Arábia Saudita, onde até o leite depende do petróleo, luta para reformar sua economia

Nicholas Kulish*

Em Al Kharj (Arábia Saudita)

  • Sergey Ponomarev/The New York Times

    Sala da turbina em uma usina de energia, que queima petróleo cru para produzir eletricidade, na Arábia Saudita

    Sala da turbina em uma usina de energia, que queima petróleo cru para produzir eletricidade, na Arábia Saudita

Isto é o que é necessário para ter um megalaticínio no deserto escaldante aqui: 180 mil vacas Holstein, abrigos resfriados com precisão, água bombeada do subsolo profundo, ração da Argentina e um sistema de refrigeração de primeira linha. Para transportar leite gelado e outros produtos por toda a península Arábica, acrescente 9 mil veículos.

Ninguém menos que o filho preferido do rei Salman, o vice-príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, dirige o laticínio Almarai como um modelo para um país que tenta se livrar da dependência do petróleo. Mas mesmo empresas como a Almarai, sem conexão aparente com o petróleo, dependem da energia barata fornecida pelo reino.

Isso está chegando ao fim. O baixo preço do petróleo e uma guerra cada vez mais cara no Iêmen causaram um grande buraco no orçamento saudita e geraram uma crise que provocou cortes nos gastos públicos, reduções nos salários e benefícios para os funcionários do governo e uma série de novas taxas e multas. Os enormes subsídios para combustível, água e eletricidade, que incentivavam o consumo, estão sendo reduzidos. Para a Almarai, uma das principais marcas do Oriente Médio, isso significará US$ 133 milhões a menos no balanço este ano, segundo diretores da companhia.

O plano de reforma econômica de Mohammed causou tremores em todo o país, cujos cidadãos há muito gozam de um estilo de vida confortável, financiado pelo Estado.

"O governo está avançando muito depressa na reforma de coisas na Arábia Saudita, enquanto a população se vê deixada para trás", disse Lama Alsulaiman, uma empresária e membro da Câmara de Comércio e Indústria de Jidda. "A vida e os negócios não podem mais continuar como eram antes."

Reescrever o contrato social encerra altos riscos para o vice-príncipe da coroa, de 31 anos, que apostou sua reputação na transformação da economia.

"As pessoas estão olhando para ver se ele conseguirá", disse Ibrahim Alnahas, um professor de ciência política na Universidade Rei Saud em Riad, a capital. "Nesse caso, seu futuro será como rei. Se não, seu futuro estará perdido."

Os vastos depósitos subterrâneos de petróleo se infiltraram em quase toda parte da economia saudita. O petróleo cru faz mais que entregar bilhões de dólares em lucros à companhia de petróleo estatal Saudi Aramco e à gigante química Sadic; ele também sustenta setores famintos de energia, como a produção de cimento e a fundição de alumínio.

O deficit orçamentário foi de quase US$ 100 bilhões no ano passado. As reservas estrangeiras do país caíram um quarto desde que os preços do petróleo começaram a cair em 2014. O governo tomou empréstimos de bancos estrangeiros e tentará captar mais no mercado de títulos global.

Os fundos de investimento apostam que o banco central saudita será obrigado a reavaliar sua moeda, o rial. Zach Schreiber, diretor da PointState Capital, que ganhou US$ 1 bilhão apostando na queda do petróleo, disse a investidores em maio que o rial saudita estava "maciçamente supervalorizado" e que o país só tinha "dois ou três anos de pista antes de atingir um muro".

Sergey Ponomarev/The New York Times
Equipamento usado para regular a temperatura dos animais em fazenda de produção de leite

O governo cortou repentinamente projetos de obras, forçando as empreiteiras a demitir trabalhadores. Neste ano, trabalhadores estrangeiros incendiaram ônibus em protestos, exigindo meses de pagamentos atrasados. O salto repentino nas contas de água nesta primavera levou a uma revolta nas redes sociais, e o ministro da água e eletricidade foi demitido depois de dizer aos clientes que cavassem seus próprios poços se não estivessem contentes com os preços.

"Se você é saudita, cresceu com essa expectativa da generosidade financeira que é distribuída", disse Adel Hamaizia, vice-presidente do Fórum de Estudos do Golfo e da Península Arábica em Oxford, Reino Unido. "As coisas provavelmente ficarão mais difíceis para o governo em termos de administrar a frustração da população comum."

O príncipe Mohammed reuniu líderes empresariais, autoridades do governo e até atletas e artistas no luxuoso hotel Ritz-Carlton em Riad no final do ano passado para discutir as metas econômicas que sua equipe estava desenvolvendo. Consultores com tablets se espalharam pelo país para pesquisar os sauditas e determinar até onde o governo poderia cortar subsídios sem provocar protestos.

Após décadas de governos de reis octogenários, alguns jovens sauditas disseram em entrevistas que se sentiram revigorados pelo papel desempenhado por um príncipe da sua geração.

"Os subsídios deveriam ter terminado há muito tempo. As coisas ainda são baratas", disse Salman M. Al Suhaibaney, um empresário saudita, levantando sua bebida para demonstrar. "Esta garrafa de água custa mais caro que a mesma quantidade de gasolina."

Al Suhaibaney criou um aplicativo para guinchos chamado Morni, uma espécie de Uber para assistência mecânica, que inclui conserto de pneus furados, entrega de gasolina e carga em baterias. Sua empresa está em uma incubadora de startups apoiada pelo governo em um edifício de Riad. Com 20 jovens funcionários, a Morni é um modelo do tipo de empresa que o governo, e em particular o príncipe entendido em tecnologia, espera que reanime a força de trabalho.

Mas mais fundos públicos são necessários neste momento para fechar o buraco no orçamento. O governo anunciou planos de mais que triplicar a receita não petrolífera até 2020, começando com aumentos das taxas para vistos, multas mais altas para infrações de trânsito e um imposto sobre bebidas açucaradas.

As autoridades aproveitaram todas as oportunidades de reduzir os custos. Depois de cortar o salário dos ministros, congelar a contratação e reduzir os bônus regulares e as horas-extras de todo o setor público, o governo anunciou na semana passada que os trabalhadores receberão conforme o calendário gregoriano (como nos EUA e na Europa), em vez de pelo calendário islâmico Hijri, um pouco mais curto, acrescentando aproximadamente um dia de trabalho não pago por mês.

"Se seu salário está diminuindo e os custos estão aumentando, alguma coisa tem de ceder", disse Hamaizia, do centro de estudos árabes.

Menos gastos do governo e das empresas e consumidores cada vez mais apertados significa menor crescimento e menos empregos. A única maneira de criar mais empregos para os sauditas em tal ambiente talvez seja livrar-se dos trabalhadores estrangeiros e substituí-los por locais. Essa política, conhecida como "sauditização", é seguida pelo menos desde o início dos anos 1980 e sempre falhou, com o número de trabalhadores estrangeiros inchando de aproximadamente 1 milhão para 10 milhões.

Hoje, porém, o governo está pressionando mais as empresas. Os trabalhadores estrangeiros custam menos, mas o governo aplica multas e se recusa a renovar o visto de estrangeiros se a folha de pagamento das empresas cair abaixo de uma certa porcentagem de sauditas. As metas do reino para aumentar o emprego incluem mais de 450 mil novos empregos no setor privado até 2020.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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