Oposição colombiana ao acordo de paz é alimentada pela reação contra direitos dos gays

Nicholas Casey

  • Luis Acosta/AFP

    26.set.2016 - O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, e o líder das Farc, Timoleón Jiménez, ou Timochenko, apertam as mãos após assinatura do acordo de paz em Cartagena, na Colômbia

    26.set.2016 - O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, e o líder das Farc, Timoleón Jiménez, ou Timochenko, apertam as mãos após assinatura do acordo de paz em Cartagena, na Colômbia

Para os muitos oponentes do presidente, nunca se tratou apenas de descarrilar o acordo de paz.

Enquanto a Colômbia debatia como colocar um fim a 52 anos de guerra contra o maior grupo rebelde do país, um jogador de futebol da amada seleção nacional condenou o acordo, apontando para o presidente Juan Manuel Santos e o acusando de práticas que "não são de Deus".

Então ocorreram as marchas furiosas por toda a Colômbia neste ano contra a ministra da Educação gay, que logo se transformou em uma fonte de oposição ao governo de Santos e ao acordo de paz que ele defende.

"Meus compatriotas marcham em defesa dos valores da família", declarou Álvaro Uribe, o ex-presidente conservador que encabeçou a ação contra o acordo de paz e mobilizou os eleitores religiosos da Colômbia contra ele.

O esforço de Santos para colocar um fim à guerra lhe rendeu enorme reconhecimento internacional, culminando no Prêmio Nobel da Paz na sexta-feira. Mas ele enfrenta enorme resistência na Colômbia, onde se vê diante de uma crescente divisão cultural.

Quando os colombianos rejeitaram no fim de semana passado o acordo de paz entre o governo de Santos e as esquerdistas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, ou Farc, a decisão chocou a região e expôs a fúria de gerações contra os rebeldes. Muitos colombianos sentiram que os guerrilheiros saíram facilmente impunes em um acordo que permitiria à grande maioria deles evitar a prisão.

Mas os críticos do acordo parecem também ter explorado algo mais: um movimento conservador ressurgente, enfurecido pela inclinação socialmente liberal da Colômbia nos últimos meses.

"A oposição usou o argumento envolvendo casamento gay, aborto e religião para atrair e mobilizar contra o acordo de paz", disse Juan Carlos Garzón, um pesquisador da Fundação Ideias para a Paz, um grupo de pesquisa na Colômbia. "Foi uma estratégia eficaz para mobilizar a maioria dos eleitores conservadores contra o acordo de paz."

A Colômbia há muito é um dos países mais conservadores da região. Mas o tom começou a mudar no ano passado.

Em abril, a mais alta corte da Colômbia legalizou o casamento de mesmo sexo e, no ano passado, removeu as barreiras para que indivíduos e casais gays adotassem crianças. O país, dilacerado pela longa guerra contra as drogas, legalizou a maconha medicinal no final do ano passado. Um esforço para suspender as restrições ao aborto também surgiu neste ano com a disseminação do vírus da zika.

Então veio o acordo com as Farc. Para alguns conservadores, foi demais: um pacto com a organização guerrilheira marxista que aterrorizou a Colômbia por décadas.

"As pessoas usaram a reação à agenda da paz para falar sobre o desmonte maior dos valores conversadores na Colômbia, uma guerra cultural ampliada", disse Winifred Tate, uma professora de antropologia da Faculdade Colby, no Maine, que estuda a Colômbia.

A derrota do acordo, auxiliada pelo baixo comparecimento dos eleitores nas regiões que votaram a favor do acordo de paz, permitiu aos conservadores sociais fazer uso de sua força, já que Santos foi forçado a cortejar seus oponentes em uma tentativa de salvar o que restava do acordo. Dois dias depois da votação, Santos fez seus negociadores se reunirem com um grupo maior de pastores cristãos evangélicos para discutir suas preocupações.

Santos também tem que negociar com Uribe, seu antecessor imediato, que o chamou repetidamente de "traidor" por promover uma paz que inclui sentenças reduzidas aos crimes de guerra dos rebeldes. Os dois líderes em disputa se reuniram na quarta-feira, com Uribe apresentando uma lista de exigências, como a proibição da participação dos rebeldes na política e punições para aqueles que sequestraram crianças.

E Uribe também lembrou de seus apoiadores conservadores sociais. "Nós apresentamos nossas preocupações com os valores da família", ele disse.

Mesmo após Santos ganhar o prêmio Nobel da Paz da sexta-feira, Uribe permaneceu desafiador, chamando o acordo de paz de "danoso à democracia" e exigindo que Santos o mudasse.

Apesar do prêmio Nobel ter dado moral ao campo a favor da paz, alguns observadores alertaram que a profunda polarização do país continuaria.

"É improvável que a agenda da extrema-direita mudará", disse Nazih Richani, um professor da Universidade Kean, em Nova Jersey, que estuda a Colômbia.

Susana Correa, uma legisladora do partido Centro Democrático, disse acreditar que o acordo contém o tipo de subtexto que mina os valores da família e apoia posições não tradicionais a respeito de gênero e orientação sexual.

Horas depois de Santos ganhar o Nobel da paz, Correa disse que seu partido ainda usaria essa "nova era de modificações e correções" para buscar um texto mais socialmente conservador para o acordo.

"As igrejas Católica e evangélica se juntaram a nós na queixa de que em nenhuma parte do acordo Deus é mencionado", ela disse.

A luta entre os conservadores sociais e o governo Santos entrou em ebulição neste ano em torno da educação. Gina Parody, a ministra da Educação do país, que é gay, propôs banheiros mistos e mudanças no uniforme para dar menos ênfase a gênero. Ela também propôs a criação de um manual para os alunos relacionada à orientação sexual, seguindo uma ordem pela Justiça do país para que o fizesse.

A mudanças propostas provocaram a ira da extrema-direita do país. Um político acusou Parody de "colonização gay". Em meados de agosto, milhares de manifestantes, apoiados por Uribe, se reuniram por toda a Colômbia, acenando faixas e cartazes condenando o casamento de mesmo sexo e pedindo ao país para que defenda a família tradicional.

Enquanto prosseguia a controvérsia em torno da cartilha gay, Parody deixou temporariamente seu cargo, assumindo o papel de uma das figuras centrais da campanha a favor do acordo de paz no referendo nacional.

Logo as duas questões, o acordo de paz e a disputa em torno de orientação sexual e gênero, se misturaram aos olhos de muitos.

Em um vídeo no YouTube postado no mês passado, Johan Molina, um pastor popular, se queixa de que o acordo não foi "escrito em língua comum", deixando sua intenção confusa. Ele disse que um grupo de pastores e outros especialistas estudaram os termos e descobriram que o acordo entrava em conflito com a Bíblia, devido à sua leniência com os rebeldes.

"Não há arrependimento por parte dos líderes das Farc e as pessoas não podem perdoar aqueles que não pedem perdão", Molina diz para sua congregação no vídeo.

A mensagem religiosa contra o acordo ganhou força além dos líderes cristãos. Antes da votação, Daniel Torres, um jogador de futebol colombiano, produziu um vídeo online no qual pediu aos cristãos que votassem contra o acordo.

"Quero dizer a você que o que apresentou, e aquilo que anda praticando, não são de Deus e nem vêm de Deus", disse Torres, falando de Santos enquanto o vídeo mostrava uma foto do presidente curvado em uma purificação indígena. "Isso não trará nada de bom para nosso país."

Outros líderes religiosos argumentaram que o acordo beneficiaria os gays e transgênero diretamente.

O pastor Marco Fidel Ramírez, da Igreja Internacional da Família, em Bogotá, a capital, disse acreditar que os arquitetos do acordo planejavam usar o acordo para promover o casamento de mesmo sexo, apesar de não ter apresentado evidência direta em apoio a essa afirmação.

"Isso representa uma objeção fundamental e um risco à família natural na Colômbia", ele disse. "Uma família na Colômbia consiste de um homem e uma mulher."

Marcela Sánchez, diretora da Colômbia Diversa, um grupo que representa pessoas gays, lésbicas, bissexuais e transgênero, disse que o acordo não contêm artigos desse tipo. Mas, ela disse, a direita travou uma feroz batalha de desinformação para convencer as pessoas do contrário, especialmente nas redes sociais.

O efeito de longo prazo, além do descarrilamento do processo de paz, é um aumento da homofobia, disse Sánchez.

Após o fracasso no referendo, Parody, a ministra da Educação que fez campanha pelo acordo, renunciou de forma definitiva como ministra, deixando o país sem sua líder gay mais proeminente.

"É triste neste país que haja mais pessoas com medo da homossexualidade do que da guerra", disse Sánchez.

Susan Abad contribuiu com reportagem.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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