Aumento de mulheres terroristas na França indica mudança nos papéis de gêneros no EI

Alissa J. Rubin e Aurelien Breeden

Em Paris (França)

  • Michel Euler/AP

Houve o carro estacionado cheio de cilindros de gás perto da Catedral de Notre Dame, uma possível tentativa de provocar uma explosão no coração de Paris. Houve a suposta trama para atacar uma estação de trens na região parisiense. Houve a iniciativa de um dos mais destacados propagandistas do Estado Islâmico (EI) para recrutar duas jovens em Nice, onde um terrorista matou 86 pessoas em julho, atropelando-as com um caminhão.

Na França, onde as ameaças terroristas se tornaram perturbadoramente comuns, estes três episódios sobressaíram por um motivo especial: mulheres radicalizadas estiveram no centro de cada um deles.

Não está claro se o fenômeno é uma bolha ou o início de uma tendência em que as mulheres têm um papel mais ativo no planejamento e na execução de atentados no Ocidente.

As autoridades de segurança, preocupadas, tentam compreender se as mulheres começam a se destacar porque há muitos homens sob vigilância ou presos, ou se os recrutadores dos grupos terroristas estão atraindo mulheres em parte como uma maneira de fazer que mais homens se sintam compelidos a agir. Eles também se perguntam se faz parte de uma estratégia para que os europeus sintam que devem temer igualmente homens e mulheres.

Sejam quais forem os motivos, as autoridade entendem que as mulheres agora fazem parte da estratégia europeia do EI, segundo François Molins, promotor de Paris encarregado das investigações de terrorismo em todo o país.

"A organização terrorista não somente usa homens, mas também mulheres, jovens que conhecem e desenvolvem seus projetos virtualmente", disse ele.

Entrevistas com sociólogos, advogados, uma capelã muçulmana e especialistas em segurança sugerem que as extremistas que hoje chamam a atenção da polícia francesa são diferentes em vários aspectos das gerações anteriores de mulheres que entravam ou eram atraídas para os grupos islâmicos.

As que são apreendidas hoje são geralmente mais jovens e têm papéis menos definidos pelo gênero entre os extremistas islâmicos. Têm maior disposição a entrar em ação, em vez de ficar nos bastidores, em contraste com as mulheres que deixaram a Europa ocidental em direção à Síria para tornar-se companheiras de combatentes do EI e gerar seus filhos.

As mulheres jihadistas europeias hoje também estão longe das extremistas muçulmanas da Tchetchênia e do Iraque que se tornaram mulheres-bombas, quase sempre sob a instrução e o cuidadoso monitoramento de extremistas homens. Elas também se distanciam das gerações anteriores de mulheres radicais não muçulmanas, como as das Brigadas Vermelhas, que abraçaram a violência, mas também costumavam ter ideais feministas.

Farhad Khosrokhavar, um sociólogo na Escola de Estudos Superiores em Ciências Sociais, em Paris, disse que jovens adolescentes e pós-adolescentes de ambos os sexos estão cada vez mais envolvidos na jihad na Europa. "Depois temos uma segunda categoria, que são as mulheres", disse ele.

Enquanto as extremistas que operam hoje na França geralmente declaram lealdade ao EI e têm contato com pessoas afiliadas ao grupo, elas parecem agir sob orientação e incentivo à distância, de homens que estão na Síria ou na Europa.

Mas também há sinais constantes das maneiras como a natureza machista da cultura jihadista define os relacionamentos entre os radicais, homens ou mulheres. Os recrutadores encorajam os noivados online, e uma das mulheres que foram detidas recentemente no caso do ataque à estação de trens estivera noiva por meio da internet de dois extremistas diferentes, cada um dos quais foi morto realizando terríveis ataques na França, segundo Molins.

Esses elementos um tanto contraditórios sugerem que a ameaça vem de um tipo de jihadista feminista, mais independente, que vê a si mesma agindo de modo semelhante aos homens, mas ao mesmo tempo algumas nessa categoria também parecem agir sob instruções de colegas homens no EI. Nos dois casos, existe a possibilidade, segundo especialistas, de que o EI e outros grupos estejam usando mulheres para atrair homens para cometer os atentados.

Comentários recentes feitos por Rachid Kassim, um francês que entrou para o EI e hoje é suspeito de ser um de seus principais propagandistas, sugerem que esse tipo de estratégia pode estar em jogo.

"Mulheres, as irmãs vão ao ataque", escreveu ele no aplicativo de mensagens Telegram no mês passado, depois que o atentado com os cilindros de gás foi abortado, segundo o jornal "Le Monde". "Onde estão os irmãos?", acrescentou. Kassim é suspeito de incentivar as mulheres naquela trama.

