Confinada em Homs, arquiteta imagina um novo futuro para a Síria pós-guerra

Stephen Heyman

  • Reprodução/Facebook

A arquitetura urbana da Síria contribuiu para alimentar a guerra civil que devastou o país e tirou as vidas de centenas de milhares de pessoas? Essa é a teoria provocadora proposta por Marwa al-Sabouni, uma jovem arquiteta de Homs que passou dois anos confinada em seu apartamento, com seu marido e dois filhos, enquanto o centro histórico da cidade era reduzido a escombros. 

Em uma palestra TED (sigla para Tecnologia, Entretenimento e Design, grupo que promove conferências para disseminação de ideias), já assistida quase 600 mil vezes, e em um recente livro, "The Battle for Home" (A batalha pelo lar, em tradução livre, ainda não lançado no Brasil), Al-Sabouni, 34 anos, realiza uma espécie de autópsia arquitetural de sua cidade natal, catalogando fracassos de projeto e infraestrutura que ela disse que abriram o caminho para sua destruição. 

"Este local promovia raiva, promovia a vingança", ela disse em uma entrevista pelo Skype de Homs, enquanto a eletricidade falhava e era possível ouvir um caça sobrevoando a cidade. "É claro, não estou dizendo que a arquitetura é o único motivo para a guerra, mas de uma forma muito real ela acelerou e perpetuou o conflito." 

As ideias de Al-Sabouni e a forma direta e não filtrada com que as expressa atraíram apoiadores influentes. Autoridades da ONU a convidaram para falar em conferências que tentam imaginar como seria uma Síria pós-guerra. O filósofo conservador inglês Roger Scruton, que foi mentor de Al-Sabouni por vários anos via e-mail, a considera uma "alma gêmea" intelectual e uma das pessoas mais corajosas que já conheceu. 

Durante os combates, era impossível para Al-Sabouni viajar (Homs se encontra no momento em grande parte sob controle do governo, após uma retirada negociada das forças rebeldes no ano passado), de modo que ela conversava com seu editor na Thames & Hudson, Lucas Dietrich, pelo Skype. 

Dietrich disse que a "inteligência feroz" de Al-Sabouni coexiste com uma personalidade extremamente humilde e serena. 

"Aqui estava ela, falando de uma zona de guerra sobre esses assuntos realmente difíceis, mas exibindo um sorriso em seu rosto", ele disse. "Havia quase uma beatitude em seu semblante. Isso realmente conquistou nossas imaginações." 

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O livro de Al-Sabouni pergunta como as cidades cosmopolitas da Síria, mais ou menos tolerantes com as diferenças sectárias por gerações, podem ter ruído no que ela chama de "pesadelo de carnificina animal". O caso de estudo dela, Homs, é a terceira maior cidade síria e um microcosmo do país, com uma maioria muçulmana sunita e minorias cristã e alauita. 

Na cidade velha, esses grupos conviviam em relativa harmonia, um estado que a arquitetura local refletia e reforçava. Locais sagrados, residenciais e comerciais ocupavam espaços compartilhados. Mesquitas e igrejas ficavam lado a lado. O mercado era uma enxame de atividade econômica que forçava grupos rivais a negociarem uns com os outros. Entremeadas na paisagem urbana estavam casas térreas de basalto local conectadas por ruelas sinuosas que forneciam proteção do sol. 

Havia uma escala humana nessas cidades, uma generosidade nelas, escreve Al-Sabouni, com fontes de água, bancos e "a sombra fresca de árvores que proporcionavam alegria ao longo do ano com suas fragrâncias e frutos". 

Mas com o passar do tempo, a arquitetura clássica deu lugar a uma sucessão de ideias importadas para a Síria sob a noção de progresso. Elas incluíam planos de rua geométricos da era colonial que destruíam a arquitetura tradicional, assim como enormes blocos de apartamentos que isolavam seus ocupantes do centro da cidade. Esses erros, diz Al-Sabouni, se somaram à corrupção, má administração e aos projetos de desenvolvimento irrefletidos do Estado sírio. 

À medida que Homs e outras cidades cresciam, guetos começaram a brotar às margens urbanas, frequentemente divididos segundo religião e classe. Em 2010, disse Al-Sabouni, quase metade da população síria vivia em "moradias informais", favelas que careciam de infraestrutura e comodidades. Algumas das primeiras linhas de frente na guerra foram traçadas ao longo dessas áreas segregadas. 

Grande parte da alma arquitetônica da cidade foi erradicada nos combates, que destruíram o velho mercado e danificaram seriamente a mesquita Khalid ibn al-Walid, um importante local de peregrinação. 

