Paz, amor e sorvete: como é a peregrinação a Meca

Diaa Hadid*

Em Meca (Arábia Saudita)

É obrigação de todo muçulmano fisicamente capaz e que tem condições financeiras de fazê-lo viajar para Meca, Arábia Saudita, o local mais sagrado do islã, ao menos uma vez em sua vida. A peregrinação anual de seis dias, que teve início no sábado, é conhecida como hajj e é um dos cinco pilares do Islã, como prescrito no Alcorão 

Neste ano, 1437 segundo o calendário islâmico, estou fazendo meu primeiro hajj, que continuará até quarta-feira. Eu me juntei a cerca de 2 milhões de outros muçulmanos de todo o mundo para oração, ritos islâmicos e rituais que lembram a última peregrinação do Profeta Maomé antes de sua morte, em 632 d.C. 

Milhões de muçulmanos 

Somos todas irmãs 

Diaa Hadid/The New York Times
Diaa Hadid é beijada pela peregrina Samira durante o Hajj, em Meca

Quando cheguei à Arábia Saudita na semana passada para o hajj, o fiz sem os antibióticos ou o gel desinfetante que minha família insistiu para que eu trouxesse. A companhia aérea perdeu minha bagagem e, com elas, minhas defesas contra o que chamamos de "gripe do hajj". Também fiquei sem um lenço de cabeça apropriado ou mesmo um tapete de oração. 

Assim que o chamado à oração soou no meu primeiro dia em Meca, eu permanecei do lado de fora da Grande Mesquita em uma fila de mulheres e percebi que não teria um local limpo onde colocar minha cabeça durante as prostrações plenas que fazemos, em um ato simbólico de submissão a Deus. Pensei comigo, não importa, este é o hajj, ocorre uma vez na vida. Então a mulher ao meu lado disse: "Abri espaço para você". Tivemos que orar muito próximas uma da outra, com nossas cabeças se tocando no tapete minúsculo dela. 

Depois, eu a agradeci. O nome dela era Samira, uma professora na Argélia. Ela me beijou na bochecha e disse que é assim que um muçulmano deve se comportar, e que eu era irmã dela. 

Samira foi uma dentre os dezenas de muçulmanos que encontrei que compartilhavam uma gentileza simples ou se abriram sobre as ambições espirituais de seu hajj. Outros peregrinos veteranos compartilharam dicas para prática dos ritos que realizaríamos, onde achar pechinchas durante o hajj e como enfrentar o calor. 

Reze pela paz

Deus, se estiver ouvindo... 

Muçulmanos fazem peregrinação no Hajj, um dos 5 pilares do islamismo

A parte indispensável do hajj ocorreu no domingo, quando os peregrinos sobem o Monte Arafat para pedir perdão a Deus e fazer pedidos específicos por meio da oração. Os muçulmanos acreditam que uma súplica naquele local naquele momento será atendida. 

Minha mãe me instruiu a rezar por um marido ao fazer meu primeiro hajj. Além disso, pedir pela saúde da melhor amiga dela e pela soltura, da prisão no Egito, do filho da empregada da minha tia. 

Além da lista da minha mãe, rezei pela Síria; para que os refugiados encontrem lares e aceitação; para que as crianças possam ir dormir de estômago cheio e com mães que possam amá-las e cuidar delas. Rezei pela mãe de minha amiga que tem câncer e tentei me lembrar de todos os outros amigos, em sua maioria laicos, que me pediram para acrescentar alguma palavra a favor deles. 

A paz parecia ser a oração mais popular entre os peregrinos que conheci. Mervat, uma cardiologista de 30 anos do Iêmen, disse que pediria para ir para o paraíso com seus pais e pela cura de seu país assolado pela guerra. Hassan Abbas, um médico da Nigéria, disse que também rezaria para que seu país em guerra pudesse encontrar a paz. Sayida Bakri, 68 anos, pediu para que o terrorismo seja derrotado e que "o Egito possa ficar de pé" após anos de instabilidade. 

Atirando pedras 

A técnica apropriada é essencial 

REUTERS/Ahmed Jadallah
Maré humana se forma na Grande Mesquita em Meca, um dia antes do início do hajj

No terceiro dia do hajj, os peregrinos atiram pedras contra três pilares de pedra perto da Ponte de Jamarat, em uma reencenação de Abraão (Ibrahim em árabe) apedrejando o diabo enquanto tentava cumprir a ordem de Deus. Jamarat é um notório ponto de estrangulamento para as multidões do hajj. Foi enquanto peregrinos seguiam para o ritual de Jamarat no ano passado que centenas, talvez milhares, morreram pisoteados. 

Seguranças neste ano tentavam limitar o número de peregrinos que podiam ir a Jamarat de cada vez. Para evitar concentrações perigosas de pessoas, eles estabeleceram caminhos de mão única para os peregrinos da cidade de tendas de Mina, de onde caminhavam até Jamarat. E havia instruções em inglês e árabe para manter as pessoas em movimento. 

Eu juntei 49 pequenas pedras em uma garrafa de água vazia para o ritual e alguns peregrinos experientes me mostraram como atirar minhas pedras com cuidado e propósito. Dica: ninguém gosta de canhotos. Após atirar minha primeira série de pedras com a mão esquerda, eu fui educadamente corrigida a jogá-las com a direita da próxima vez. Eu brinquei que qualquer diabo poderia se desviar dos meus arremessos com a mão esquerda. 