Os complôs recentes na França liderados por mulheres mostram ao mesmo tempo sua determinação e os limites de seus esforços. Eles também salientam o que essas mulheres têm em comum: algumas são convertidas e algumas tentaram ir à Síria, mas foram devolvidas. E as mais jovens, especialmente, parecem emocionalmente perturbadas, disse Wafa Messaoud, uma capelã muçulmana que trabalha com mulheres muçulmanas em prisões francesas.

Entre as presas por atividades extremistas "há muitas convertidas", disse Messaoud. Ela acrescentou que o EI parece estar jogando com a insegurança das mulheres muito jovens que são recrutadas e seu desejo de pertencer a um grupo.

"Elas são jovens, na metade da adolescência, e têm essa vulnerabilidade psicológica", explicou.

No episódio recente em Paris, pelo menos duas mulheres, Inès Madani, 19, e Ornella Gilligmann, 29, são suspeitas de colocar cilindros cheios de gás em um carro no início de setembro, tentar incendiá-los e depois deixar o carro estacionado durante a noite perto de Notre Dame.

Gilligmann, que é convertida ao islã, disse aos investigadores que havia comprado os cilindros de gás, segundo reportagens na mídia francesa. Ela estava interessada em ir para a Síria, disse Molins, o promotor de Paris.

Madani forneceu o carro --era do pai dela, segundo o promotor. Ela parece ter tido conexões com círculos jihadistas na Bélgica, e investigadores de lá queriam interrogá-la sobre uma rede de extremistas na cidade de Charleroi.

Alguns dias depois que o carro foi encontrado, a polícia usou grampos telefônicos e análises de dados de telefone para rastrear Madani e duas outras mulheres em Boussy-Saint-Antoine, a cerca de 32 km ao sul de Paris. As três estariam planejando um ataque a uma estação ferroviária, disse a polícia francesa.

Quando elas saíram da casa onde estavam escondidas, uma das mulheres, Sarah Hervouet, 23, esfaqueou no ombro um policial que estava sentado no carro, segundo Molins. Madani também tentou esfaquear um policial durante sua detenção, disse Molins. Uma terceira mulher, Amal Sakaou, 39, não tentou atacar a polícia, e não se sabe quase nada sobre ela.

Hervouet é convertida ao islamismo e também queria ir para a Síria, segundo Molins. Ela partiu em março do ano passado, mas não chegou lá porque as autoridades turcas a fizeram voltar.

Molins disse que ela esteve comprometida com o homem que matou um capitão de polícia e sua companheira em junho em Magnanville, perto de Paris, e depois com Adel Kermiche, que matou um padre de 85 anos em St.-Étienne-du-Rouvray em julho. Não havia indícios de que ela tenha conhecido algum deles pessoalmente --ambos foram mortos pela polícia depois dos ataques--, sugerindo que só interagiu com eles pela internet. Posteriormente, ela parece ter entrado em outro relacionamento, dessa vez com um homem que foi detido em conexão com a morte em Magnanville.

No caso de Nice, duas jovens de 16 e 17 anos foram detidas sob a suspeita de terem ligações com Kassim, o propagandista do EI, em seu canal criptografado no Telegram e por terem conversado sobre um possível ataque. Mas parece que elas mudaram de ideia depois do atentado em 14 de julho em Nice, cometido por um motorista leal ao EI.

Certamente as francesas são um terreno fértil para o recrutamento do EI. Proporcionalmente, mais francesas que mulheres de qualquer outro país europeu foram à Síria e ao Iraque. E 40% dos jovens que deixaram a França e hoje estão na Síria são mulheres, segundo o Ministério do Interior francês.

Molins pinta as mulheres como ligadas ao EI e dirigidas por seus líderes homens, mas Khosrokhavar disse que ao entrevistar mulheres que tinham ido à Síria ou tentado chegar lá ele encontrou evidências de que as recrutas mulheres nesse grupo mais novo eram mais independentes que suas antecessoras.

São jovens que cresceram na Europa, onde se considera normal que as mulheres controlem suas próprias vidas. O resultado é que sua linguagem é a das feministas europeias, mas, de maneira confusa, estava a serviço de uma ideologia muito contrária a esta, segundo Khosrokhavar.

As mulheres disseram que serem impedidas de realizar seu objetivo de ir à Síria seria "um insulto a sua dignidade e a sua autonomia", disse ele.

* Milan Schreuer colaborou na reportagem.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos