Cai votação antecipada de eleitores negros, um mau presságio para Hillary Clinton

Jeremy W. Peters, Richard Fausset e Michael Wines

  • Travis Dove/The New York Times

    Eleitores fazem fila para votar antecipadamente em Wake County, na Carolina do Norte

    Eleitores fazem fila para votar antecipadamente em Wake County, na Carolina do Norte

Os afro-americanos não estão votando nos mesmos níveis de quatro anos atrás em vários Estados que poderiam ajudar a decidir a eleição presidencial, criando um problema urgente para Hillary Clinton, cuja vantagem em relação a Donald Trump se deteriora uma semana antes da eleição.

Enquanto dezenas de milhões de americanos votam na que será a maior mobilização de eleitores antecipados em uma eleição presidencial, os números começam a apontar uma queda que muitos democratas temiam ver se materializar sem a presença do primeiro presidente negro do país na chapa.

Os motivos desse declínio parecem ser ao mesmo tempo políticos e logísticos, como o menor entusiasmo dos eleitores e empecilhos recém-aprovados ao voto.

Na Carolina do Norte, onde um tribunal federal de apelações acusou os republicanos de um ataque "quase cirúrgico" à votação negra e conselhos eleitorais dirigidos por republicanos limitaram os locais de votação antecipada, o comparecimento negro caiu 16%. O branco, porém, aumentou 15%. Os democratas estão planejando um empurrão final agressivo, incluindo uma visita do presidente Barack Obama ao Estado na quarta-feira (2).

Mas na Flórida, que prorrogou a votação antecipada depois que longas filas fizeram eleitores esperar durante horas em 2012, a parcela afro-americana do eleitorado que foi pessoalmente às urnas até agora diminuiu, de 25% há quatro anos para 15%.

Os problemas dos democratas não terminam aí. Em Ohio, que também reduziu sua votação prévia, a participação dos eleitores nas áreas fortemente democratas perto de Cleveland, Columbus e Toledo diminuiu, apesar de a campanha de Hillary ter dito que foi incentivada por um dia movimentado no domingo, quando igrejas afro-americanas fizeram apelos aos eleitores em todo o Estado.

O comparecimento negro até agora poderia antecipar um problema maior e mais difícil para Hillary e o Partido Democrata enquanto repensam seu lugar em uma era pós-Obama. Uma das maiores incertezas que os democratas foram obrigados a enfrentar nesta eleição é se a ausência de Obama na chapa reduziria o entusiasmo negro, que esteve em níveis históricos em 2008 e 2012 e dificilmente se repetiria, mesmo nas melhores circunstâncias.

A campanha de Hillary acredita que possa fechar a brecha, especialmente na Carolina do Norte e na Flórida, até o dia da eleição. E os democratas estão vendo ganhos substanciais no comparecimento de outros eleitorados chaves, como os hispânicos e as mulheres com educação superior, que têm o potencial de mais que compensar qualquer queda na votação negra.

Mas esta eleição poderá determinar se o nível de participação entre os negros da era Obama é sustentável. Também poderá mostrar que o Partido Democrata, que se beneficiou enormemente das mudanças populacionais que deixaram o país mais diversificado, está enfrentando seu próprio julgamento demográfico.

"Tivemos eleições seguidas neste país de alto comparecimento, em que os eleitores negros definiram o ritmo, e será realmente interessante ver se isso continua depois de Obama", disse Cornell Belcher, um pesquisador democrata e autor de "Um Negro na Casa Branca" [tradução livre], que se baseia em sua pesquisa de eleitores nos últimos oito anos para examinar o fenômeno Obama e a reação resultante.

"Esse é o grande fator X", acrescentou Belcher. "Podemos desconectar nossa mobilização, nossas mensagens, do culto ao candidato?"

Justin Cook/The New York Times
Vernon Bullock (esq) vota antecipadamente em Durham, na Carolina do Norte

Agindo a favor de Hillary mesmo que sua porcentagem de votos negros diminua há o fato de que ela construiu uma coalizão política diferente da de Obama. Ela está contando com um eleitorado que é mais hispânico e inclui mais brancos --especialmente mulheres de nível universitário-- que teriam pensado em votar nos republicanos, mas têm repulsa por Trump.

Marc Farinella, que dirigiu a campanha de Obama na Carolina do Norte em 2008, disse que é óbvio que o nível de energia caiu entre os afro-americanos. Mas "não tenho totalmente certeza de se isso é completamente necessário para ela", acrescentou. "Hillary tem outras dinâmicas e vantagens que Obama não tinha."

