Opinião: Vestir-se de palhaço está em alta e tem tudo a ver com moda

Vanessa Friedman

  • Scott Olson/Getty Images/AFP

    Máscaras de palhaços assustadores são vendidas em loja de fantasias em Chicago, EUA

    Máscaras de palhaços assustadores são vendidas em loja de fantasias em Chicago, EUA

A essa altura todos já devem saber da tendência/fenômeno/onda de palhaços sinistros que tem se disseminado pelo mundo desde que começou em Greenville, na Carolina do Sul, no mês de agosto. Ela se espalhou para o Canadá, Reino Unido, Alemanha e Austrália, criando uma crise de imagem existencial não somente para aqueles que veem seu trabalho como algo que traz risadas e diversão para o mundo, como também entre aqueles que estão tentando comprar fantasias para o Halloween.

O condado de Kemper, no Mississippi, tornou ilegal que qualquer um "apareça em público usando fantasia de palhaço, máscara de palhaço ou maquiagem de palhaço" até o dia após o Halloween, de acordo com o jornal local; Ronald McDonald ficará fora de cena temporariamente.

Lojas como a Target decidiram parar de vender máscaras assustadoras de palhaço (suas fantasias infantis de palhaço e trajes de palhaços felizes ainda estão disponíveis), enquanto outras, como a Halloween Express, relataram um aumento enorme na demanda por fantasias de Bozo macabro. Seja como for, quando chegar a próxima segunda-feira, todos estarão no auge do alerta para palhaços.

O fato é que se vestir como palhaço esses dias é uma questão controversa.

Mas, para além das lojas de fantasia e do Halloween, o que isso significa exatamente? E será que isso deveria fazer com que pensássemos duas vezes sobre como nos vestimos, ou pelo menos sobre como falamos sobre como nos vestimos?

Os pais disseram durante anos a frase chavão "você parece um palhaço" para as crianças, em geral uma referência às roupas que os filhos adotam e são consideradas bizarras pelos pais.

Donald Trump foi rotulado de "palhaço triste" (pela "The Week"), de "palhaço da classe" (pela "Wonkette") e de "palhaço depravado" (por Michael Steel, o estrategista republican).

A modelo Lily Cole foi manchete do "The Daily Mail" por usar "calças de palhaço" (por serem folgadas e listradas de azul, vermelho, amarelo e turquesa).

Embora a maior parte dos palhaços sinistros citados nos noticiários estivessem usando perucas de palhaço genéricas, com rosto branco e uma maquiagem exagerada de Coringa (e poderiam estar usando ou não roupa de palhaço), as roupas associadas aos palhaços na verdade são uma parte básica do vocabulário da moda, ainda que as pessoas não percebam. E, na maior parte das vezes, é o lado mais sinistro do estilo que seduz. Palhaços assustadores estiveram na moda muito antes de virarem notícia.

Não estou falando aqui sobre o "palhaço fashion", um termo que entrou para o Urban Dictionary (dicionário de gírias) e define uma "pessoa que é pateticamente sem noção e desesperadamente fútil, mas tenta usar diversas associações com a moda apoiando movimentos da moda e tendo produtos descolados, para convencer a sociedade (e a si mesma) de que é culta, inteligente, criativa e em geral uma pessoa cosmopolita."

Na verdade estou falando sobre o fato de que, mesmo para além dos elementos de beleza, a semiologia essencial da fantasia clássica de palhaço --desde a gola do Pierrô e o xadrez do Arlequim da commedia dell'arte até as calças largas mais genéricas e a mistura de estampas e cores tanto de Chuckles (palhaço do programa de Mary Tyler Moore) quanto de seu gêmeo malvado, o Chucky-- também está, por acaso, entre os elementos essenciais da inspiração da maior parte dos estilistas.

Na verdade, não se parecer com um palhaço não é tão fácil assim.

Se estiver duvidando, é só passear os olhos pela história recente da moda. Alexander McQueen pescou do mundo dos palhaços vitorianos deprimidos para sua coleção do outono de 2001, colocando os vestidos de renda e tule em tiras de Miss Havisham junto de ternos desconstruídos em seu carrossel da moda.

Sua coleção de outono de 2009 trouxe lábios sensuais e enormes pintados de vermelho-sangue inspirados em "palhaços, divas e no Pierrô, com um toque de Joan Crawford", como disse o maquiador Peter Philips na época.

Em 2006, Gareth Pugh fez sua estreia solo na passarela com um desfile surreal de casacos e collants de losangos pretos e dourados, golas franzidas e penteados de pompons.

Para seu desfile do outono de 2007, em homenagem ao 60º aniversário de Dior, John Galliano incluiu uma réplica viva do "Jovem Arlequim" de Picasso, usando um traje de cetim pastel, peplum e gola franzida cor de pêssego.

Em 2011, Bill Gaytten, substituindo Galliano, que na época caiu em desgraça e foi demitido, revisitou a ideia e fechou sua primeira coleção para a Dior com Karlie Kloss com um pierrô de olhar furioso trajando um vestido lilás de confete e, sim, mais uma gola franzida.

Então, quando voltou para a moda em 2015, Galliano também voltou aos palhaços, usando uma maquiagem extravagante e caricatural em sua primeira coleção prêt-à-porter para a Maison Margiela.

Pouco depois, a "Vogue" britânica declarou que as "calças de palhaço" eram uma tendência genuína, como defendeu Olivier Rousteing da Balmain. E somente alguns meses depois, Jun Takahashi usou golas franzidas, cores suaves e roupas de apresentador de circo como significantes uniformes de um novo tipo de insurreição em seu desfile para a Undercover no Cirque d'Hiver Bouglione (não por acaso um dos lugares preferidos de McQueen).

Por fim --pelo menos por enquanto-- Riccardo Tisci usou e abusou de listras e bolinhas e espirais (e meias de cano curto) no começo deste mês para a coleção de primavera de 2017 da Givenchy.

Então de fato não é de se surpreender que, no meio disso tudo, a "Refinery29" tenha feito um editorial chamado "Por que é tão cool parecer um palhaço". As referências eram tão onipresentes que a revista "Paper" batizou o movimento de "clowncore".

É passível de discussão se os estilos resultantes são assustadores ou bobos, ou se o que em geral era visto como bobo antes agora será considerado assustador (e o julgamento provavelmente está nos olhos de quem vê). Mas não se pode negar a associação entre os dois ou os pontos de referência subliminares.

E, não importa o quanto todos possam querer, não é possível de fato dissociá-los. Porque a razão para a atração é simples: moda e palhaços compartilham de um DNA em comum, que tem a ver com exagero e justaposições inesperadas e descontextualização.

Ambos usam roupas para assustar e divertir, e ambos entendem sua capacidade de solapar expectativas; eles exploram isso para exigir uma reavaliação do ordinário.

Para ambos tem a ver com sair do convencional, o que é uma ideia assustadora para muitos, mesmo sem levar em conta os acontecimentos recentes. Mas também há poder nessa provocação.

Gostosura ou travessura?

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos