Furacão coloca de joelhos um senhor da guerra no Haiti

Azam Ahmed

Em Pestel (Haiti)

  • Meridith Kohut/The New York Times

    Guy Philippe, um dos mais temidos senhores da guerra no Haiti, em sua cidade natal Pestel

    Guy Philippe, um dos mais temidos senhores da guerra no Haiti, em sua cidade natal Pestel

Guy Philippe está entre os homens mais temidos no Haiti, uma nação com uma rica história de homens dignos de serem temidos.

A Administração de Combate às Drogas (DEA, na sigla em inglês) dos Estados Unidos está atrás dele por tráfico de drogas; o governo haitiano pela morte de policiais. Ele liderou uma rebelião armada que derrubou um presidente e sobreviveu, segundo suas contas, a sete tentativas de assassinato. Em seu reduto na costa rochosa do sudoeste do Haiti, ele tem evitado a captura há quase uma década.

Agora, o furacão Matthew fez o que nem o governo e nem as forças armadas conseguiram: deixar o comandante fora-da-lei de joelhos.

"Não gosto de implorar, mas desta vez preciso", disse Philippe, conduzindo uma visita à devastação causada em sua cidade natal, Pestel, uma área de cerca de 80 mil habitantes abrigada em uma fortaleza natural de montanhas escarpadas. "Pela primeira vez na minha vida sinto que não posso fazer nada pelo meu povo. Eles estão passando fome."

Como grande parte da península sul do país, a cidade natal de Philippe está se contorcendo sob o peso do desastre. Virtualmente nenhuma casa foi poupada de danos na visita de uma hora à cidade, nenhuma árvore foi deixada intacta pelo vento. O furacão arrancou as plantações de quase todas as fazendas nas montanhas sob seu controle, roubando de 80% da população sua principal fonte de alimentos.

Os aldeões caminham por horas até a cidade mais próxima à procura de alimentos básicos. Os preços dispararam, esvaziando os bolsos daqueles com menos recursos, forçando alguns a apelarem ao banditismo para atenderem suas necessidades.

"Como podemos viver assim?", disse Philippe, que parece uma década mais jovem do que seus 48 anos. "Não podemos ter um país assim, onde 80% das pessoas vivem na miséria."

Apesar de ajuda já ter chegado a muitas áreas no sul do Haiti, especialmente às cidades grandes, os cantos remotos têm recebido pouco apoio dos comboios de caminhões repletos de alimentos e medicamentos que vêm e vão pela estrada.

Segundo especialistas, isso é o que geralmente acontece no início dos esforços de recuperação.

Meridith Kohut/The New York Times
Propaganda eleitoral de Guy Philippe em um muro em Pestel, Haiti

Mas Philippe tem outra teoria para o motivo de sua cidade ter sido excluída da ajuda internacional e do governo, apesar de ser o segundo maior centro populacional no departamento de Grand Anse. "Eles estão punindo as pessoas por minha causa", ele disse em inglês perfeito, uma das quatro línguas que fala.

Mas a fome, ele disse, deveria estar além da política. Se fizesse a diferença, se fizesse os grupos de ajuda humanitária e outros se sentirem mais seguros, ele disse, ele deixaria a área. "Se for de ajuda, eu vou para a prisão para que as pessoas possam comer aqui", ele disse. "Ou vou embora por quanto tempo for necessário."

"Apenas tragam a comida para cá", ele disse.

A animosidade de Philippe com o atual governo interino é conhecida. Em 2004, ele ajudou a derrubar o presidente Jean-Bertrand Aristide. Hoje, o ex-ministro do Interior de Aristide, Jocelerme Privert, que foi derrotado pelas forças de Philippe, é o presidente interino do Haiti.

Em uma nação tão pequena quanto o Haiti, o círculo de poder é íntimo. Philippe, que já foi um alto oficial de polícia, conta com inimigos ou aliados entre a maioria no poder. "A maioria deles lutou como se quisesse viver mil anos", ele disse.

Meridith Kohut/The New York Times
Guy Philippe (centro) ouve moradores que pedem ajuda em Pestel

Dada sua reputação e seu grande número de apoiadores armados, Philippe poderia facilmente tomar a ajuda que passa por Grand Anse. Mas ele sabe que isso apenas o isolaria ainda mais da legitimidade que busca.

"Eles ligariam para a rádio local 10 minutos depois para denunciar Guy Philippe como bandido", ele disse. "E, no final, seria pior para meu povo."

