Professor relata desafio de discutir a eleição americana em sala de aula

Julie Bosman

  • Jenn Ackerman/NYT

    Brent Wathke acompanha seus alunos em discussão sobre as eleições nos EUA

    Brent Wathke acompanha seus alunos em discussão sobre as eleições nos EUA

Talvez seja por causa de toda essa conversa sobre preconceito contra gordos, adultério, agressão sexual, proibições contra muçulmanos e muralhas para impedir a entrada de mexicanos. Mas Brent Wathke está tendo dificuldades para falar sobre essa campanha presidencial a seus alunos da sétima série (de 12 a 13 anos).

Ele não pretende mostrar a seus alunos o terceiro debate presidencial que será realizado nesta quarta-feira (19), pois sente que há muito tempo os debates passaram a ser inapropriados. As propagandas na TV, especialmente as da campanha de Hillary Clinton que citam muito Donald Trump, estão repletas de comentários misóginos. Mesmo as charges políticas, que Wathke normalmente gostaria de usar para ensinar a seus alunos sobre a delicada arte da sátira, estão obscenas demais.

"Está uma bagunça completa", disse Wathke, 33, sentado em sua sala de aula na DeLong Middle School em uma manhã da semana passada, perto de um quadro onde ele rabiscou "25 Dias para a Eleição" com o pincel atômico vermelho. "Sinceramente, não vejo a hora de isso acabar."

Wathke é um dos muitos professores de todo o país que se angustiaram com o tom pesado e, às vezes, chocante da campanha presidencial. Assim como muitos, ele procurou formas como falar sobre isso em sala de aula. Alguns professores estão planejando debates simulados antes da eleição; outros, como Wathke, temem que o formato vá incentivar os alunos a adotarem discursos ofensivos.

Seus alunos, a maior parte deles de 12 anos de idade, estão falando sobre a campanha desde o começo do ano. O primeiro grupo de estudantes entrou na sala de aula pouco antes das 7h30, segurando cadernos e fichários, e se sentou em carteiras dispostas em círculos.

"Eu acredito que se Trump for eleito, vai ser tipo 'Jogos Vorazes'", disse Payton Foy, provocando risadinhas nervosas pela sala. "Não estou tentando ser má com o Trump, mas eu realmente acredito nisso."

Outra aluna também falou, dizendo que havia assistido ao segundo debate presidencial. "E aí?", perguntou Wathke. "Foi ruim", ela disse.

Jenn Ackerman/NYT
Donna Xiong: "É um retrocesso avaliar as pessoas pela raça. Não acho nada legal".
Ele fez uma careta. "Não quero proteger vocês disso, mas tem algumas coisas ali que simplesmente não são apropriadas para a escola", ele disse. "Então, vamos nos ater a outras questões hoje."

Wathke passou algumas noites e finais de semana preocupado com o efeito da campanha sobre seus alunos de sétima série. Recentemente em Chicago, onde esteve em um fim de semana para correr sua 13ª maratona (ele também é um dos técnicos de corrida da escola), ele leu a notícia de que um microfone do programa "Access Hollywood" havia captado Trump em um ônibus contando vantagem por agarrar mulheres. Wathke não teve tempo para considerar as possíveis implicações políticas; ele logo pensou na manhã seguinte de segunda-feira. "Tudo que eu conseguia pensar era: 'Como vou abordar isso?'", disse.

Seus alunos disseram que também ficaram em dúvida sobre o que eles poderiam dizer sobre a campanha em sala de aula. "Nós nos autocensuramos bastante", disse Connor Felton, 12. "Acho que se você repetisse algumas das coisas que o Trump diz, você poderia ser mandado para a sala do diretor. Ou até expulso."

Aqui em Eau Claire, um polo de varejo e de manufatura de 68 mil pessoas nesse crucial "swing state" (Estado indeciso que pode decidir o resultado de uma eleição), as crianças e os adolescentes têm maior probabilidade de serem expostos a mais mensagens políticas do que seus equivalentes em outros Estados.

