Após anos de torturas da CIA, ex-detido ainda é prisioneiro das "Trevas"

James Risen

Em Dubai (Emirados Árabes Unidos)

  • Bryan Denton/The New York Times

No início, os americanos pareciam confusos a respeito de Suleiman Abdullah Salim. Eles aparentemente esperavam um árabe de pele clara, mas em vez disso, em um pequeno aeroporto fora de Mogadício, naquele dia em março de 2003, eles receberam um africano de pele escura.

"Eles disseram: 'Você mudou seu rosto'", lembrou Salim, um tanzaniano, dos homens americanos lhe terem dito quando chegou. "Eles disseram: 'Você é um iemenita. Você mudou seu rosto'."

Esse foi o início da estranha provação de Salim sob custódia americana. Já se passaram 13 anos desde que ele foi torturado em uma prisão secreta no Afeganistão, administrada pela Agência Central de Inteligência (CIA), um local que chama de "As Trevas". Já se passaram oito anos desde que ele foi solto, sem acusações, sem explicações.

Mesmo após tanto tempo, Salim, 45, está tendo dificuldade para seguir em frente. Sofrendo de depressão e transtorno de estresse pós-traumático, segundo um diagnóstico médico, ele é retraído e desconfiado. Ele não consegue falar sobre suas experiências com sua mulher e ele teme que os americanos voltarão para levá-lo. Ele teme chamar muita atenção em casa, em Stone Town, Tanzânia, preocupado que seus vizinhos pensem que ele é um espião americano.

Quando fala, não em sua língua natal, o suaíli, mas em inglês que aprendeu com seus carcereiros, Salim quase sussurra. "Muitas vezes sinto como se tivesse algo pesado dentro do meu corpo", ele disse em uma entrevista. "Às vezes eu caminho, caminho, e esqueço, esqueço tudo, esqueço a prisão, as Trevas, tudo. Mas está sempre lá. As Trevas voltam."

Salim foi um dos 39 homens submetidos a algumas das técnicas mais brutais da CIA, como espancamentos, ser pendurado por correntes, privação de sono e simulação de afogamento, apesar de os interrogadores não estarem autorizados a usar essa última tática contra ele, segundo uma investigação do Comitê de Inteligência do Senado sobre o programa confidencial de interrogatório da agência.

Em uma série de entrevistas recentes em Dubai, Salim descreveu seu encarceramento pela CIA e pelos militares americanos como sendo um suspeito de terrorismo. Seu relato se assemelha aos fornecidos por outros detidos, testemunhas e autos de processos na Justiça, além de confirmar os detalhes no relatório do Senado sobre o tratamento que recebeu.

Exatamente o motivo pelo qual Salim caiu nas mãos dos americanos permanece nebuloso. Vazamentos para a imprensa na época de sua captura sugeriam que as autoridades de inteligência suspeitavam que ele tinha ligações com a Al Qaeda, mas a CIA nunca revelou publicamente os motivos. Um porta-voz da agência se recusou a comentar para este artigo.

Ele vivia uma vida nômade em uma das regiões mais pobres do mundo, onde a CIA, após os ataques de 11 de setembro de 2001, prometeu aos aliados recompensas em dinheiro pelos suspeitos de terrorismo. Os governos e senhores da guerra entregaram centenas de homens aos Estados Unidos, em muitos casos com pouca evidência de terem feito algo errado.

Salim cresceu no extremo leste da África, mas nunca se encontrou.

Em 2000, ele estava dormindo em uma mesquita e pedindo esmolas nas ruas de Mogadício, a capital da Somália. Posteriormente, um comerciante lhe ofereceu alguns bicos e trabalho como motorista para ele e sua irmã, que Salim disse que trabalhava para Mohammed Dheere, um senhor da guerra somali.

Em março de 2003, Salim estava levando seu empregador pela capital quando encostaram para ajudar um veículo parado. De repente, três homens armados apareceram, agarraram Salim e começaram a espancá-lo, ele disse. Ele escapou, mas os homens o encontraram no hospital para o qual o chefe de Salim o levou.

Os homens disseram que trabalhavam para Dheere e alegavam que ele devia dinheiro ao senhor da guerra, contou Salim. "Eu disse que não, mas eles continuavam repetindo, 'Você roubou dinheiro de Mohammed Dheere'."

Então os homens o levaram a um pequeno aeroporto fora da cidade. Os americanos estavam esperando.

Eles perguntaram repetidas vezes sobre sua aparência, disse Salim. "Eles diziam: 'Você não é Suleiman. Você mudou seu rosto'. Eu dizia: 'Vão à Tanzânia. Procurem minha mãe e levem uma foto minha'."

Ele foi entregue às autoridades quenianas, que o levaram para Nairóbi. Mas após interrogá-lo, os quenianos o enviaram de volta para a Somália e para os americanos. (As autoridades quenianas não responderam ao pedido de comentário a respeito do caso de Salim.)

Dessa vez os americanos ficaram com ele. Logo surgiram notícias, incluindo um artigo no "New York Times", citando autoridades americanas e quenianas descrevendo a captura de um agente da Al Qaeda do Iêmen, identificado como Suleiman Abdalla Salim Hemed, que era procurado por ligação com os atentados a bomba contra as embaixadas em 1998. Salim disse que nunca usou o nome Hemed e não tinha nada a ver com a Al Qaeda ou terrorismo.

As notícias também diziam que Dheere, que morreu em 2012, tinha concordado em caçar os suspeitos, incluindo um homem identificado pela imprensa como sendo Hemed, para a CIA em troca de dinheiro.

Da Somália, a CIA enviou Salim para uma base americana em Djibuti. Ele foi vendado e despido, e um objeto foi inserido em seu reto enquanto os americanos o fotografavam, segundo documentos da Justiça.

Ele então foi enviado ao Afeganistão e levado ao prédio cavernoso, escuro feito breu e fétido, que Salim chama de As Trevas.

Os americanos o levavam rotineiramente de sua cela para uma sala onde, ele disse, o penduravam em correntes, certa vez por dois dias. Eles envolviam seu pescoço em uma coleira e a puxavam para que ele se chocasse contra a parede, ele disse. Eles rasparam sua cabeça, o deitavam em uma lona plástica e despejavam galões de água gelada sobre ele, induzindo uma sensação de afogamento.

"Um sujeito me disse: 'Aqui a chuva não acaba'", lembrou Salim. Vários homens o enrolaram na lona e o chutaram "muitas, muitas vezes", ele acrescentou.

Salim descreveu outras práticas terríveis de seus carcereiros: colocá-lo em uma caixa semelhante a um caixão, com seus braços estendidos e acorrentado, sobre produtos de limpeza; amarrá-lo em uma maca e injetando nele drogas que o deixavam tonto; trazer cães para a sala para ameaçá-lo.

Após 14 meses, em julho de 2004, a CIA entregou Salim para os militares americanos, que o transferiram para a prisão em Bagram, nos arredores de Cabul.

Os militares o mantiveram detido por mais quatro anos. "Eles diziam muitas vezes, 'Nós sabemos que você é inocente'", disse Salim, referindo-se ao pessoal americano na prisão. "E muitas vezes diziam que 'você irá para casa, mas levará tempo'. Mas nada acontecia."

Em agosto de 2008, Salim foi solto. Os militares americanos lhe deram um documento declarando que não havia nenhuma acusação contra ele e que foi "determinado que (ele) não representava nenhuma ameaça às Forças Armadas dos Estados Unidos ou seus interesses no Afeganistão".

Em 2010, foi pedido à dr. Sondra Crosby, da Escola de Medicina da Universidade de Boston, uma médica, reservista da Marinha e especialista em tortura, pela Médicos pelos Direitos Humanos, um grupo de Nova York, que avaliasse Salim.

Ela ficou chocada com o que encontrou. Salim, que tem 1,88 metro, estava magro "como um esqueleto", disse Crosby em uma entrevista. Em sua avaliação, ela escreveu que "ele sofre de estresse profundo, incapacidade de comer e incapacidade de dormir".

"Ele descreve a si mesmo como um fantasma perambulando pela cidade", ela acrescentou. Ela notou outros sintomas: flashbacks, perda de memória de curto e longo prazo, aflição ao ver qualquer pessoa em uniforme militar, desespero em relação ao futuro e forte rejeição a ruído. "Ele informou que sua cabeça parece vazia, como uma caixa vazia", ela disse.

Crosby concluiu que Salim exibia muitos sintomas de transtorno de estresse pós-traumático e forte depressão. Ela escreveu que ele parece "ter sofrido danos físicos e psicológicos severos e duradouros em consequência de sua prisão e encarceramento pelas forças americanas".

Ele agora é um querelante em um processo contra dois prestadores de serviço da CIA que ajudaram a conceber e administrar o brutal programa de interrogatório do qual foi vítima. "Eu quero que as pessoas que fizeram isto sejam julgadas", ele disse.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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