Relações de abuso e angústia marcaram casamentos arranjados por ex-governo do Camboja

Stéphanie Giry

Em Phnom Penh (Camboja)

  • Sok Heng Nhet/Extraordinary Chambers in the Courts of Cambodia via The New York Times

    Cambojana relata em tribunal ter sido vítima de abuso de oficial do Khmer Vermelho, regime maoísta que governou o Camboja entre 1975 e 1979

    Cambojana relata em tribunal ter sido vítima de abuso de oficial do Khmer Vermelho, regime maoísta que governou o Camboja entre 1975 e 1979

Em uma vasta sala de tribunal nos arredores de Phnom Penh, uma mulher cambojana de meia-idade descrevia com seriedade uma noite há quatro décadas, sobre a qual ela disse nunca ter falado a respeito antes.

O líder local do governo do Khmer Vermelho a designou para que se casasse com um homem, mas no último minuto decidiu por outro, ela disse ao tribunal. Na noite de núpcias deles no início de 1977, ela rejeitou os avanços dele. O homem se queixou ao chefe, que a estuprou e ameaçou matá-la, antes de enviá-la de volta para viver com seu novo marido. 

"Eu mordi meus lábios e derramei minhas lágrimas", disse a mulher, identificada no tribunal apenas como 2-TCCP-274 para proteger sua identidade. Ela posteriormente permitiu que seu marido fizesse sexo com ela. 

O tribunal apoiado pela ONU para investigação dos crimes do Khmer Vermelho se voltou nas últimas semanas a um aspecto do regime radical maoísta com frequência ignorado em meio aos assassinatos em massa e outras brutalidades: as regulações que regiam os casamentos. O painel está considerando se as políticas representavam casamentos forçados ou levavam a agressões sexuais, ambos potenciais crimes contra a humanidade.

As pessoas que testemunharam até o momento, a maioria na faixa dos 60 anos, expuseram a amplitude de uma prática que muitos cambojanos descrevem informalmente, mesmo que às vezes com relutância. Uma ampla variedade de experiências despontou no tribunal: mulheres destinadas a soldados inválidos, milicianos espionando casais para confirmar que mantinham relações sexuais, pessoas levadas para casamentos coletivos, que faziam uso de estratagemas desesperados para serem casadas com pessoas vagamente conhecidas em vez de totais estranhos. 

Alguns casais conseguiram encontrar compaixão mútua sob coerção, desenvolvendo relacionamentos duradouros. Outros viveram vidas de desgosto silencioso devido as escolhas que lhes foram negadas. 

Os promotores estimam hesitantemente que até várias centenas de milhares de pessoas foram casadas em cerimônias do Khmer Vermelho entre 1975 e 1979, apesar de não existirem levantamentos confiáveis. A política declarada do Khmer Vermelho era aumentar a população do país, e em uma sociedade com tradição de casamentos arranjados, o regime assumiu o papel de pais de um povo inteiro como parte de seu projeto utópico de refazer o Camboja. 

Ele realizava casamentos coletivos por todo o país, mas sem os habituais rituais budistas e bênçãos de parentes e vizinhos. A prática, argumentam alguns acadêmicos, visava reafirmar o controle totalitário ao enfraquecer os laços familiares, comunitários e religiosos. 

Os advogados dos dois líderes sobreviventes do regime, Khieu Samphan, 85 anos, o chefe de Estado, e Nuon Chea, 90, o ideólogo-chefe do grupo, contestam a noção de que as regulações de casamento eram inerentemente coercitivas. A defesa ainda não apresentou seu argumento, mas ao menos um advogado insinuou que os casamentos pelo Khmer Vermelho eram apenas uma variação dos tradicionais e comuns casamentos arranjados. 

E qualquer coerção ou abuso sexual que tenha ocorrido, sugeriram as equipes de defesa de ambos os homens, foi resultado de decisões por grupos de escalão médio do Khmer, não uma política de Estado.

 O tribunal foi formado em 2006 para examinar os efeitos das políticas radicais do Khmer Vermelho, que historiadores disseram ter resultado nas mortes de cerca de 1,7 milhão de pessoas.

Em 2014, Khieu Samphan e Nuon Chea foram sentenciados individualmente à prisão perpétua, principalmente por crimes cometidos durante a decisão do regime de retirar pessoas das cidades para trabalho nas comunas rurais. Essa sentença está sendo apelada e o tribunal passou a tratar dos crimes cometidos nos centros de detenção e nos campos de trabalhos forçados, assim como os crimes contra duas minorias étnicas. 

A acusação de casamentos forçados foi incluída posteriormente no desdobramento do amplo indiciamento, por insistência dos advogados das vítimas e grupos de direitos das mulheres visando um maior reconhecimento da violência sexual e dos abusos baseados em gênero nos tribunais penais internacionais. Mas o tribunal também ouviu evidências sobre os efeitos das políticas sobre os homens. 

