Como Trump pode vencer as eleições americanas

Ross Douthat

  • Brendan McDermid/ Reuters

Como um equipe de beisebol passando por uma momento ruim e tentando assegurar um título, Hillary Clinton tem uma vantagem na corrida presidencial que parece real, porém não tranquilizadora, tanto para seus partidários quanto para aqueles que temem Trump no mundo todo. "Ela precisa aguentar" parece ser a emoção predominante entre aqueles que a apoiam, assim como para a equipe dela, que lidaram com o quase desmaio dela no ponto zero como uma comissão técnica tentando desesperadamente minimizar a seriedade da lesão do astro do time. "É apenas uma pancada... nós o tiramos de campo por precaução... ele estará escalado para o próximo jogo... Ok, ele está no departamento médico."

Diferente dos Red Sox em 1978 ou dos Dodgers em 1951, ainda dá para apostar em Hillary.

Mas no mês passado, em meio ao caso Khan, parecia que Trump simplesmente despencaria de forma permanente em território McGovern-Goldwater, deixando a eleição de fato como mera formalidade. Em vez disso, ele permaneceu vivo, reduzindo a diferença nas pesquisas. Suas chances ainda não são boas, na maioria dos cenários plausíveis ele perde, mas ainda há um caminho e aqui está o que ele precisa para ser bem-sucedido.

Primeiro, Trump deseja que esta continue sendo uma disputa entre quatro candidatos. Nas pesquisas nacionais, o teto dele está próximo do ponto mais baixo de Hillary. O pico dele é próximo de 40 e poucos pontos percentuais, o pico dela é próximo de 50%. Isso sugere que há mais eleitores Trump Jamais do que Hillary Jamais, e que uma parte dos eleitores (especialmente da geração do milênio) que o rejeita ainda está procurando por opção que não seja Hillary. Nesse caso, não apenas Jill Stein, mas também provavelmente Gary Johnson, provavelmente tirarão votos de Hillary, mas não de Trump.

Se caírem na insignificância estatística, como costumam os candidatos independentes, então Trump precisará conquistar um grande percentual de indecisos que simplesmente não querem votar nele. Mas este é um ano estranho, de modo que pode ser que não caiam. Se Johnson conseguir igualar John Anderson em 1980 e Stein puder igualar Ralph Nader na fatídica disputa de 2000 (e seus números nas pesquisas se equiparam no momento), então é possível imaginar um resultado final como 44% dos votos para Trump, 43,5% para Hillary, 7% para Johnson e 3% para Stein, um cenário de pesadelo para os democratas, mas um sonho ainda possível para a campanha de Trump.

Segundo, Trump precisa mobilizar muitas pessoas (brancos de classe operária, em particular) que raramente ou quase nunca votam. Nas primárias, Trump não costumou surpreender em seus resultados e há pouca evidência de eleitores tímidos de Trump, dizendo apoiar Rubio ou Cruz e depois votando em Trump em segredo.

Mas os especialistas em pesquisas nunca sabem ao certo sobre a composição do eleitorado e a eleição de novembro costuma ter menos obstáculos para o eleitor casual do que na campanha das primárias. (Não há votação restrita a membros do partido, registro obrigatório do eleitor no partido, todo mundo sabe quando é o dia da eleição, etc.)

Celebridades que se candidataram do passado, como Jesse Ventura e Arnold Schwarzenegger, provavelmente se beneficiaram com os votos de eleitores insatisfeitos, geralmente apolíticos, e não há motivo para presumir que não possa acontecer de novo até certo grau com Trump.


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Vale notar que a melhor pesquisa a favor de Trump neste ciclo, a pesquisa diária "USC Dornsife/Los Angeles Times", inclui uma amostra maior de pessoas que não votaram em 2012, mas planejam votar em 2016, e Trump tem muitos votos entre elas. Ele não tem liderado a pesquisa como um todo, mas com frequência a lidera, e quando o faz, suas vantagens se enquadram mais ou menos no território do cenário de quatro candidatos esboçado acima: Trump com 44%, Hillary com 43%; Trump com 45%, Hillary com 42%...

O que leva à terceira chave para uma vitória de Trump: ele precisa que o apoio potencial a Hillary seja reduzido, o que significa que precisa que eventos externos lancem dúvida constante sobre sua liderança, assim como sobre todo o establishment político que ela representa. Neste ano, chamei o evento ideal de Trump um "cisne cinzento", em vez de um cisne negro (um acontecimento improvável), como um gotejar constante de coisas que façam tanto Hillary quanto a elite maior parecerem sem noção, indecisos ou corruptos, mas não o tipo de crise imensa que mudaria o formato básico da campanha ou poderia torná-lo um risco inaceitável.

As semanas que antecederam a convenção republicana foram recheadas de cisnes cinzentos (ataques terroristas na Europa, mortes de policiais em casa, a repreensão à candidata democrata pelo diretor do FBI, James Comey) e, sem causar surpresa, foram as semanas nas quais Trump às vezes liderou as pesquisas (de novo, por 44% a 43% ou 43% a 42%).

De lá para cá tem ocorrido menos eventos como esses, mas a pneumonia escondida, depois reconhecida, de Hillary é um exemplo perfeito do que Trump precisa. Não é um cisne negro, nem uma doença devastadora que forçaria os democratas a recorrerem ao mais elegível Joe Biden. Em vez disso, o caso apenas alimenta duas das narrativas de Trump: poder de macho alfa contra uma fraqueza física real (afinal, pessoas com pneumonia têm ainda menos energia do que Jeb Bush) e uma pessoa de fora ousada que diz a verdade contra um acobertamento por reflexo por parte da elite.

Veremos agora como as pesquisas nacionais parecerão quando o incidente da pneumonia estiver refletido. Mas não ficaria chocado em ver algumas empatadas em, digamos, 43% a 43%.

Agora, permita-me torcer o parafuso ainda mais. O Colégio Eleitoral é um sistema incomum e Trump é um candidato incomum. Ele provavelmente terá um desempenho abaixo do normal entre os republicanos normais em muitos Estados republicanos, onde a classe operária branca já é bem republicana, ao perder os profissionais suburbanos brancos que votaram em John McCain e Mitt Romney.

Mas pode ter um desempenho acima do normal nos Estados do Cinturão da Ferrugem (região manufatureira e de indústria pesada), onde a classe operária branca ainda é um voto indefinido residualmente liberal e onde há muitos independentes insatisfeitos que não votaram em 2012. (Esse provavelmente é o motivo para uma disputa apertada em redutos republicanos como Geórgia e Arizona, enquanto Trump se mostra competitivo em Estados indefinidos como Ohio.)

Essa combinação incomum (um desempenho baixo do normal, mas provável vitória em Estados republicanos, possivelmente uma performance acima do esperado nos Estados indefinidos) sugere um verdadeiro desfecho com cisne negro: não Trump 44%, Hillary 43%, mas Hillary 45%, Trump 43%... só que Trump, com sua força no Cinturão da Ferrugem, perde muitos dos votos certos republicanos que não precisa e atrai votos suficientes de pessoas que normalmente não votam em alguns Estados indefinidos chave, vencendo no Colégio Eleitoral por 270 a 268.

Não, não é improvável. Não, não surte. Mas esta disputa terminar com uma imensa crise no Colégio Eleitoral é o tipo de resultado que tudo o que aconteceu em 2016 quase –quase– pode levar alguém a esperar.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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