Como explicar para os chineses que a eleição nos EUA não é como em "House of Cards"?

Cao Li

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Com a aproximação do dia da eleição nos Estados Unidos, os chineses estão prestando mais atenção para a escolha do próximo presidente.

A censura do governo, a barreira da língua e a pouca familiaridade com as convenções políticas americanas deixaram muitos chineses confusos a respeito do processo. Muitos deles parecem ter depreendido sua ideia de como o sistema funciona a partir de "House of Cards", a série do Netflix sobre um político inescrupuloso que não se detém por nada, nem mesmo um assassinato, para ascender ao poder. A série foi extremamente popular na China.

No ano passado, Tianlong You, um doutorando chinês em estudos jurídicos na Universidade do Estado do Arizona, cofundou um podcast chamado "Xuanmei" ou "Eleição dos EUA", voltado para os chineses mais jovens e urbanos. You e seus sócios—Hua Jianping, que escreve sobre política americana, e Zhuang Qiaoyi, que detém um mestrado em relações internacionais pela Universidade de Syracuse— discutem com seus convidados tópicos que já foram desde título eleitoral até a forma como diretores de campanha exploram dados para melhorar as perspectivas dos candidatos.

Estima-se que cerca de 70 mil pessoas ouçam os podcasts todos os meses. Em agosto, You publicou "Get Elected: A Very Short Introduction to the U.S. Presidential Election" ("Seja eleito: uma brevíssima introdução à eleição presidencial americana", Ed. Taihai, não lançado no Brasil) juntamente com Hua e Lin Yao, que tem um doutorado em ciências políticas pela Universidade de Columbia.

Em uma entrevista, You explicou que os chineses estão mais interessados do que nunca nas eleições presidenciais americanas, mas que nem sempre  eles as entendem.

NYT: Em quê os chineses se equivocam a respeito do processo político americano?

Tianlong You: Sinto que o maior equívoco é o fato de que muitos chineses levam "House of Cards" muito a sério. A política americana é complicada, mesmo para os americanos. Para muitos chineses, ela é simplesmente confusa demais. Então as pessoas tomam um atalho. "House of Cards" é tão realista para eles que filtra suas impressões sobre a política americana.

Outro equívoco vem da propaganda negativa que muitos chineses absorveram ao longo dos anos, ou seja, de que a política americana é controlada por dinheiro ou por grandes capitalistas e que os políticos são meros fantoches controlados por capitalistas. É possível que existam sérios problemas na política americana. Mas no que diz respeito à política plutocrata, não é tão ruim quanto as pessoas na China imaginam.

Por outro lado, alguns intelectuais liberais na China acreditam que os Estados Unidos sejam bons em todos os sentidos. Seu sistema político é bom e a voz do povo é ouvida. Eles atribuem todas as conquistas dos Estados Unidos a seu sistema político superior.

Sinto que muitos chineses estão mais projetando seus próprios preconceitos sobre a política americana do que de fato a observando.

NYT: As pessoas na China estão mais bem informadas hoje sobre a eleição presidencial do que quatro ou oito anos atrás?

You: Temos acesso a muito mais informação hoje do que há quatro ou oito anos. Milhões de chineses viajaram para os Estados Unidos. Temos uma internet forte e as mídias sociais. Uma grande porcentagem dos jovens fala inglês. Mas a política americana é complicada. Para entendê-la precisamos colocá-la em contexto, o que muitos chineses não conseguem fazer.

NYT: Quais são os tipos de visão política dos chineses que você vê nos comentários de mídias sociais sobre o podcast?

You: Obviamente, as visões políticas dos chineses variam. Mas notei que muitos de nossa audiência que expressam seus pontos de vista publicamente assumem um posicionamento nacionalista. Eles olham para a eleição a partir da perspectiva do que seria melhor para a China.

NYT: Quem são seus ouvintes?

You: Os dados do Google Analytics mostram que cerca de 60% deles têm menos de 35 anos, ou seja, nasceram depois que a China embarcou na reforma econômica e na abertura. A maior parte deles, 72%, estão na China, e cerca de 15% vivem nos Estados Unidos.

NYT: Quais programas ou temas têm sido mais populares entre seus ouvintes chineses?

You: Os quatro programas mais populares, de acordo com o Google Analytics, tratavam da reforma do Obama sobre o sistema de saúde, de convidados explicando por que eles eram contra Donald Trump, de gastos e das prévias do Estado de Iowa. Não deveria ser surpreendente que os chineses estejam interessados no Obamacare. A China também está passando por uma reforma no sistema de saúde e queremos aprender com os Estados Unidos.

NYT: À medida que seus ouvintes chineses aprendem mais sobre a política presidencial e sobre o sistema político americano durante esta eleição, eles estão ficando mais ou menos cínicos?

You: É difícil saber. A partir dos comentários de alguns apoiadores de Trump em nossa conta do Zhihu (um site de perguntas e respostas), eles claramente estão bravos. Mas não consigo lhe dizer o quão representativos eles são de nossa audiência. Minha observação pessoal é que eles podem estar se sobrepondo às outras vozes ao se expressarem dessa forma insistente e ao atacarem os outros.

Mas gostaria de dizer que 2016 parece ser o começo de um verdadeiro interesse dos chineses nas eleições americanas. A combinação de uma classe média crescente, mais experiência no exterior e um acesso mais fácil à informação promoveram um interesse que eu nunca havia visto antes.

NYT: Você diz que muitas pessoas na China parecem gostar de Trump. Mas e os ataques dele contra a China, suas ameaças de tarifas altas para o comércio e sua linha dura a respeito da imigração, além de sua insensibilidade em relação às minorias étnicas? Esses chineses realmente o apoiam ou só o acham divertido?

You: Primeiramente, muitos chineses não gostam da Hillary Clinton. Desde a Conferência Mundial das Mulheres da ONU de 1995, em Pequim, Hillary tem sido difícil em relação à China. Quando ela se tornou senadora, ela muitas vezes interferiu nas relações entre EUA e China. Quando ela se tornou secretária de Estado, ela defendeu o redirecionamento dos interesses americanos para a Ásia, o que é visto pelo governo e pelo povo chinês como uma tentativa de conter a China. É claro que o povo chinês não gosta dela.

Em segundo lugar, muitos chineses não gostam do Partido Democrata. O presidente Truman, um democrata, apoiou Chiang Kai-shek, supervisionou a Guerra da Coreia e interferiu nas relações entre China e Taiwan. O presidente Kennedy, um democrata, se envolveu no Vietnã. O presidente Clinton, um democrata, criticou o histórico da China em termos de direitos humanos e desacelerou as negociações sobre a entrada da China na Organização Mundial do Comércio. Enquanto isso, o presidente Eisenhower, um republicano, acabou com a Guerra da Coreia e o presidente Nixon, um republicano, acabou com a Guerra do Vietnã e iniciou a normalização das relações entre China e EUA. Muitos chineses acreditam que mais um presidente democrata não seria favorável para a China.

Em terceiro lugar, muitos chineses apoiam a política externa isolacionista de Trump. Eles acreditam que Trump adotaria uma abordagem mais pragmática em relação à China e criaria novas oportunidades para o desenvolvimento do país.

Tradutor: UOL

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