Análise: O que o México pode fazer a respeito de Trump?

Eduardo Porter

  • Eros Hoagland/The New York Times

    Caminhões entram nos EUA, próximo à fronteira em San Diego, vindos de Tijuana, no México

    Caminhões entram nos EUA, próximo à fronteira em San Diego, vindos de Tijuana, no México

Quando Ildefonso Guajardo Villarreal, o ministro da Economia mexicano, conversou comigo na semana passada sobre comércio e as eleições americanas, eu não esperava ser arrastado para a velha disputa entre o México e os Estados Unidos em torno de caminhões.

Na época em que assinaram o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês), os Estados Unidos se comprometeram a suspender em 2000 as restrições que impediam os caminhões mexicanos de transportarem carga dentro do território americano, o que os forçava a descarregarem na fronteira. Mas quando chegou a hora, sob pressão do (sindicato dos caminhoneiros) Teamsters e dos aliados deste no Congresso, Washington recuou.

O México manteve a calma por algum tempo, apesar de um painel de arbitragem em 2001 ter decidido que os Estados Unidos tinham violado o acordo. Em 2007, o México aceitou o pedido do governo de George W. Bush para que cooperasse com um programa piloto, que permitiria a alguns poucos caminhões mexicanos cruzar a fronteira, para provar que os veículos e seus motoristas não representavam um risco de segurança para os Estados Unidos.

Mas quando o Congresso cortou o financiamento para o programa piloto dois anos depois, o México deu um basta.

O governo mexicano adotou tarifas retaliatórias, variando de 5% a 25%, a uma lista de produtos americanos exportados ao México, que somava mais de US$ 2 bilhões. Ela inclui maçãs de Washington, para influenciar a posição da senadora Patty Murray, e árvores de Natal do Oregon, lar do senador Ron Wyden, outro crítico do acordo que permitia aos caminhões mexicanos cruzar a fronteira.

Mas o bom senso acabou prevalecendo: em 6 de julho de 2011, os dois países assinaram um acordo permitindo aos caminhões mexicanos operarem nos Estados Unidos. Em 21 de outubro de 2011, o primeiro caminhão mexicano cruzou a fronteira e a última tarifa retaliatória foi removida.

Eros Hoagland/The New York Times
Tráfego de caminhões na fronteira entre EUA e México

Poucos países seriam tão vulneráveis a uma presidência de Trump quanto o México. Cerca de US$ 4 de cada US$ 5 em bens exportados pelo México são destinados aos Estados Unidos. Cerca de 35% dos empregos mexicanos dependem diretamente do comércio exterior.

O futuro do México depende da integração norte-americana. "Essa é a vulnerabilidade do México", disse Luis Rubio, que dirige o Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento na Cidade do México. "Não há nada mais importante no México do que o Nafta."

O presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, já tropeçou tentando lidar com Donald Trump. Muitos mexicanos se sentiram traídos quando Peña Nieto convidou Trump para uma conversa na Cidade do México, fazendo com que seu baixo índice de aprovação despencasse ainda mais. E o encontro não melhorou em nada as relações. As hostilidades recomeçaram tão logo ele terminou.

O ministro da Economia, Guajardo Villarreal, argumenta que não há sentido o México responder agora às ameaças de Trump de isolar o povo mexicano com um muro e adotar uma tarifa de 35% sobre as importações mexicanas. "Não podemos reagir de forma excessiva à retórica de campanha", ele me disse. Mesmo assim, a história dos caminhões sugere que o governo mexicano entende que precisa de um plano de contingência caso o parceiro mais importante do México no cenário mundial repentinamente se torne hostil.

O esboço de uma estratégia parece claro: o México precisa comunicar aos Estados Unidos o quão valioso é o relacionamento entre eles, e quão autodestrutivo pode ser miná-lo. A questão é como apresentar esse argumento. Quão persuasivo o México pode ser?

Um slide de uma apresentação que Guajardo Villarreal e seus assessores levam consigo quando falam com empresários e líderes políticos americanos mostra quanto o Ford Fusion 2007, fabricado em Hermosillo, no norte do México, custaria se uma tarifa de 35% fosse imposta aos importados mexicanos: US$ 30.253, quase US$ 8.000 a mais do que custa agora. Outro slide mostra que oito de 10 abacates consumidos nos Estados Unidos são cultivados no México, assim como nove de 10 limões-taiti e metade de todos os tomates.

Seis milhões de empregos americanos dependem das exportações para o México, diz um slide. O México compra quase US$ 250 bilhões em produtos dos Estados Unidos. E 37 centavos de cada dólar em exportações mexicanas aos Estados Unidos retornam aos EUA na forma de partes e outros componentes.

"Se foram colocados obstáculos no relacionamento com o México, seria como dar um tiro no próprio pé", me disse Guajardo Villarreal.

Eros Hoagland/The New York Times
Fila de caminhões vindos do México na fronteira dos EUA

Aliados nos Estados Unidos ajudariam o México a expor seu argumento, incluindo Estados e municípios que seriam prejudicados por um desmonte do Nafta, e empresas que seriam forçadas a transferir a produção e repensar suas cadeias globais de fornecimento.

Mas talvez uma abordagem mais vigorosa seja necessária. Jorge Castañeda, o ex-ministro das Relações Exteriores mexicano, que é um duro crítico de Peña Nieto, sugere que o melhor argumento do México é que a estabilidade e prosperidade do país são indispensáveis para a segurança nacional dos Estados Unidos. Os americanos preocupados com a imigração ilegal pela fronteira sul poderiam parar para considerar como seria caso a economia mexicana despencasse em parafuso.

Se esse argumento não for persuasivo o bastante, argumenta Castañeda, há outras ferramentas disponíveis. O México poderia exigir que os Estados Unidos comprovassem que um imigrante é mexicano antes de aceitá-lo de volta ao país. Poderia fazer uso das leis e tribunais americanos contra o muro de Trump, exigindo coisas como levantamentos de impacto ambiental.

"Devemos usar o máximo de ferramentas possível", disse Castañeda.

E juntamente com o Canadá, o México deveria processar em todos os tribunais possíveis, segundo os artigos do Nafta, da Organização Mundial do Comércio e dos Estados Unidos, para resistir à agenda protecionista de Trump.

Mas a grande pergunta continua sendo: se um governo Trump cumprir suas ameaças, violando as regras do Nafta e da OMC, quão fortemente o México deve retaliar?

Ele já mostrou que sabe como. Na disputa em torno dos caminhões, o México escolheu alvos políticos habilmente. Ele evitou se dar um tiro no pé quando retaliou contra as árvores de Natal em vez de motores de carros.

"O México foi muito bom ao seguir as regras dos acordos de comércio quando se deparou com atritos comerciais com os Estados Unidos", disse Chad Bown, um especialista em comércio do Instituto Peterson para Economia Internacional.

Mas, como Bown observou, no início de um governo Trump, quando este não estaria preocupado com a reeleição, "quais produtos seriam escolhidos?"

Uma guerra comercial certamente prejudicaria os Estados Unidos. Acadêmicos do Instituto Peterson criaram um modelo sobre o que aconteceria se os Estados Unidos aplicassem tarifas elevadas ao México e à China e estes respondessem à altura: em 2019, a guerra comercial teria custado centenas de bilhões de dólares em produto perdido e teria resultado na perda de quase 4,8 milhões de empregos no setor privado.

O problema para o México é que os danos à sua própria economia seriam muito maiores. "Se entrarmos em guerra, é claro, teremos fuzis", disse Rubio. Mas as armas econômicas a disposição de seu país, ele acrescentou, são como "bombas nucleares que não devem ser usadas".

Lamentando sua sorte, os mexicanos dizem com frequência: "Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos". Diante da perspectiva de uma presidência de Trump, muitos mexicanos gostariam que seu vizinho do norte fosse mais distante. Mas a prosperidade do México depende de um relacionamento mais estreito com os Estados Unidos, não de um mais fraco. A melhor abordagem para um  governo Trump poderia ser agachar e aguardar pelo seu sucessor.

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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