Istambul vê sua "pequena Paris" entrar em decadência

Tim Arango

Em Istambul (Turquia)

  • Nicole Tung/The New York Times

    Bonde passa pela multidão na avenida Istiklal, famosa região de compras e restaurantes em Istambul

    Bonde passa pela multidão na avenida Istiklal, famosa região de compras e restaurantes em Istambul

A avenida Istiklal é o Champs-Élysées de Istambul, ou sua Times Square, um lugar que não é amado pelas pessoas sofisticadas, mas aonde todo mundo vai, mesmo que seja para chegar a um lugar melhor.

Nos bons tempos --e houve muitos desses nos últimos anos, quando Istambul ganhou espaço no cenário global--, foi uma animada feira de compradores, clientes de restaurantes, manifestantes políticos, músicos de rua e mendigos: um mar de humanidade de cerca de 1,5 quilômetro, com um bizarro bonde se arrastando pelo meio.

Hoje em dia, porém, é um símbolo dos problemas da cidade.

Ao longo de Istiklal, portas metálicas pintadas de grafite e com placas de "Aluga-se" estão baixadas diante de lojas, sorveterias, restaurantes e cafés. Galerias de arte e livrarias, que já foram marcas da exuberância cultural da cidade, desapareceram. Até a Starbucks fechou um de seus cafés.

"A situação está terrível, e esteve ruim há algum tempo", disse Mehmet Emin, 44, que trabalha no café de um hotel perto da Istiklal e é dono de uma loja de bagagens. "Este é o coração econômico da cidade. Há muitos anos abriam-se novas lojas que faziam bons negócios."

Os problemas da Turquia não parecem terminar, da tentativa de golpe fracassada aos frequentes atentados terroristas e efeitos da guerra civil na Síria, que colocou milhões de migrantes nas cidades turcas. Tudo isso era sentido nestes dias em Istiklal.

Enquanto a rua ainda atrai uma multidão, especialmente nas noites de fim de semana, há visivelmente menos turistas e mais mendigos e músicos da Síria. Sente-se também uma forte presença policial, e uma energia nervosa que pode ser a ressaca do atentado suicida em março que matou várias pessoas.

"As pessoas estão muito no limite", disse Mesut Arici, 27, que trabalha em uma loja de calçados perto de onde ocorreu a explosão. "Estou muito preocupado e nervoso, mas o que podemos fazer? A vida tem de continuar."

Nicole Tung/The New York Times
Região da avenida Istiklal abriga zona de prostituição

Os elementos da decadência de Istiklal estavam evidentes muito antes da recente crise. Durante anos, os intelectuais da cidade lamentaram as mudanças que ocorriam não apenas na rua, mas em todo o bairro, chamado Beyoglu. Antes um lugar cosmopolita, com velhos cinemas, livrarias, cafés ao ar livre e bares, ele havia evoluído sob o governo do presidente Recep Tayyip Erdogan para se tornar um lugar urbano de mau gosto, dominado por lojas de rede e shopping centers em falso estilo otomano.

"Todos os marcos urbanos típicos que tornavam Beyoglu especial desapareceram um a um", disse Mucella Yapici, membro da Câmara de Arquitetos de Istambul. Esse grupo foi contra vários projetos de desenvolvimento urbano do governo, incluindo o do Parque Gezi, numa das extremidades de Istiklal, que provocou os protestos políticos em 2013. "E o bairro se transformou em um lugar que perdeu completamente sua alma. Antigas tavernas, livrarias, teatros e especialmente os cinemas fecharam."

O governo, comentou Yapici, retirou a proteção patrimonial de alguns prédios históricos para dar lugar a novos. Também alterou a lei para permitir o despejo de antigos inquilinos, cujos aluguéis estavam abaixo do valor de mercado. Essas ondas carregaram um dos lugares mais famosos da rua, uma antiga loja de roupas íntimas femininas.

O que substituiu os antigos locais foram lojas de redes, restaurantes de fast food, cafés chiques e shopping centers, os quais hoje sentem os efeitos do declínio econômico causado pela redução do turismo.

"Conforme empresas históricas deixaram Beyoglu uma a uma, mega-shopping centers e restaurantes de rede caros as substituíram", escreveu recentemente a jornalista Pinar Tremblay em "Al-Monitor". "Esses negócios de alto nível poderiam ter durado mais se não fosse por uma série de ataques terroristas incansáveis e aventuras de política externa desastrosas que prejudicaram drasticamente o turismo."

Os críticos dizem que, ao seguir uma agenda islamista, o governo também dificultou a concessão de licenças para bares e restaurantes venderem bebidas alcoólicas e --o mais perturbador para muitos membros das elites liberais de Istambul-- ordenaram que os cafés em certas áreas parassem de colocar mesas nas calçadas.

Nicole Tung/The New York Times
Passageiros de bonde observam movimento na avenida Istiklal

"Erdogan matou aquela rua", disse Ergun Cagatay, 80, um fotógrafo que durante décadas captou a cidade com sua câmera, em uma das ruas secundárias de Beyoglu que já foi um popular espaço aberto. Perguntado sobre por que o presidente faria tal coisa, ele disse que, como islamista, Erdogan tem "alergia por bebida".

É verdade que a Turquia é um país profundamente religioso, e muito turcos estão contentes que o governo Erdogan tenha limpado alguns lugares licenciosos de Beyoglu.

"Havia alguns locais repugnantes, com prostitutas perto de mesquitas", disse Rahzim Akcan, que dirige um dos mais antigos restaurantes do bairro, o Haci Abdullah Saray, inaugurado em 1888.

Mas na hora do almoço em um dia recente o salão estava vazio. "Está realmente ruim", disse ele. "Não há turistas. Só alguns árabes, talvez."

Cuneyt Celil Can, cuja família possui vários edifícios em Istiklal, disse que a perda dos cafés externos levou as pessoas para outros lugares, "onde podem fumar, beber e comer à vontade". Pela primeira vez em 35 anos como proprietário em Istiklal, ele disse que tem um prédio inteiro vago porque uma firma de advocacia saiu depois do atentado.

No centro da Istambul europeia, Istiklal --que significa "independência" em turco-- já foi chamada de Grande Rue, inspirada nos amplos bulevares de outras cidades da Europa. Do final do império otomano até os anos 1930, era mais comum ouvir pessoas falando francês lá, e não turco, pois a área era principalmente para estrangeiros, e os turcos muçulmanos eram uma minoria.

As potências europeias construíram suas embaixadas e igrejas lá durante o império otomano, e a avenida foi por muito tempo a âncora de uma parte da cidade com ar europeu, que a distingue da cidade velha, com suas mesquitas e casas de madeira seculares, do outro lado do canal do Chifre de Ouro.

Na época, os moradores chamavam a região de "pequena Paris" ou, de forma menos otimista, uma "Paris de segunda classe", disse Brendan Freely, um historiador e antigo cronista da vida em Istambul que escreveu com seu pai, John, um livro sobre o bairro.

Para os velhos frequentadores de Istiklal, há sempre a atração da nostalgia por uma época em que ninguém pensaria em ir a Istiklal sem estar muito bem vestido, os homens de terno e as mulheres com vestidos e chapéus.

Nicole Tung/The New York Times
Consumidores bebem chá do lado de fora de um café na avenida Istiklal

"Todo mundo vinha fazer compras aqui", disse Ali Ihsan Batur, dono de uma pequena loja de chocolates em Istiklal que está na família há 99 anos. "Se ouvissem falar sobre um novo perfume em Paris, vinham aqui para experimentá-lo."

"Havia bares ao lado de sinagogas, e muitos cinemas", acrescentou.

Hoje, com tantos refugiados sírios e turistas árabes que parecem superar os europeus em número, as placas em árabe ocupam os cafés e as lojas em Istiklal, e os cafés de narguilé --cujos clientes saboreiam o tabaco fumado em cachimbos de água-- proliferaram.

Sinan Skomen, que tem uma empresa de guias turísticos em Istambul e mora em Beyoglu, lamentou que um de seus restaurantes preferidos, que tinha chapelaria na entrada e exigia reservas, hoje é um café de narguilé.

Em uma ponta de Istiklal, perto da Praça Taksim e ao lado do Centro Cultural Francês, Ahmet Aslan tem uma carrocinha vermelha na qual vende "simit", uma guloseima turca de massa, uma espécie de rosca coberta de sementes de gergelim.

Nos últimos anos, disse ele, a avenida "ficava lotada. Você não podia ficar de pé sem que as pessoas lhe esbarrassem". Então ele vendia 600 simits por dia, mas hoje só 100, aproximadamente. Abanando a mão, ele disse: "Veja, está vazia".

* Ceylan Yeginsu e Safak Timur colaboraram na reportagem

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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