Como Trump hackeou a política externa americana a seu favor

Max Fisher e Amanda Taub

  • Mike Segar/ Reuters

As propostas de política externa de Donald Trump, como forçar o México a pagar por um muro na fronteira ou a saída dos Estados Unidos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, uma aliança militar do Ocidente), provocaram condenações sem precedente como sendo incoerentes, contraditórias e irrealistas.

Mas apesar de todas as vaias que provocam entre os especialistas, elas com frequência são aplaudidas em seus comícios.

Os estudiosos da política americana dizem que isso se deve a Trump, o candidato presidencial republicano, estar usando as questões internacionais como forma de se conectar aos medos e desejos viscerais dos eleitores, uma abordagem que funciona precisamente por sua agenda externa estar muito fora das posições tradicionais.

Uma análise da abordagem dele a esses assuntos diz muito sobre a ascensão improvável de Trump. Estudos mostram que a maioria dos eleitores coloca as questões externas na parte inferior de suas listas de preocupações, mas dão ouvidos e usam essas questões como uma janela para julgar os valores e ideologia dos candidatos.

Trump tem explorado essa dinâmica, oferecendo ideias que os especialistas consideram inviáveis, mas que exploram o desejo de alguns eleitores por um líder de pulso forte. A política externa, sugerem alguns especialistas, proporciona um meio ideal para essa mensagem.

Geralmente, os candidatos não podem chegar ao palco nacional sem primeiro provarem sua adequação a certas instituições que se importam profundamente com a política externa: a mídia que os seleciona, os partidos que lhes fornecem apoio crucial, os autores de políticas dos quais precisarão quando assumirem o cargo.

Como a política externa é tão complexa e a maioria dos eleitores não acompanha seus detalhes em particular tão atentamente quanto nas questões domésticas, essas instituições exercem um papel maior do que o normal na moldagem dos limites do debate aceitável.

Mas Trump, uma celebridade que em grande parte financiou do próprio bolso sua campanha nas primárias, conseguiu contornar esse processo, hackeando a política envolvida na política externa a seu favor, e de formas que podem durar além de sua candidatura.

Uma política externa que não se trata de política externa

Em um mundo perfeito, cada eleitor dedicaria meses de estudo às complexidades dos principais conflitos mundiais, avaliaria as opiniões disponíveis e então determinaria o plano de qual candidato melhor equilibraria riscos e resultados.

Mas no mundo em que vivemos, os eleitores escolhem em quem acreditar com base na mensagem que sentem ser a mais verdadeira.

"Temos evidências esmagadoras de que os eleitores não sabem muito sobre os detalhes da política externa", explicou Elizabeth N. Saunders, uma cientista política da Universidade George Washington.

"As pessoas tendem a escolher primeiro o candidato que gostam" e depois adotam os pontos de vista do candidato como sendo delas, ela acrescentou. "É assim que as pessoas tentam entender um mundo complicado."

Todos os candidatos tentam embalar suas políticas em valores mais simples, como força e inclusividade, ou histórias de heróis e vilões, disse Saunders, "como forma de elaborar uma narrativa que os eleitores que não acompanham os detalhes possam entender".

Isso é especialmente verdadeiro na política externa, ela disse, por ser muito complexa.

Trump parece ter revertido esse processo, começando com a narrativa e valores que deseja transmitir, e então desenvolvendo políticas para maximizar o efeito de sua mensagem.

Como a política externa exige trocas difíceis, os candidatos convencionais ficam limitados a quanto emocionalmente atraentes podem tornar seus planos, os mantendo ao mesmo tempo viáveis. Eles também precisam apaziguar os especialistas em política externa ou membros de partido dos quais esses candidatos dependem para serem eleitos e, posteriormente, governar. Mas Trump não enfrentou essas restrições.

O resultado: a política externa de Trump não é uma política externa, mas sim uma forma de atrair os eleitores em um nível puramente emocional.

O mundo segundo Trump

Isso explica como Trump obteve apoio, por exemplo, com as ameaças de sair da Otan, apesar dos eleitores terem expressado pouco interesse em renegociar a aliança e os profissionais de política externa terem alertado que isso seria um desastre.

Paul Musgrave, um professor de ciência política da Universidade de Massachusetts, resumiu a mensagem de Trump: "A Otan exige cooperação. Cooperação é algo que você faz se é fraco. Se você é forte, as pessoas seguem você".

Como política, isso é dúbio. Mas é uma forma poderosa de Trump se apresentar como alguém que tratará os forasteiros com suspeita e buscará ganhos econômicos impiedosamente. É uma mensagem envolta em política externa, mas que busca explorar preocupações domésticas.