A família de Al-Sabouni escapou por pouco da violência. O estúdio de arquitetura que ela compartilhava com seu marido foi destruído; tanques e atiradores ameaçavam seu bairro, transformando em um risco precisar sair para comprar comida. 

Ela se recorda do primeiro ataque com morteiro, que soou como "uma bola de boliche gigante caindo na porta ao lado". A explosão estilhaçou sua janela. "Olhei para fora e vi as crianças que jogavam futebol na rua e as pessoas que perderam suas lojas e tentavam ganhar a vida vendendo miudezas na rua, vi todas elas mortas." 

Em seu livro, Al-Sabouni nota o ultraje ocidental com a destruição de patrimônio arquitetônico da Síria, especialmente patrimônios da humanidade da Unesco, como as ruínas romanas em Palmira e o castelo Crac de Chevaliers dos cruzados. Mas ela também admite sentir certa ambivalência com a atenção dada aos danos.        

Por que, ela pergunta, um "arranhão em uma coluna" em Palmira é mais escandaloso do que a destruição por atacado da arquitetura urbana da Síria? Ela acrescenta que muitos desses locais históricos eram tão mal cuidados e entendidos na paz que não é de se estranhar que tenham sido pilhados na guerra. 

"Você sente de certa forma como se toda uma cadeia trágica de eventos nos conduziu a este ponto", ela disse. 

O contrarianismo de Al-Sabouni está entre as qualidades que ela tem em comum com Scruton, o filósofo inglês que se tornou seu mentor improvável. Eles começaram a se corresponder vários anos atrás, quando Al-Sabouni lhe enviou uma carta de admiração após ler seu livro de 1979, "Estética da Arquitectura". Scruton posteriormente escreveu o prefácio de "The Battle for Home". 

Em uma entrevista, Scruton disse que eles compartilham posições semelhantes a respeito dos danos que a arquitetura ao estilo ocidental, incluindo o legado do plano de Le Corbusier para Argel, causaram às cidades no mundo árabe. 

"Sempre solidarizei com a posição de que a arquitetura modernista é uma catástrofe para o Oriente Médio", disse Scruton. "Assim que você coloca essas pessoas em blocos de apartamentos ao estilo de Gropius ou Le Corbusier, isoladas umas das outras, com aquele clima implacável, você cria uma situação potencialmente explosiva." 

Al-Sabouni ilustra seu livro não apenas com belos esboços articulados de Homs antes e depois da guerra, mas também com planos para como a cidade poderia ser reconstruída. 

Uma ideia se concentra no bairro de Baba Amr, um dos distritos que serviu como centelha dos combates e posteriormente foi destruído em um cerco brutal, comparado à batalha de Stalingrado. 

Um plano oficial do governo para reconstrução de Baba Amr pede por prédios de apartamento desconectados, mas Al-Sabouni sugeriu agrupamentos de unidades em forma de árvore, que poderiam ser expandidas para cima à medida que a cidade cresce, criando pontes naturais entre as casas conectadas, fornecendo sombra e lembrando as "sibat" (ruelas cobertas) tradicionais da Velha Homs. O "tronco" da árvore é repleto de espaços multiuso para lojas, enquanto as áreas abertas e com sombra são destinadas a jardins, playgrounds e outros confortos. 

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Hoje, com Homs em grande parte em paz, Al-Sabouni está tentando recuperar um pouco de sua vida normal. Ela e seu marido, Ghassan Jansiz, converteram uma velha garagem em uma filial da livraria Nour E Sham de Damasco. Ela leciona em uma universidade particular em Hama, enquanto seu marido trabalha com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento na reconstrução do velho mercado de Homs. 

A vida continua difícil. Partes da cidade permanecem inquietas e a guerra prossegue em Aleppo e em outras partes do país. 

"Se você não se estressa com os combates, você se estressa com os serviços, com a eletricidade, com a necessidade de encontrar comida, ou a qual escola levar seus filhos", ela disse. "É sempre uma luta." 

Para Al-Sabouni, uma grande parte dessa luta é explicar para seus vizinhos exaustos por que a arquitetura deveriam se importar com a arquitetura. 

"O verdadeiro desafio está em como não ofender pessoas que já estão prestes a explodir", ela disse. "Como ousar sonhar com um ambiente mais bem construído, quando os moradores querem apenas tapar os buracos em suas paredes com uma manta de náilon e conseguir dormir à noite." 

A maioria dos sírios lhe diz desejar apenas que as coisas voltem a ser como eram. Ela entende o desejo, mas o rejeita. 

"Por que não desejar algo melhor, por que aceitar um estado de instabilidade que contribuiu para a situação atual?" ela pergunta. "Isso me dá a impressão de que não aprendemos nenhuma lição com tudo o que aconteceu."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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