Em poucos lugares as desvantagens que os democratas enfrentam são mais acentuadas que na Carolina do Norte. Apesar de um tribunal federal ter abreviado a lei aprovada pelos republicanos que diminuía o número de dias de votação antecipada, as cidades puderam decidir quantos locais de votação abririam.

No condado de Guilford, a cerca de uma hora de carro a oeste da capital estadual, a população é aproximadamente um terço negra. Na primeira semana de votação antecipada lá, os eleitores só puderam ir a um lugar para votar: o tribunal na sede do condado, Greensboro. Em 2012 havia 16 locais.

Um total de 88.383 votos foi dado nos primeiros 12 dias da votação prévia este ano, contra 100.761 nos primeiros 12 dias em 2012.

O voto negro também diminuiu, com 34% de comparecimento neste ano, comparados com 40% em 2012.

Alguns eleitores negros, como Ronald Brooks, disseram que simplesmente precisavam de mais tempo para tomar a decisão neste ano. Foi mais fácil, disse Brooks, em 2008 e 2012, quando ele votou em Obama.

Brooks, 31, um trabalhador em saúde mental, estava avaliando as opções na manhã de terça-feira (1º). Ele disse estar preocupado com a confiabilidade de Hillary Clinton, já que ela havia montado um servidor privado de e-mails quando era secretária de Estado.

"O que ela estava tentando esconder?", indagou ele.

Justin Cook/The New York Times
Shere Williams (esq), eleitora de primeira viagem, obtém uma cópia de cédula antes de votar em Durham, na Carolina do Norte

Sua hesitação refletia uma divisão de gerações entre os afro-americanos: os eleitores mais velhos têm um afeto por Hillary e seu marido, e um temor por Trump, que muitos eleitores mais jovens não compartilham.

Os democratas na Carolina do Norte vêm combatendo outros esforços que consideram destinados a prejudicar os negros. Um juiz de um tribunal federal distrital marcou uma audiência na manhã de quarta-feira em uma ação movida pela NAACP estadual (Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor, na sigla em inglês), alegando que pelo menos três condados da Carolina do Norte, levados por desafios republicanos, ilegalmente eliminaram 4.500 moradores das listas de votação.

O presidente da NAACP estadual, reverendo William J. Barber 2º, disse que os expurgos foram pouco mais que uma trapaça eleitoral destinada a desprivilegiar eleitores legalmente registrados.
"É nojento e repulsivo o que está acontecendo", disse ele em um comunicado de imprensa na terça-feira.

Michael Bitzer, professor de ciência política no Catawba College, disse que a composição racial do eleitorado antecipado no Estado até agora está distante de 2012. Os eleitores brancos são 72% dos que votaram; os eleitores negros, 22%. Em 2012, os eleitores antecipados foram 67% brancos e 27% negros.

Dentro da campanha de Hillary, começou a hora do aperto. Addisu Demissie, diretor nacional de mobilização de eleitores da campanha, disse em entrevista na terça-feira que estava animado com a situação na Carolina do Norte, diante de como as regras eleitorais mudaram. Lá e em outros Estados como Flórida e Ohio, acrescentou ele, a campanha acredita estar em uma posição forte para alavancar sua vantagem organizacional sobre Trump.

"Precisamos continuar trabalhando", disse Demissie. "Sabemos que a maioria das pessoas se move nos prazos finais", acrescentou, "e veremos, como vimos nesta campanha em todos os momentos, uma intensificação da atividade e no envolvimento conforme o dia se aproxima."

A Flórida surgiu como mais um potencial ponto fraco de apoio negro, apesar de esforços do Estado para facilitar que mais pessoas votem antecipadamente. Ele adicionou cinco dias à votação, mais um sexto no último domingo antes da eleição em muitas áreas urbanas maiores, como Miami.

Mas os afro-americanos estão se saindo pior em seus índices de participação em relação a 2012. Daniel Smith, professor de ciência política na Universidade da Flórida, comparou a votação antecipada até agora em condados com grandes minorias, como Miami-Dade, Palm Beach e Broward, com a de 2012. Ele descobriu que dos que votaram este ano 22% eram negros, 40% brancos e 31% hispânicos. Em 2012 foram 36% negros, 35% brancos e 23% hispânicos.

"Se a campanha de Hillary não se fortalecer", disse ele, "a Flórida ficará em dúvida."

Mas Hillary mantém uma enorme vantagem organizacional, para não falar em uma provável liderança entre as pessoas que hoje estão votando nos campos de batalha do oeste, Colorado e Nevada, onde os democratas deram mais votos. E, num sinal de como o caminho de Trump é estreito, Hillary poderia perder na Flórida, na Carolina do Norte e em Ohio e ainda vencer.

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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