Gestação

Apelo pelo "Dia da Fertilidade" desperta revolta na Itália

Gaia Pianigiani

Em Roma

  • Nadia Shira Cohen/The New York Times

    A jornalista Vittoria Iacovella, que tem duas filhas, em sua casa em Roma (Itália)

    A jornalista Vittoria Iacovella, que tem duas filhas, em sua casa em Roma (Itália)

Um anúncio trazia uma mulher segurando uma ampulheta, junto das palavras: "A beleza não tem limite de idade. A fertilidade, sim". Um outro retratava um par de sapatos de bebê amarrados em um laço com as cores da bandeira italiana. Outro ainda mostrava um cigarro queimado pela metade: "Não deixe seu esperma virar fumaça".

Esses anúncios eram parte de um esforço do governo para promover o "Dia da Fertilidade" em 22 de setembro, uma campanha com a intenção de incentivar os italianos a terem mais bebês. Em vez disso, os anúncios provocaram furor, acusados de serem ofensivos, e foram retirados em poucos dias.

No entanto, o que eles conseguiram fazer foi dar início a um debate mais profundo e duradouro sobre por que a Itália tem um dos índices de natalidade mais baixos do mundo, e o que pode ser feito a respeito.

O problema não é a falta de vontade de ter filhos, dizem os críticos da campanha, mas sim a falta de um apoio significativo fornecido pelo governo e por muitos empregadores em um país onde a família continua sendo a fonte principal de cuidados infantis.

"Eu poderia ser um modelo para a campanha deles, e ainda me sinto muito ofendida", diz Vittoria Iacovella, 37, jornalista e mãe de duas meninas, de 10 e 8 anos de idade. "O governo nos incentiva a ter bebês, sendo que o principal sistema de assistência na Itália continuam sendo os avós."

Muitas mulheres que trabalham fora, sem parentes para cuidar de uma criança, enfrentam um dilema, uma vez que custa caro um serviço particular de cuidado de crianças. Algumas também se preocupam com a instabilidade no emprego devido aos dias de trabalho que perdem por causa de questões ligadas aos filhos. Muitas empresas não oferecem horários flexíveis para mães que trabalham.

Não surpreendentemente, a longa desaceleração da Itália nos nascimentos coincidiu com sua mais recente crise econômica. Mas as famílias italianas vêm encolhendo há décadas.

Em 2015, 488 mil bebês nasceram na Itália, o número mais baixo desde que o país se unificou em 1861. A Itália tem um dos índices de natalidade mais baixos da Europa, com 1,37 filhos por mulher, em comparação com uma média europeia de 1,6, de acordo com números do Eurostat.

Já na França, a economia também tem estado estagnada, mas um sistema voltado para a família oferece uma rede de proteção social muito mais generosa, que inclui creche e subsídios para as famílias terem filhos. Ali, as mulheres têm dois filhos em média.

Reprodução
"A beleza não tem idade. A fertilidade sim", diz cartaz de campanha italiana

"Na teoria, as mulheres italianas têm direitos iguais", diz Tiziana Bartolini, editora da "Noi Donne", uma das revistas feministas mais proeminentes da Itália. "Mas a realidade nos conta uma história diferente. As pessoas esperam que as mulheres cuidem dos filhos. Se elas moram em regiões onde os serviços são bons, ou em cidades pequenas, elas conseguem manter seus empregos. Se elas moram em cidades grandes e caóticas e não têm família por perto, elas pensam muito antes de engravidar."

"Ou elas param de trabalhar", acrescenta.

O Ministério da Saúde começou a campanha pela fertilidade no dia 31 de agosto com uma série de anúncios online e uma hashtag no Twitter. O objetivo era divulgar uma série de sessões públicas no Dia da Fertilidade e incentivar os italianos a terem mais filhos.

Ah, claro!, pensou Maria Scioli, 41, uma professora que depende de sua família para cuidar de seu menino de 15 meses, quando ela viu o debate em seu Facebook.

"Adoraria ter um segundo filho", diz Scioli, "mas minha situação profissional me preocupa. E eu até sinto que tenho sorte. Penso em todas essas mulheres de minha idade ou mais novas que não puderam ter bebês e tiveram que ver esse anúncio ofensivo."

Até o primeiro-ministro Matteo Renzi, cuja própria ministra da Saúde criou a campanha, se distanciou dos anúncios em uma entrevista para uma rádio, observando ironicamente que nenhum de seus amigos "tinha tido seus filhos depois de verem uma propaganda."

Renzi disse que para aumentar o índice de natalidade, questões estruturais como creches e serviços precisavam ser abordadas.

No mandato de Renzi, o governo da Itália tentou ajudar as famílias com o chamado bônus-bebê no valor de 80 a 160 euros (R$ 297 a R$ 594) para lares de renda média ou baixa, e aprovou leis trabalhistas que dão mais flexibilidade na licença maternidade e paternidade.

Mas a Itália aloca somente 1% de seu PIB a benefícios de proteção social, metade da média europeia. Uma de cada três crianças no país correm o risco de relativa pobreza.

"A Itália tem uma terrível combinação: baixo índice de natalidade, baixo emprego entre mulheres e alto risco de pobreza infantil", diz Alessandro Rosina, professor de demografia na Università Cattolica del Sacro Cuore em Milão. "Se continuar assim, a Itália só terá custos cada vez maiores para a população idosa, e uma dívida pública maior."

"Nós defendemos nosso presente, mas não podemos projetar o futuro", ele diz.

Iacovella, a jornalista, disse que a escolinha de seu filho fechava duas horas antes de ela sair do trabalho, e observou que mães que trabalham fora "ficam frustradas com a pouca ajuda que a Itália dá às mulheres."

Ela ficou tão ofendida com os anúncios do governo que desabafou sua raiva no Facebook assim que eles começaram a aparecer, e seus comentários viralizaram na internet.

A ministra da Saúde da Itália, Beatrice Lorenzin, respondeu através do Facebook que a campanha do Dia da Fertilidade não era uma "chamada à reprodução", mas sim um dia para discutir "os problemas de fertilidade que 15% dos italianos enfrentam". Ela logo cancelou a campanha.

"Fico triste que o lançamento da campanha tenha perturbado tantas pessoas", disse Lorenzin. "Eu retirei a campanha para mudá-la."

Tradutor: UOL

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