Um homem de ombros largos e carrancudo, conhecido como 2-TCCP-232, disse ao tribunal que foi forçado a se casar com outra pessoa em vez de sua noiva. Falando com a cabeça baixa, ele lembrou que trabalhavam em diferentes unidades móveis no mesmo distrito, abrindo canais e transportando terra. Mas eram politicamente suspeitos, pois antes ele era policial e alguns dos parentes dela foram levados (e provavelmente executados) como inimigos da revolução, ele disse. 

Um chefe de unidade alertou que ele também seria levado se tentasse se casar com sua noiva. Quando lhe disseram em um dia em 1978 que o Khmer Vermelho lhe arranjaria uma família, ele não ousou protestar. Um casamento coletivo foi realizado, às escuras, para cerca de 50 homens e 50 mulheres. 

Algumas pessoas, talvez aquelas com "boas biografias", pareciam poder opinar na escolha de seus parceiros, ele disse. Mas naquela noite, ele teve medo até mesmo de olhar para a mulher com que estava se casando. Eles eram o casal Nº 42. 

Na noite seguinte, eles foram encaminhados a um frágil barraco. "Tratamos um ao outro como irmão e irmã", ele disse. "Eu não toquei nela." Eles estavam exaustos demais para fazer sexo, ele disse. Ele ainda não tinha visto o rosto dela. "Foi apenas pela manhã que pudemos ver um ao outro claramente." 

E então foram enviados de volta ao trabalho. 

Alguns acadêmicos dizem que a regulação do casamento pelo Khmer Vermelho visava atacar o sistema tradicional de crenças dos cambojanos. Peg LeVine, uma antropóloga médica e membro da Centro para Pesquisa Avançada de Genocídio da Fundação Shoah da Universidade do Sul da Califórnia, disse que ele "quebrou, transformou e minou os rituais ancestrais praticados pelos cambojanos para aplacar o mundo espiritual". 

Mas Anta Guisse, uma advogada que representa Khieu Samphan, disse por e-mail que as regulamentações do governo exigiam explicitamente que a noiva, noivo e a comunidade concordassem com qualquer casamento. 

"A variedade de formas com que os casamentos eram tratados em áreas diferentes é um sinal revelador disso", ela disse. 

Um dos advogados de Nuon Chea, Liv Sovanna, buscou retratar o abuso sexual como uma violação da política do Estado em vez de consequência dela. Ele argumentou no tribunal que o Khmer Vermelho impunha um código rígido de conduta às suas autoridades, e leu um artigo conhecido como Código 6, que condenava comportamento imoral e declarava: "Não se deve tomar liberdades com mulheres".

Ao fazer perguntas para a mulher que disse ter sido estuprada por um chefe local por se recusar a consumar seu casamento, Liv Sovanna perguntou se ela entendia que estupro era um crime sério sob o Khmer Vermelho. 

"É claro que eu sabia que era um crime sério", ela respondeu, imperturbável. "Mas para quem eu diria? Se dissesse a alguém, me matariam. Ninguém podia me ajudar. Ele era a autoridade." 

Mas ela testemunhou que permaneceu com o marido escolhido pelo chefe local, em parte por insistência de parentes, após as forças vietnamitas derrubarem o Khmer Vermelho em 1979. 

Em 2014, a Organização Psicossocial Transcultural, um grupo não governamental que fornece apoio de saúde mental a sobreviventes da era do Khmer Vermelho, entrevistou 106 vítimas, participando formalmente do processo judicial. A maioria disse ter recusado um casamento pelo Khmer Vermelho ao menos uma vez, mas quase todas disseram que acabaram se casando no final, a maioria após ser ameaçada. 

Cerca da metade disse ter permanecido em seus casamentos após a era do Khmer Vermelho, a maioria por passarem a sentir compaixão ou afeição por seu cônjuges. Alguns casais realizaram um segundo casamento, dessa vez de acordo com a tradição budista. 

O homem forçado a casar com uma mulher cujo rosto ele não viu, 2-TCCP-232, também permaneceu com sua esposa após a queda do regime. Mas nunca esqueceu seu primeiro amor. 

Ele contou ao tribunal sobre um encontro posterior com sua noiva. 

"Eu segurei a mão dela", ele disse ao tribunal. "Nós nos abraçamos. Choramos. E dissemos um ao outro que nesta vida precisávamos fazer coisas boas, porque talvez tenham sido as coisas ruins que fizemos em nossas vidas anteriores que nos mantiveram separados, de modo que se fizermos coisas boas nesta vida, talvez em uma futura possamos ficar juntos."

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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