Além disso, ele tem uma campanha política para considerar. Philippe está concorrendo a uma cadeira no Senado, uma eleição que já foi adiada por mais de um ano enquanto a discórdia política do país semeia a inquietação.

Ele disse estar confiante da vitória, dada sua popularidade no departamento. "Mesmo se eu morresse, eu venceria", ele disse rindo.

Philippe nasceu em Pestel de uma família com ligações políticas que chegavam até o presidente na época, Jean-Claude Duvalier. Ele frequentou as melhores escolas no Haiti antes de partir para estudar no exterior, no México e Equador.

Sua educação o colocou nos altos escalões da polícia nacional, antes de ser forçado a fugir do país por combatentes leais a Aristide, que alegavam que ele estava planejando um golpe. Ele voltou ao país em 2003 para liderar sua rebelião.

Mas após ajudar a depor Aristide, ele não encontrou paz. Perseguido por acusações de abusos de direitos humanos, incluindo execuções extrajudiciais quando era comandante da polícia, ele se estabeleceu com sua família em Les Cayes. Então, em 2007, as autoridades tentaram prendê-lo. Ele escapou por pouco.

Depois disso, ele voltou para casa em Pestel para ficar seguro. É impossível entrar ou sair da cidade sem ser detectado pelas forças leais a ele.

Hoje, ele é um poder incontestável na cidade e, de forma mais ampla, em Grand Anse, onde os moradores saem correndo de suas casas para recebê-lo e chamá-lo de "senador" ou "comandante".

Philippe, cujo rosto quase sempre é sorridente, tem uma tendência de transformar a maioria das coisas em piada. Ele ri da totalidade do desastre em Pestel porque, ele argumenta, já há tristeza demais.

Ele apontou para o outro lado da enseada no centro da cidade, para a devastação de casas destruídas e árvores arrancadas. No extremo oposto se encontrava a igreja, com suas paredes desmoronadas e o telhado aberto como uma tampa de uma lata.

"Onde estava Deus quando isso aconteceu?", ele perguntou. "Talvez estivesse dormindo."

Casas, árvores e pertences de vidas viradas de cabeça para baixo disputavam espaço na rua. Sem ter onde jogar as coisas fora, muito é queimado, e o ar está repleto de fumaça densa e acre. A cidade está tingida de vermelho devido ao solo rico em argila soprado pela tempestade.

No alto da montanha está pior, ele disse, com sua frustração se transformando em discurso de campanha. "Como é possível que 5% da população conte com 95% da riqueza?", ele perguntou.

Declarações como essa tendem a provocar o temor de um potencial retorno do senhor da guerra, um apoiado em uma mensagem populista de igualdade. Por ora, entretanto, ele diz estar mais focado na fome.

Meridith Kohut/The New York Times
Funcionários separam arroz como parte do esforço para atender vítimas atingidas pela passagem do furacão

Por meio de um contato, ele conseguiu receber uma carga de ajuda da Alimento para os Pobres, um grupo de ajuda humanitária. No domingo, ele montou uma equipe para distribuição dos alimentos: algumas poucas centenas de sacos de arroz e feijão, leite, água e cereais matinais.

Mais de 1.000 pessoas já faziam fila às 6 horas da manhã de domingo, disputando um lugar enquanto dezenas de homens jovens usando aventais de enfermeiros orquestravam a distribuição.

"Eu contrato os durões da comunidade para fazer isso", disse Philippe, observando em meio à multidão. "Eles fazem um bom trabalho e ninguém se mete com eles."

E como ele consegue fazer com que os jovens mais durões da cidade trabalhem de modo voluntário para ele? Philippe sorriu e bateu com o punho na palma da outra mão.

"Eles sabem", ele riu.

Mesmo assim, não demorou para a multidão ficar indisciplinada, com sua fome falando mais alto do que a ordem estabelecida. As pessoas começaram a abordar Philippe, implorando por ajuda.

De volta ao seu hotel, uma fila de sete aldeões esfarrapados se formou à procura de comida. Eles partiram da aldeia de Corail de barco à meia-noite, remando por 10 horas em um mar sem vento.

Philippe perguntou quanto custavam os sacos de arroz, então tirou 500 dólares haitianos de seu bolso, o suficiente para três sacos grandes.

"Digam às pessoas que estou fazendo o máximo para ajudar", ele lhes disse.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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