Enquanto avançam até Mosul, curdos libertam vilarejos e se queixam da falta de apoio dos EUA

Michael R. Gordon*

Perto de Narawan (Iraque)

  • Azad Lashkari/Reuters

Os sons da batalha ao norte de Mosul contavam a história de como os combatentes do Estado Islâmico decidiram enfrentar um novo ataque dos curdos: explosões de carros-bomba suicidas e minas terrestres.

Com os rostos sérios, um grupo de soldados curdos se deslocou ao encontro das ambulâncias e caminhonetes carregadas de armas, que traziam as baixas da guerra ao meio-dia.

O sangue manchou a areia perto da área de ajuda na linha de frente, e um helicóptero de evacuação médica pousou na estrada de Dohuk, pronto para levar os feridos mais graves para tratamento. Um combatente curdo estava tão desesperado para passar com seu companheiro ferido pelo congestionamento de veículos militares que começou a disparar tiros ao ar.

A campanha para expulsar o Estado Islâmico de Mosul tem incluído avanços em diversas frentes das forças contraterroristas iraquianas treinadas pelos americanos --que chegaram à cidade de Bartella, a menos de 16 km a leste de Mosul--e dos peshmerga. E pela primeira vez um soldado americano estava entre os mortos.

O Pentágono disse que um militar dos EUA foi morto em uma explosão de bomba enquanto apoiava o avanço de forças iraquianas. Foi a quarta vez que membros do serviço americano foram mortos no Iraque no último ano.

Ao norte de Mosul, milhares de combatentes curdos abriam uma nova frente, com a missão de proteger 27 aldeias e avançar em três grupos principais a partir das aldeias de Bashiqa, Narawan e Tel Iskuf.

Comandantes disseram que o EI reagiu fortemente ao ataque, conduzindo veículos-bomba contra os curdos e lutando por cada aldeia no caminho.

"O EI ainda está nos vilarejos e vai resistir mais", disse um comandante, o brigadeiro-general Ismail Kamal. "Eles não estão em grande número, mas são um grupo ideológico e pretendem explodir a si mesmos e morrer. Esse é o nosso problema."

Antes do amanhecer, o apoio aéreo dos EUA começou a abrandar a resistência. Um avião AC-130 das Operações Especiais dos EUA circulava no céu, e ouviam-se fortes explosões à distância.

Mas também havia sinais de que o EI esperava esse ataque.

Um jovem combatente curdo disse que teve contato com os moradores de sua aldeia, Fazeliya, uma das que os peshmerga pretendiam cercar e libertar. Segundo ele, militantes do EI tentavam assustar os moradores para que não ajudassem o ataque curdo e tomaram como reféns 16 homens cujos parentes servem com os peshmerga. Os reféns seriam mortos se os peshmerga atacassem, advertiu o EI.

Enquanto forças curdas se deslocavam sobre uma elevação que domina a aldeia, no início da manhã, surgiu um repentino tiroteio de rifles de assalto, que rapidamente cresceu. Foi uma fuzilada de intensidade incomum, mas não uma emboscada: eram os curdos disparando seus rifles em círculos para o ar, tentando abater um drone de vigilância do EI. Após um minuto a aeronave caiu.

Depois de fazer um corte no barranco de areia que serviu de fronteira fortificada curda com o território do EI nos últimos dois anos, uma coluna de tanques, veículos blindados e SUVs dos peshmerga avançou. A princípio, a movimentação foi animada; vários soldados curdos tiraram "selfies" sobre o barranco.

A bandeira curda foi levantada em Nawaran, a primeira aldeia, mas na cidade seguinte, Borima, a resistência foi muito mais dura. Depois de vários tiroteios, os curdos mobilizaram uma tremenda barragem de artilharia para tentar abrir caminho.

À distância, um drama mais sangrento se desenrolava. Uma dupla de carros-bomba suicidas se atirou sobre os combatentes curdos de Fazeliya. Os peshmerga dispararam contra eles, mas pelo menos uma das caminhonetes chegou perto o suficiente para que sua explosão ferisse vários peshmerga, arrancando as pernas de um deles.

Os curdos disseram que tinham interceptado comunicações em que comandantes do EI exortavam seus combatentes a resistir até a morte. Com frequência, os militantes se escondiam até que os peshmerga entrassem em uma cidade para libertá-la, e de repente irrompiam de seus esconderijos para atacar os curdos com tiros ou cinturões explosivos.

Incrédulos diante da aparente capacidade dos combatentes do EI de surgir do nada, alguns peshmerga se perguntavam se eles haviam cavado túneis que ligavam as aldeias.

Por isso, a vasta maioria das baixas curdas foram consequência de dispositivos explosivos improvisados --IED na sigla em inglês, que os curdos chamam de TNT-- e carros-bomba, segundo os comandantes.

Os peshmerga não divulgam oficialmente sua lista de baixas. Mas entre os comandantes e soldados se espalhou a notícia sobre a contagem: cerca de uma dúzia de peshmerga foram mortos e muitos outros, feridos.

Conforme crescia a frustração pela operação, uma autoridade curda se queixou de que os americanos não haviam fornecido tantos ataques aéreos quanto os peshmerga esperavam, uma crítica que pode refletir a necessidade de fornecer simultaneamente cobertura aérea para o ataque do serviço de contraterrorismo iraquiano.

"Não nos deram nada parecido com o que prometeram", disse a autoridade curda, que manteve o anonimato para discutir deliberações internas.

O coronel americano John I. Dorrian, porta-voz da coalizão liderada pelos EUA, insistiu que continuará operando com os iraquianos e os curdos. "O poder aéreo da coalizão certamente está em demanda, e tentamos fornecer fogos de maneira apropriada quando solicitados", disse ele. "Diante do tamanho e do âmbito da operação para libertar Mosul, pode haver ocasiões em que não conseguimos suprir plenamente a demanda tão rapidamente quanto gostariam as forças em terra."

Um fotógrafo de "The New York Times", Bryan Denton, estava entre os feridos por um veículo-bomba que explodiu perto de uma unidade da força de contraterrorismo do Iraque a leste de Mosul, na quinta-feira. Ele foi levado a um hospital no Curdistão iraquiano com cortes e hematomas, e estava em boas condições.

No início do dia, o primeiro-ministro iraquiano, Haider al Abadi, estava otimista sobre a ofensiva ao falar por link de vídeo com um grupo de diplomatas em Paris que discutiam o futuro de Mosul. Ele disse aos oficiais que a força de ataque --formada por forças de segurança iraquianas, milicianos xiitas e sunitas e forças curdas-- estava avançando na direção de Mosul "mais rapidamente do que pensamos e mais rapidamente do que tínhamos programado".

Mas no campo de batalha o avanço dos peshmerga havia desacelerado. Kamal disse que mais dois ou três dias poderiam ser necessários para libertar as aldeias, mas à noite, quando o resultado do dia começou a ficar claro, o clima entre os peshmerga parecia mais sombrio do que comemorativo.

* Michael Gordon, correspondente militar de "The New York Times", está com forças curdas peshmerga no Iraque na abordagem pelo norte a Mosul. Kamil Kakol colaborou na reportagem

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos