Antigos túneis de água estão secando em uma das regiões mais áridas da China

Andrew Jacobs

Em Turpan (China)

  • Adam Dean/The New York Times

É uma viagem improvável que começa nos mais altos picos das montanhas de Tian Shan, onde a neve derretida desce por uma das paisagens mais áridas do mundo para alcançar comunidades verdejantes, verdadeiros oásis neste antigo posto avançado na Rota da Seda.

Movida pela gravidade, a água --pura e fria-- faz toda a viagem por baixo da terra, correndo por dezenas de canais subterrâneos, alguns com 25 km de comprimento e 30 m de profundidade, que foram construídos 2.000 anos atrás pelos povos pastores que habitaram esse recanto inóspito da região de Xinjiang, no extremo oeste da China.

Conhecido como karez, o sistema de canais é uma maravilha da engenharia que há muito fascina cientistas e enche de orgulho a etnia uigur desta cidade.

"Nossos ancestrais eram incríveis porque construíram isto sem máquinas", disse Salayidin Nejemdin, 29, cuja família cultiva uvas em Turpan há gerações. "Sem eles, não poderíamos viver neste lugar."

Mas depois de milênios alimentando os agricultores e criadores de cabras da região e negociantes transcontinentais, os canais karez de Turpan estão secando. Apesar de os cientistas dizerem que o aquecimento global encolheu as geleiras que alimentam o elaborado sistema de irrigação, a ameaça mais imediata é a crescente demanda por água dos perfuradores de petróleo e dos agricultores em escala industrial, que estão secando a bacia de Turpan.

Há pouco mais de 200 karez em funcionamento na região, contra quase 1.800 nos anos 1950, segundo números do governo. Todos os anos, cerca de uma dúzia de túneis subterrâneos secam. Outros são contaminados por petróleo e abandonados.

Shalamu Abudu, um especialista em hidrologia no centro de pesquisa da Texas A&M AgriLife, em El Paso, que escreveu extensamente sobre os túneis de Turpan, disse que o desaparecimento ameaça um modo de vida que persistiu contra todas as probabilidades.

Turpan, ele comentou, ocupa um dos lugares mais quentes do mundo: uma depressão ressecada, desprovida de rios, que recebe em média pouco mais de 12,5 mm de chuva por ano.

"O karez é o símbolo de nossa civilização", disse Abudu, um uigur que até recentemente trabalhava para o Instituto de Pesquisas de Recursos Hídricos de Xinjiang, um órgão estatal. "É algo que nos causa muita emoção."

A água ajuda a sustentar os 500 mil moradores da região e garante que as fazendas familiares de Turpan possam cultivar os vinhedos que moldam a identidade da cidade há séculos.

Parreiras enfeitam quase todas as casas aqui, e a paisagem rural é salpicada de imponentes torres de tijolo e barro, onde as uvas são transformadas em passas.

Parado embaixo de um emaranhado de parreiras, Mijiti Saludin, 32, disse que ele e sua mulher foram obrigados a comprar água do governo municipal depois que o karez em frente a sua casa secou, vários anos atrás. "Costumávamos receber água de graça, mas agora temos de pagar e não é muito limpa", afirmou ele.

Saludin levou o visitante até uma abertura na terra cinza, que parece gesso, e em um túnel de altura suficiente para nos agacharmos em seu interior. Ele lembrou que quando era criança toda a comunidade se unia na primavera para limpar o karez, usando baldes para retirar os sedimentos que impediam o fluxo de água. "Toda família enviava um rapaz, mas hoje é difícil fazer que as pessoas trabalhem de graça", disse ele.

O governo chinês reconhece a ameaça aos karez da região, e nos últimos anos tentou proibir a perfuração de novos poços que contribuíram para um rebaixamento constante do lençol freático. Em 2008, o governo regional anunciou um projeto de US$ 182 milhões, financiado em parte por um empréstimo do Banco Mundial, para proteger e reabilitar o sistema.

Segundo estimativas do governo, o aquífero abaixo da bacia de Turpan diminui cerca de 3 bilhões de metros cúbicos por anos, em grande parte devido à perfuração de petróleo e à agricultura.

Apesar dos esforços para manter vivo o sistema dos karez, algumas autoridades parecem resignadas com o seu fim. "Não é preciso fazer estardalhaço sobre a seca dos karez", disse Lu Zhen, ex-diretor do instituto de recursos hídricos em Turpan, ao jornal estatal "Diário do Povo". "É uma certeza histórica que os karez serão substituídos."

As origens dos karez de Turpan não são claras, embora especialistas notem sua semelhança com os qanat subterrâneos encontrados no Irã, Iraque e regiões secas da Ásia central.

Dado o papel de Turpan como escala vital na parte norte da Rota da Seda, Abudu, da Texas A&M, disse que a tecnologia provavelmente foi introduzida por negociantes persas e depois aperfeiçoada pela população uigur.

"Embora a extensão e o método de construção dos karez de Turpan sejam diferentes de outros, os princípios básicos de funcionamento são os mesmos", disse ele.

Esses princípios são ao mesmo tempo simples e incrivelmente complexos.

A maioria dos karez começa aos pés dos montes Tian Shan, aproveitando aquíferos subterrâneos alimentados pelo derretimento das geleiras. Existem barragens e reservatórios subterrâneos, mas um marco do sistema são os poços verticais, escavados a cada 3,5 metros, que oferecem acesso aos canais e permitem a manutenção e a ventilação.

Vistos do ar, os poços parecem formigueiros gigantes no extenso deserto inerte.

Ao construir o sistema totalmente embaixo da terra, seus criadores tentaram proteger a água de dejetos animais e sedimentos e, o principal, da evaporação causada pelo sol, que costuma levar a temperatura no verão a mais de 43 graus Celsius.

Os moradores têm um profundo respeito pelos karez e tentam impor regras que proíbem tomar banho ou lavar roupa diretamente nos canais.

"No inverno é quente e no verão é fresco", disse o agricultor Nejemdin, enquanto descia a escada de acesso a uma corrente subterrânea que passa na beira da propriedade agrícola de sua família, um complexo murado tradicional, com pés de amora frondosos e treliças carregadas de cachos de uva.

O governo da cidade recentemente instalou um cano para trazer água a este bairro de um reservatório distante, mas Nejmedin disse que sua família prefere usar a água do karez. "A água encanada tem gosto de remédio", explicou.

Com tantos canais secando, ele disse que é uma questão de tempo para que seja obrigado a comprar água da cidade. A ideia o faz resmungar.

"Nossos ancestrais eram tão inteligentes, uniram-se para resolver o problema da água", disse ele. "Mas hoje em dia ser inteligente não basta para manter nossas tradições vivas."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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