Giuliani coloca seu legado em risco para ajudar Trump

Jonathan Mahler e Maggie Haberman

  • Matt York/AP

    Rudy Giuliani

    Rudy Giuliani

Semanas após os ataques de 11 de setembro de 2001, com corpos ainda sendo retirados dos escombros fumegantes, o prefeito de Nova York, Rudy Giuliani, fez um discurso emocionante perante uma silenciosa Organização das Nações Unidas.

Ele falou com força sobre a necessidade dos países do mundo se unirem na batalha global contra o terrorismo. Mas ele também falou de forma poderosa sobre inclusão e unidade, lembrando aos representantes, muitos deles árabes ou muçulmanos, que Nova York era uma cidade de imigrantes, dentro de uma nação de imigrantes.

"Como as vítimas do ataque ao World Trade Center, somos de todas as raças, somos de todas as religiões, somos de todas as etnias e nossa diversidade tem sido nossa maior fonte de força", ele disse. "É aquilo que nos renova e nos revive em toda geração, nossa abertura a novas pessoas de todo o mundo."

Na época, a promessa política de Giuliani parecia ilimitada. Mas após uma calamitosa candidatura presidencial em 2008, seu perfil, antes enorme, encolheu.

Giuliani agora está de volta ao cenário político nacional, servindo como um dos conselheiros mais proeminentes de Donald Trump e um de seus principais apoiadores. Antes um vigoroso defensor de uma reforma bipartidária da imigração, ele agora está defendendo um candidato que prometeu construir um "muro fisicamente impenetrável" na fronteira sul do país e restringir severamente a imigração de países muçulmanos.

Ele assumiu seu novo papel com aparente prazer, abraçando algumas das táticas controversas da campanha de Trump, incluindo sua queda por afirmações infundadas: na semana passada, Giuliani disse que Trump abandonou sua insistência de que o presidente Barack Obama nasceu fora dos Estados Unidos, apesar de Trump nunca tê-lo feito publicamente.

Giuliani também questionou a saúde física e mental de Hillary Clinton, apoiando suas acusações em memes de internet já desacreditados. "Vá online, pesquisa 'doença de Hillary Clinton' e veja os vídeos pessoalmente", ele disse no mês passado.

Tem sido um surpreendente novo ato, talvez o último, para um político de 72 anos antes apelidado de o Prefeito da América, e digno suficiente de nota para um punhado de editoriais chamá-lo de "desequilibrado".

Mas a campanha de Trump tem dado a Giuliani, um ex-promotor federal, a chance de moldar um presidente potencial, e combater uma velha rival que ele detesta profundamente, uma que ele insiste amargamente que recebeu tratamento especial do FBI (Birô Federal de Investigação, a polícia federal americana).

Uma vitória de Trump poderia abrir a porta para Giuliani voltar a um cargo público, talvez como chefe do Departamento de Segurança Interna ou mesmo secretário de Estado.

Mas seu apoio ardoroso a Trump poderia, por sua vez, lhe custar seu legado, ao colocar Giuliani em atrito com outros republicanos de centro-direita que descreveram o candidato como uma ameaça perigosa à nação e se recusam a apoiá-lo.

Isso é fonte de profunda preocupação para um grande grupo de ex-assessores de Giuliani, pessoas que lembram dele como um líder férreo e compassivo da Nova York pós-11 de Setembro, e como o prefeito que presidiu uma redução histórica na criminalidade na década anterior, um período em que ele também condenou os elementos mais extremistas do Partido Republicano, defendeu um controle mais rígido de armas e sancionou um projeto de lei histórico de parcerias domésticas.

"Isso torna tudo isso doloroso demais de se ver", disse Rick Wilson, um conselheiro da campanha de Giuliani para reeleição em 1997 e que agora está aconselhando um candidato presidencial independente, Evan McMullin. "Trump é o tipo de pessoa que antes Rudy expulsaria do palco às gargalhadas."

Em uma entrevista por telefone, Giuliani reconheceu que um grande segmento de pessoas que trabalharam com ele ao longo das últimas três décadas não quis trabalhar para a candidatura de Trump. Entre outras coisas, seus ex-assessores expressaram preocupação com o questionamento por Trump da imparcialidade de um juiz por ser descendente de mexicanos e por menosprezar os pais muçulmanos de um oficial do Exército morto em combate.

"Eles não o conhecem tão bem quanto eu", disse Giuliani, acrescentando: "Ele não tem nada de racista".

O verdadeiro Trump, ele disse, "é um sujeito sem esses preconceitos".

Desde o discurso de Giuliani na convenção republicana em julho, quando criticou vigorosamente os riscos de uma presidência de Hillary Clinton em tons que muitos consideraram excessivos, ele tem sido uma presença frequente ao lado de Trump, tentando manter em curso firme a trôpega campanha do candidato republicano.

Ele acompanhou Trump ao México em 31 de agosto e depois fez a introdução antes do discurso do candidato sobre imigração na mesma noite em Phoenix, até mesmo usando um boné branco "Também Torne O México Grande de Novo" para a ocasião. Giuliani também tem exercido um papel significativo nos bastidores, pedindo a Trump para moderar seus comentários e repensar seu plano de imigração. Ele também assumiu recentemente o controle de uma mesa redonda de campanha para discussão sobre segurança nacional, na qual discursou para a sala com a mesma frequência que Trump, segundo uma pessoa presente.

Ex-assessores de Giuliani também veem outras marcas na campanha de Trump: os discursos sobre políticas de reforma do ensino e sua recente tentativa de atrair os eleitores negros em Detroit, segundo eles, exibiam ecos da campanha de 1997 para reeleição de Giuliani à prefeitura, quando ele argumentou aos nova-iorquinos negros que os democratas os deixaram na mão.

Mas Giuliani ainda tem seus defensores.

"Rudy Giuliani presidiu uma das maiores transformações de uma grande cidade americana de nossa história", disse Anthony V. Carbonetti, um antigo conselheiro. "Fico doente ao ouvir pessoas diminuírem isso simplesmente por discordarem dele politicamente."

Giuliani disse que nunca considerou concorrer à presidência neste ano, apesar de um clima político que poderia lhe ser mais favorável. Ele também rejeitou a especulação de que deseja um cargo no Gabinete, dizendo que sua decisão de apoiar Trump veio de sua preocupação com a segurança do país.

Todavia, assistir Giuliani endossar e torcer pelo divisor Trump tem sido chocante para aqueles que lembram da condenação pelo ex-prefeito da campanha presidencial anti-imigrantes de Pat Buchanan, em 1996, e sua liderança de uma cidade abalada em setembro de 2001, quando ele alertou seriamente que "no final, o número de vítimas será muito maior do que qualquer um de nós poderá suportar".

É por esses momentos que muitos dos ex-assessores de Giuliani esperam que ele seja lembrado, não de seu apoio pleno a Trump.

"Rudy foi chamado para defender o indefensável", disse John Avlon, o editor-chefe do site de notícias "The Daily Beast" e um ex-redator de discursos de Giuliani, recentemente para a "CNN". "Isso não reflete seu melhor lado, mas não deveria defini-lo na totalidade de sua carreira."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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