Refrescando-se 

Sorvete pós-oração 

Após as orações na Grande Mesquita, os peregrinos seguiram para a sorveteria Aesra próxima, onde há filas separadas para homens e mulheres. "Após as orações, há um regalo", disse rindo Arar Hafsi, uma peregrina argelina de 51 anos. 

Conheci uma mulher jovem trajando niqab, com seu rosto e corpo cobertos em um tecido preto pesado, segurando um copo plástico com sorvete de manga e morango. Ela disse rindo que talvez tomasse um após cada oração; seriam cinco vezes ao dia. 

"É bom?" perguntei. "Bem, é só o que há", ela disse. 

Sei que você está se perguntando, então aí vai: uma mulher usando niqab toma sorvete levantando o véu apenas o suficiente para poder botar uma colherada na boca. 

Qasim, 16 anos, um funcionário que entrevistei na sorveteria, deu copos gratuitos para mim e para Abdul-Rahman, um inspetor saudita que me segue por toda parte, segundo as regras do governo para jornalistas cobrindo o hajj. O sorvete era gostoso. Além disso, é só o que há. 

Mantendo a conta 

Fitbit para a alma 

Sentada ao lado de um grupo de mulheres sauditas que lembravam grandes corvos pretos em seus mantos ondulantes, véus e luvas, eu percebi que elas também usavam pequenos anéis que pareciam pedômetros em miniatura. Quando perguntei a uma mulher quantos quilômetros ela tinha andado naquele dia, ela riu. 

Os anéis eram na verdade contadores eletrônicos de orações. Os muçulmanos costumam manter o controle de orações individuais como "Peço perdão a Deus", acreditando que ganham crédito por boas ações, ou hasana, por cada súplica. As orações feitas na Grande Mesquita supostamente valem 100 mil vezes as feitas em outros lugares. 

Uma mulher, Hanan, me mostrou seu contador: 266 e era apenas meio-dia. Então ela colocou o aparelho nas minhas mãos e me disse para ficar com ele, "assim você poderá contar suas orações". Eu educadamente recusei. 

Recordações e souvenires 

Algo para lembrar do hajj

Não falo de forma desrespeitosa quando digo que Meca é, bem, uma meca para compras. As pessoas vêm aqui para orar, mas mesmo por cinco vezes por dia sobra tempo para compras nas lojas douradas que margeiam a Rua Ajyad. 

Os itens mais vendidos neste ano: anéis leves e braceletes brancos, cor-de-rosa e amarelos tão bem fiados que parecem como algodão doce no pulso. Os comerciantes, como sempre, reclamam que o ano anterior foi melhor; a instabilidade por todo o Oriente Médio resultou em menos compradores para os itens mais caros. 

Para aqueles com carteiras mais leves, as crianças mascateiam tapetes de oração de veludo decorados com imagens da Caaba por US$ 2,60 (cerca de R$ 8,70). As pessoas vendem sandálias para os peregrinos que perderam seus calçados em algum ponto em torno da Grande Mesquita, gritando preços em urdu: "Panj! Panj! Panj!" Cinco! Cinco! Cinco! A farmácia na Rua Ajyad está constantemente lotada, vendendo grandes quantidade de antibióticos (a gripe do hajj de novo) e remédios para diarreia.

 Cortes de cabelo do hajj

 Mantendo as mesquitas limpas

 Ao final do hajj, os homens raspam sua cabeça e as mulheres cortam um cacho de cabelo. No movimentado complexo de barbearia próximo da Grande Mesquita, eles realizam o corte com lâmina (descartável) ou tesoura por US$ 4 (cerca de R$ 13,30); um corte com máquina custa US$ 2,70 (cerca de R$ 9). Placas por toda a mesquita alertam os peregrinos a não cortarem o cabelo dentro do complexo, já que algumas pessoas gostam do "faça você mesmo" no local mais sagrado do Islã. 

Pergunte à peregrina

Os leitores querem saber

AP Photo/Nariman El-Mofty
Peregrinos se preparam para orar em frente à Caaba, na Grande Mesquita

"Homens e mulheres são permitidos a circungirar a Caaba juntos, ou são separados por gênero?" perguntou Mary Ann Hall, de North Charleston, Carolina do Sul, em uma pergunta postada no site do "Times". 

A Caaba, que também é conhecida como Casa de Alá, fica na Grande Mesquita de Meca. Ela abriga uma pedra preta, que acredita-se ter descido do paraíso mais branca que o leite, mas posteriormente escureceu devido aos pecados dos seres humanos. No hajj, os peregrinos vestidos de branco circungiram a Caaba sete vezes, tentando beijar a pedra preta. Essa é uma das imagens mais famosas do hajj. 

A Caaba é em grande parte vazia, exceto por dois pilares, um altar, candeeiros e placas na parede. Adoro a ideia de que o local na direção do qual os muçulmanos devem rezar ser vazio. Os muçulmanos estão internalizando em cada oração que o deus único que adoram não pode ser representado em uma imagem e não pode ser imaginado, ao ponto de a casa dedicada a Deus ser vazia. 

Homens e mulheres caminham ao redor da Caaba ao mesmo tempo. Desse modo, é um lugar sagrado singular no Islã, onde os sexos se misturam e realizam seus ritos juntos.

 *(Diaa Hadid, correspondente do "Times" em Jerusalém, narra sua peregrinação a Meca) 

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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