectiva de como seria trabalhar com ele caso se tornasse presidente, além de considerar como seria maravilhoso se a Rússia e os Estados Unidos pudessem juntar forças contra o Estado Islâmico.

Em vez disso ele recitou uma litania de situações em que o presidente Barack Obama teria sido ignorado ou desrespeitado no palco mundial, incluindo a constrangedora cerimônia de chegada em sua mais recente visita à China para o G20. A mensagem, segundo Trump, é que Putin agora é mais respeitado do que Obama.

"Ele tem sido um líder", disse ele a respeito de Putin, "bem mais do que nosso presidente tem sido".

Como era de se esperar, Hillary Clinton, em campanha para ser a sucessora democrata de Obama, criticou duramente esses comentários na quinta-feira, assim como alguns colegas republicanos, incluindo o presidente da Câmara Paul D. Ryan, que listou muitas das razões pelas quais Putin seria mais um adversário dos Estados Unidos do que um aliado em potencial.

"Putin é muito mais líder que Obama", diz Trump

Mas a visão que Trump tem do presidente russo não é incomum entre aqueles que o usam como referência do status de Obama no mundo—ou, de forma mais geral, o status dos Estados Unidos como a superpotência dominante do mundo.

Na Rússia, ela está no cerne da representação de Putin como o bastião contra um Estados Unidos conspirador. Ela fundamenta a atratividade de Putin para partidos nacionalistas na Europa consternados com o que eles veem como uma liderança displicente diante das dificuldades econômicas e do desafio da imigração.

E é compartilhada por aqueles no Oriente Médio que veem a intervenção da Rússia na Síria em nome de seu presidente Bashar al-Assad como determinada, e não hesitante e complicada como a política americana tem sido.

Em 2013, quando Putin intermediou um acordo para recolher e destruir a maior parte das armas químicas da Síria, evitando assim ataques aéreos liderados pelos EUA que Obama havia ameaçado realizar, Matt Drudge, da conservadora Drudge Report, chamou Putin, talvez maliciosamente, de "líder do mundo livre". Os editores da revista "Forbes" o classificaram como o mais influente líder mundial, uma honraria puramente simbólica que ele perdeu e reconquistou desde então, mas que é apregoada dentro da Rússia.

"Acho que ele admira genuinamente o Putin como um tirano que consegue fazer as coisas", diz Angela E. Stent, professora da Universidade de Georgetown, referindo-se a Trump.

E quais seriam as façanhas de Putin que Trump admira? "Todos prestam atenção nele", diz Stent, acrescentando que as operações militares da Rússia na Síria desde o ano passado o colocaram de volta no centro da diplomacia internacional.

Os críticos da Rússia—e certamente a Casa Branca—refutariam as realizações de Putin, observando que sua economia é corrupta e cleptocrática e o sistema político é atrofiado e marginaliza uma oposição genuína, às vezes de forma violenta. Também tem a questão da anexação da Crimeia em 2014, que, embora seja popular na Rússia, levou a sanções internacionais e a um isolamento diplomático que erodiu a economia e a reputação da Rússia.

Stent, autora de "The Limits of Partnership" ("Os Limites da Parceria"), uma história sobre a degringolada nas relações entre a Rússia e os Estados Unidos, observou que na reunião do G20 na Austrália dois anos atrás, Putin teve de sentar sozinho no almoço, e foi embora mais cedo.

Trump enfatizou em sua entrevista a Matt Lauer, da NBC, que ele não necessariamente endossava o sistema político que Putin havia criado, mas voltou a usar sua linha de raciocínio para falar sobre os Estados Unidos como um país dividido por causa de uma liderança relativamente fraca.

Nina Khrushcheva, uma professora de estudos internacionais e reitora adjunta da New School, observou uma característica que os dois compartilham: a de um líder autoritário duro, algo como um valentão de escola que se recusa a recuar de uma briga no recreio (uma imagem que o próprio Putin usou para descrever sua infância).

"Ser um líder firme e poderoso que consegue encarar as pessoas até elas desviarem o olhar como Putin é claramente algo a que Trump aspira", disse Khrushcheva.

Assim como fez antes, Trump ignorou as muitas questões que dividem os Estados Unidos e a Rússia, e não está nada claro que Trump como presidente, brincadeiras à parte, pressagiaria uma melhora significativa nas relações entre os dois países.

Em vez disso Trump citou um comentário que o russo fez de improviso para ele. Em observações espontâneas feitas em dezembro, Putin usou um adjetivo russo—"yarki"—que, segundo Trump, significa brilhante, embora também possa significar colorido ou espalhafatoso. "Se ele diz coisas boas sobre mim, vou dizer coisas boas sobre ele", ele disse.

Depois de mencionar a fotografia de Putin e Obama encarando-se, Trump observou que a Rússia queria derrotar o Estado Islâmico tanto quanto os Estados Unidos queriam. "Se temos um relacionamento com a Rússia, não seria maravilhoso se pudéssemos trabalhar juntos nele e derrotar o EI?", ele disse, referindo-se ao grupo terrorista pelo acrônimo.

Putin certamente aceitaria de bom grado uma administração mais concordante em Washington, embora ele não tenha oferecido concessões que pudessem incentivar uma mudança na política para a Síria ou qualquer outro lugar. Mas suas visões sobre as eleições americanas e os dois principais candidatos parecem mais sutis do que o tratamento favorável que Trump tem recebido na mídia controlada pelo Kremlin.

Em uma entrevista para a Bloomberg antes das reuniões do G20, Putin fez pouco das "táticas de choque" de Trump e de Hillary. "Não acho que eles estejam dando o melhor dos exemplos", ele disse.

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