Há propaganda de campanha e placas nas ruas em toda parte; tanto Hillary quanto Trump realizaram comícios na cidade este ano. Wathke diz que fica nervoso quando ouve que seus alunos estão planejando comparecer aos comícios. Nos comícios de Trump, o candidato chegou a usar linguagem chula e tirou sarro de uma repórter com deficiência física. Seus eleitores costumam usar camisetas com frases grosseiras de cunho sexual referindo-se a Hillary.

Na própria sala de aula de Wathke, ele buscou por civilidade. Esse educado nativo de Eau Claire chegou a estudar em DeLong, onde ele hoje leciona na mesma sala de aula onde aprendeu estudos sociais. Agora, essas paredes estão repletas de cartazes de campanha, com anos ou décadas de idade: Bush/Quayle '92, Dole para Presidente, Americanos Irlandeses apoiam Kerry/Edwards.

Este semestre, Wathke e suas cinco classes de estudos sociais têm conversado sobre política —delicadamente— desde agosto. Ele está ensinando seus alunos da sétima série sobre os três poderes do governo, sobre como as democracias funcionam e as diferenças entre republicanos e democratas.

Como ele sente que um debate improvisado é arriscado, ele preparou sua classe para discutir a campanha usando "círculos socráticos", separando os alunos em pequenos grupos. Os alunos se prepararam com fichas, preenchidas antes da aula, respondendo a perguntas levantadas por ele. Quais são as questões mais importantes que o país enfrenta? Qual o papel dos candidatos? Qual candidato daria um presidente melhor?

No começo de uma das discussões, ele deu um aviso. "Vamos falar sobre alguns tópicos hoje que podem se tornar meio complicados e um pouco polêmicos", ele disse. "Mas queremos nos certificar de que estamos sendo respeitosos uns com os outros e não estamos magoando os sentimentos do outro. Lembram-se de quando assistimos parte desse debate? E que tinha uma coisa que era a mais irritante de todas? As interrupções. Não queremos interrupções hoje aqui."

Jenn Ackerman/NYT
Connor Felton: "Acho que se você repetisse algumas das coisas que o Trump diz, você poderia ser até expulso da escola".
No final de uma das discussões, Wathke parecia aliviado. "Quero dizer que vocês se saíram muito bem", ele disse. "Vocês evitaram os memes que veem nas mídias sociais. Vocês se ativeram às questões."

Sua abordagem foi de proceder com cautela e deixar que os alunos movimentassem sua própria discussão. Caso a conversa em sala de aula começasse a ficar inapropriada, ele interviria.

"A campanha está estragando muitas classes", disse Wathke. "Você tem crianças dizendo, 'Precisamos de um muro para impedir a entrada de mexicanos'. Bem, o que você faz se há crianças mexicanas na classe?"

Esse tipo de conversa na campanha desperta raiva em alguns de seus alunos. "É um retrocesso avaliar as pessoas pela raça", disse Donna Xiong, 12. "Não acho nada legal. Se eu for expulsa de uma loja por ser asiática ou por causa da cor da minha pele, isso não está certo."

Gabriel Morken, 12, disse que acredita que o movimento Black Lives Matter foi uma das questões mais importantes. "Donald Trump acha que é muito ruim", ele disse. "Hillary quer que todos sejam iguais e tal."

DeLong tem um histórico na realização de eleições de mentira, e até onde todos conseguem se lembrar, talvez há mais de 20 anos, os alunos escolheram o candidato que posteriormente venceu a eleição presidencial. Este ano, a eleição de mentira será no dia 8 de novembro.

Depois que um grupo de seus alunos saiu da sala, Wathke disse que ele nunca sabe exatamente o quanto das notícias de campanha eles absorveram no YouTube e no Snapchat, onde eles passam tanto tempo. Ele presume que eles veem tudo.

Algumas semanas atrás, ele decidiu mostrar a eles um debate de 2012 entre Romney e Obama, para comparação. "Achei que fosse mostrar a eles como um debate típico seria", ele disse. "A primeira reação foi: 'Meio chato, isso'."

Tradutor: UOL

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