Opinião: Partidos políticos nos EUA podem mudar de eleitorado de formas inesperadas

David Brooks

  • Reprodução/MotherJones/CNN

Há uma boa probabilidade de que o eleitor americano mude de partido político nos próximos 15 anos. Talvez ele seja um executivo de empresa que votou firmemente nos republicanos durante décadas, mas será um democrata consistente em 2024. Talvez seja um ativista da comunidade afro-americana em Cleveland, mas não se surpreenda se um dia se afiliar ao Partido Republicano.

O fato é que os partidos políticos podem mudar de eleitorado de maneiras inesperadas e drásticas. Na história dos EUA houve um padrão geral: um período de estabilidade partidária; depois alguma questão nova passa ao primeiro plano e divide o país de novas maneiras; antigas coalizões partidárias se desfazem e novas surgem.

Os afro-americanos já foram republicanos, mas a Grande Depressão trouxe a economia ao primeiro plano e Franklin D. Roosevelt os atraiu para o outro lado. Os profissionais liberais da Nova Inglaterra já foram republicanos, também, mas a ascensão do conservadorismo de Barry Goldwater-Ronald Reagan os fez virar democratas.

Parecemos estar hoje em um desses momentos de transformação. Está em curso este ano algo maior que as relativas deficiências de Donald Trump e Hillary Clinton.

Em primeiro lugar, muitas mentalidades partidárias existentes estão se extinguindo. Esta é a última eleição presidencial em que dois membros da geração baby boom estarão na disputa. Nos próximos anos, a política não será mais definida pelas animosidades ocultas da era do Vietnã, pelas questões da revolução sexual/ guerra cultural dos anos 1970.

Os futuros candidatos não terão saudade da América branca de antigamente ou dos mercados de trabalho cheios de sindicatos dos anos 1950. Eles não serão animados pelos broches de "paraíso perdido" que entusiasmam os velhinhos que assistem à Fox News.

A política está acompanhando a realidade social. A divisão social crucial de hoje é entre os que sentem as tendências principais da economia global da era da informática como ventos de popa e os que os sentem como ventos de frente.

Isso quer dizer que a mais importante divisão social hoje é entre uma América instruída que é marcada pela abertura econômica, estruturas familiares tradicionais, alto capital social e alta confiança nas instituições e uma América menos instruída que é marcada pela insegurança econômica, estruturas familiares anárquicas, laços comunitários frágeis e uma sensação generalizada de traição e desconfiança.

Esses dois grupos vivem em universos totalmente diferentes. Neste momento, cada partido tem um pé em cada universo, mas essas coalizões não vão durar. Em pouco tempo a política se romperá em abertura versus fechamento, dinamismo versus estabilidade, o que Ronald Brownstein da revista "The Atlantic" descreveu em 2012 como a Coalizão da Transformação contra a Coalizão da Restauração.

O Partido Republicano é hoje uma coalizão de executivos empresariais que amam a globalização e trabalhadores brancos que odeiam a globalização. Isso é insustentável. Em seu núcleo fundido, o Partido Republicano se tornou o partido dos despossuídos, não o partido das empresas cosmopolitas. Os enganados na Câmara de Comércio e na Mesa Redonda de Empresas apostaram todas as fichas no Partido Republicano exatamente no momento em que ele deixou de ser seu partido.

Agora imagine um Partido Republicano depois de Donald Trump, liderado por um candidato mais jovem sem seus preconceitos e sua cultura de guerra. Esse partido começará a atrair o pessoal desiludido de Sanders que detesta a Parceria Trans-Pacífico e possivelmente alguns eleitores de minorias altamente desconfiados da elite política.

O Partido Democrata é uma coalizão de profissionais urbanos de alto nível que formam a classe dominante e membros menos afluentes de minorias que se sentem traídos por ela. Isso também é insustentável. Em seu núcleo fundido o Partido Democrata é o partido da classe profissional litorânea, a chapa presidencial em 2016 das faculdades de direito de Yale e Harvard. É possível que neste ano os democratas ganhem em todos os Estados que tocam o oceano.

Assim como o Partido Republicano de Trump está esmagando os republicanos da Câmara, os democratas de Hillary eventualmente repelirão os democratas de Sanders. Seus interesses econômicos são apenas diferentes. Além disso, seus níveis de confiança social são vastamente diferentes.

Nós não pensamos normalmente que a política seja dividida por linhas de confiança. Mas neste ano estamos vendo enormes abismos, dependendo da confiança que a pessoa sente em seus vizinhos e nas instituições nacionais. A geração do milênio desiludida e com baixa confiança vê as coisas diferentemente dos profissionais de tecnologia, mídia de Hollywood e acadêmicos que na verdade dirigem o partido.

Esse tipo de divisão está se repetindo em todo o mundo. A característica claramente americana é a raça. Se os republicanos puderem abandonar as diferenças raciais --o que confessadamente pode ser uma grande tarefa-- e tornar-se mais o partido destinado a socorrer os que estão decepcionados com a era da informática globalizante, poderá ganhar alguns eleitores de minorias, e os atuais alinhamentos do partido se desfarão em curto prazo.

Pesquisas sugerem que os democratas ganharão entre eleitores com educação superior. Os republicanos vencerão entre brancos sem diploma superior. A brecha social, mental e emocional entre esses dois grupos está se ampliando cada vez mais. Esse é o futuro da política americana. Os republicanos são gente comum. Os democratas são a elite universitária. A coisa pode ficar feia.

Burro e elefante: os símbolos dos principais partidos políticos americanos

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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