Museu sobre direitos humanos vira foco de protestos de comunidades indígenas no Canadá

Dan Levin

Em Winnipeg, Manitoba (Canadá)

  • Aaron Vincent Elkaim/The New York Times

O Museu Canadense de Direitos Humanos oferece muitas oportunidades para contemplação. Um display de vidro guarda o salwar kameez (veste paquistanesa) manchado de sangue que Malala Yousafzai, a ativista pela educação para meninas no Paquistão, estava usando durante uma tentativa de assassinato pelo Taleban. Depoimentos em vídeo de sobreviventes de genocídios em Ruanda, Ucrânia e Bósnia visam ensinar a tolerância.

Ou uma pessoa pode pensar sobre o fato, não mencionado pelo museu, de que a água que flui por seus espelhos d'água vem de um lago em uma reserva nativa onde os moradores não têm água limpa para beber há quase duas décadas.

"É o Grande Mito Canadense em exposição", disse Leah Gazan, uma ativista de direitos indígenas, durante uma recente visita ao museu.

O museu de US$ 266 milhões (351 milhões de dólares canadenses ou cerca de R$ 860 milhões) se transformou em um símbolo das contradições entre a identidade multicultural moderna do país e o que os críticos dizem ser um legado não conciliado de violações de direitos humanos contra os povos indígenas, que persiste até hoje.

Seus apoiadores elogiam o museu, que atrai quase 350 mil visitantes por ano, por dar início a conversas importantes sobre injustiça. Mas para outros, apesar de uma série de exposições poderosas sobre a opressão aos povos indígenas no Canadá, o museu poderia fazer mais para tratar das verdades desconfortáveis da nação sobre a forma como lidou e ainda lida com os descendentes dos habitantes originais destas terras.

Mesmo antes de sua abertura há dois anos, o museu se transformou em foco de protestos por seu conteúdo, particularmente por grupos indígenas que diziam que ele minimizava sua situação aflitiva.

Grande parte dos 1,4 milhão de nativos no Canadá carecem de acesso a água limpa, atendimento básico de saúde e educação, resultado de políticas discriminatórias do governo que levam a índices desproporcionalmente altos de violência, vício em álcool e drogas e pobreza, como acusam a ONU, os tribunais canadenses e as organizações internacionais de direitos.

"O que vemos no museu reflete um problema fundamental no Canadá", disse Craig Benjamin, um ativista pelos direitos indígenas da Anistia Internacional.

"O Canadá há muito faz vista grossa às extremas violações dos direitos dos povos indígenas. A conversa nacional sobre a profundidade do crime, assim como a urgência da reparação, está apenas começando a acontecer."

Aaron Vincent Elkaim/The New York Times
Exposição sobre povos indígenas no Museu Canadense de Direitos Humanos


O primeiro-ministro Justin Trudeau prometeu uma "renovação total" do relacionamento do Canadá com seus povos indígenas. As esperanças aumentaram com a investigação pelo seu governo dos assassinatos e desaparecimentos de mulheres indígenas, assim como seu compromisso de incorporar ainda mais os direitos indígenas na lei canadense. Mas muitos no Canadá estão preocupados que o governo esteja voltando atrás nessa promessa.

O primeiro museu nacional construído fora de Ottawa, a capital do Canadá, a estrutura é uma proeza arquitetônica, um edifício corpulento de pedra calcária e vidro, projetado para lembrar uma nuvem em volta de uma montanha, com uma torre iluminada no alto simbolizando a esperança.

Ele ocupa uma área proeminente no centro de Winnipeg, a capital de Manitoba, uma província onde mais de 75% das crianças indígenas vivem na pobreza, a taxa mais alta no Canadá, segundo um recente estudo. Winnipeg, lar da maior população indígena urbana do país, há muito luta para superar a divisão racial, que tanto seu prefeito indígena quanto o museu estão tentando resolver por meio de programas educacionais e de governo.

O museu, ideia de um magnata da mídia de Winnipeg que foi inspirado pelo Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, em Washington, D.C., foi em grande parte financiado por doadores privados.

Em vez de marcar um evento específico ou a história regional, o museu visa educar os visitantes sobre o significado dos direitos humanos por meio de uma série de temas, como a luta pelos direitos legais no Canadá e liberdade de expressão.

"Nunca será o que todas as pessoas gostariam que fosse", disse Maureen Fitzhenry, uma porta-voz do museu.

Diferentemente dos Estados Unidos, onde as lutas dos nativo-americanos, que correspondem a menos de 2% da população, apenas ocasionalmente entram no debate nacional, as questões enfrentadas pelos indígenas canadenses são um aspecto proeminente e altamente politizado da sociedade.

Os indígenas correspondem a mais de 4% da população canadense, mas uma série de batalhas legais tem o potencial de mudar o cenário político e nacional a favor deles. Nos últimos anos, os povos indígenas do Canadá venceram mais de 230 casos legais contra o governo relacionados a desenvolvimento de recursos naturais, enquanto a Suprema Corte e o Tribunal Canadense de Direitos Humanos têm tomado decisões históricas concedendo a muitos grupos maior autonomia e direitos a território, fundos e serviços.

Aaron Vincent Elkaim/The New York Times
Exibição sobre mudança climática e seus efeitos sobre os inuítes no Museu Canadense de Direitos Humanos


Por centenas de anos, os povos indígenas do Canadá foram vítimas de políticas do Estado que foram criadas explicitamente para erradicar suas culturas, se apropriar de suas terras e negar a eles autonomia política, como a Lei Indígena de 1876. A lei dava ao governo canadense o poder de ditar quem era considerado um "índio", transferir os povos indígenas para reservas isoladas e pobres em recursos, assim como controlar as finanças deles. Ela permanece no centro de muitas políticas e regulações ainda em vigor hoje.

Cerca de 150 mil crianças indígenas foram retiradas à força de suas famílias e enviadas para internatos administrados pela Igreja e financiados pelo Estado por mais de um século, antes do programa ter sido encerrado nos anos 90. Segundo algumas estimativas, até 6.000 crianças morreram e muitas mais sofreram abusos físicos e sexuais.

Outros programas do governo esterilizaram à força mulheres indígenas e colocaram mais de 16 mil crianças indígenas para adoção por famílias brancas.

As comunidades indígenas há muito criticam o museu por não reconhecer oficialmente a opressão histórica que sofreram como sendo genocídio. Os responsáveis pelo museu dizem que as exposições tentam educar o público sobre essas questões, ao exibir de forma proeminente o depoimento de sobreviventes do sistema de internatos e informações sobre os efeitos da colonização.

Em vez de ter uma única exposição destacando a subjugação dos povos indígenas e detalhando seu impacto contemporâneo, o museu aborda essas questões em narrativas mais amplas sobre a luta por justiça.

Sua maior galeria, Jornadas Canadenses, examina os "passos e erros na estrada por maiores direitos para todos no Canadá", segundo os materiais de divulgação do museu.

Cabines incluem histórias sobre direitos dos gays, os campos de concentração para japoneses no país durante a Segunda Guerra Mundial, a recuperação de terras pelos índios inuítes, a Underground Railroad (rede de rotas secretas e abrigos para escravos em fuga para a liberdade) e um filme devastador sobre os internatos, que mostra o ex-primeiro-ministro Stephen Harper fazendo um pedido de desculpas oficial em 2008.

Os críticos dizem que pouco no museu trata da continuidade da discriminação.

"Há a sensação de que no passado houve alguns erros e que agora está tudo bem", disse Karen Busby, diretora do Centro para a Pesquisa dos Direitos Humanos da Universidade de Manitoba.

Alguns ex-funcionários do museu dizem que esse retrato foi resultado de interferência política, em parte por um conselho nomeado pelo governo conservador de Harper.

Diretores do museu negam as alegações de interferência política. Eles dizem que o conteúdo passou por um processo de desenvolvimento de um ano visando assegurar uma narrativa não partidária e que o que está em exibição reflete a necessidade de incorporar uma grande variedade de assuntos globais. Fitzhenry, a porta-voz do museu, citou dezenas de exposições que tratam dos problemas passados e atuais dos indígenas.

"Nós falamos sobre os pedidos de desculpas do governo como reconhecimentos dos erros históricos", ela disse, "mas não deixamos implícito que representam reparações suficientes".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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