Colin Dueck, um professor da Universidade George Mason, escreveu em um recente artigo que a visão de mundo de Trump exige e oferece "uma espécie de Fortaleza da América, ou talvez uma imensa comunidade fechada, separada dos riscos transnacionais de toda espécie por uma série de muros".

Para os eleitores que "se sentem deslocados pelas tendências de longo prazo da globalização cultural e econômica", escreveu Dueck, as políticas de Trump prometem "segurança, separação e reafirmação do controle".

Durante as primárias republicanas, por exemplo, Trump alarmou as pessoas de fora de sua base cada vez maior com propostas de matar as famílias de terroristas e elogiando o presidente da Rússia, Vladimir Putin, assim como a repressão de 1989 pela China na Praça Tiananmen.

Mas para seus simpatizantes, essas e outras declarações sugerem que podem confiar que Trump imporá a ordem no caos que veem em um mundo em rápida mudança.

Como os eleitores americanos há muito abordam as questões internacionais como uma forma de julgar os valores dos candidatos presidenciais, eles estão dispostos a ignorar os detalhes específicos. Assim, a política externa se torna um meio poderoso para Trump se conectar com seus eleitores.

Quando Trump alerta que os Estados Unidos estão sendo enganados pelo acordo nuclear do Irã ou pelo Acordo de Livre Comércio da América do Norte, ele fala diretamente a um sentimento entre muitos americanos de que foram vendidos por elites não confiáveis, que o jogo está manipulado contra eles.

E quando Trump promete forçar o México a pagar por um muro gigante na fronteira ou alerta que embarcações iranianas serão "afundadas" se seus marinheiros "gesticularem" para marinheiros americanos, ele está comunicando que entende que seus eleitores se sentem com medo e humilhados, e que punirá os responsáveis.

Prometendo ordem

Essa mensagem repercute com um público surpreendente grande, mas de onde saiu esse eleitorado aparentemente novo?

Pesquisa publicada recentemente por um grupo de cientistas sociais, liderado por Brian C. Rathbun, da Universidade do Sul da Califórnia, sugere uma resposta: Trump tem explorado o que os acadêmicos chamam de valores conservadores.

As pessoas que mantêm esses valores priorizam segurança, conformidade e tradição. Elas também tendem a temer ameaças físicas e pessoas que consideram forasteiras, independente de isso significar serem estrangeiras ou de diferentes raças ou religiões. E com frequência expressam esses valores na forma de um conjunto particular de posições "linhas-duras" de política externa.

Essa posição linha dura é muito diferente da de neoconservadores como o presidente George W. Bush ou de democratas intervencionistas como Clinton. Ela é caracterizada pelo desejo de se isolar do mundo, promover impiedosamente os interesses americanos, rejeitar a cooperação e responder a ameaças com força esmagadora.

O trabalho, apesar de produzido antes da ascensão de Trump, detalha a visão de mundo que ele passou a defender em detalhes surpreendentes.

A desconfiança da cooperação aparece na defesa de Trump da redução das alianças da Europa até a Ásia. O instinto de impor a ordem à força aparece em suas propostas de violência incontida contra o Estado Islâmico. E o nacionalismo "a América em primeiro lugar" pode ser visto em sua exigência de que os Estados Unidos se apossem do petróleo do Iraque.

Os eleitores com valores conservadores são atraídos por essas políticas não por um interesse repentino nos assuntos globais, mas como forma de expressar seu medo de mudanças e o desejo por ordem em casa, apontaram os pesquisadores. Eles desejam um líder forte que "nos" proteja contra os cada vez mais ameaçadores "eles".

Trump, ao redirecionar a ansiedade dos eleitores com as mudanças demográficas, culturais e econômicas para a política externa, dá aos seus simpatizantes uma conjunto mais claro de vilões e a promessa de fazer o que for necessário para derrotá-los.

Os simpatizantes não ouvem basicamente uma agenda política, mas uma promessa: a de que Trump entende seus temores e os protegerá.

Trump poderá nunca ter a chance de testar a afirmação dos especialistas de que suas propostas de política externa são inviáveis. Mas o eleitorado que ele trouxe à tona e para o qual voltou essas políticas pode vir a exigi-las de futuros candidatos, com o risco de uma repetição da dinâmica da campanha deste ano de colocar o establishment do partido contra sua base.

Saunders, da Universidade George Washington, apontou que os líderes republicanos e os eleitores republicanos divergem em política externa desde a invasão ao Iraque em 2003 por Bush.

O legado de Trump, ela disse, pode ser a ampliação dessa divergência.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos