De primeira-dama a companheira de chapa, acumulando poder na Nicarágua

Frances Robles

Em Manágua (Nicarágua)

  • Oswaldo Rivas/Reuters

    Mulher segura cartazes em apoio à primeira-dama e candidata a vice Rosario Murillo pelo Partido de Liberação Nacional Sandinista, em Manágua (Nicarágua)

    Mulher segura cartazes em apoio à primeira-dama e candidata a vice Rosario Murillo pelo Partido de Liberação Nacional Sandinista, em Manágua (Nicarágua)

Ela começou como mãe adolescente trabalhando como secretária de um jornal, e depois passou por décadas de revoluções, conflitos, poder e escândalos ao lado de um dos homens mais influentes da região.

Agora a primeira-dama da Nicarágua, Rosario Murillo, conseguiu algo que mais parece ter saído da série da Netflix "House of Cards": ela estará nas cédulas de votação neste domingo (6) concorrendo como vice-presidente.

Seu companheiro de chapa? É seu marido, o presidente Daniel Ortega.

A eleição, na qual a vitória do casal e o terceiro mandato consecutivo de Ortega estão longe de garantidos, é um passo crítico naquilo que as pessoas em torno de Murillo descrevem como um processo de décadas de ascensão ao poder.

Ela pavimentou o caminho ajudando os pobres e conquistando o povo, mas também criando inimizades políticas e afastando praticamente todos os membros do círculo imediato de seu marido.

"Negar algo à minha mãe é uma declaração de guerra", diz sua filha Zoilamérica Ortega.

Mas, de muitas maneiras, a presença da primeira-dama na chapa da candidatura presidencial é um reconhecimento do papel que ela já exerce no país.

"Ela não é a vice-presidente; é a copresidente", disse Agustín Jarquín, que concorreu à vice-presidência na chapa de Ortega em 2001, mas foi expulso da Assembleia Nacional uma vez que começou a desagradar.

Murillo, 65, já é membro do gabinete na prática, estando profundamente envolvida em todos os aspectos do governo. Ela é quem dá informativos oficiais diários sobre os terremotos mais recentes ou os prejuízos de um incêndio industrial.

Se uma criança está com zika, Murillo sabe o nome do menino e acontece de ela mesma ligar para os pais. Ela se encontra regularmente com líderes municipais e deixa claro que as decisões não podem ser tomadas sem a aprovação dela.

"Não é que ela tem tantos seguidores quanto seu marido; ela tem mais", disse Florencia del Carmen López, 48, camelô. "Os homens ficam irritados com isso. A maioria dos seguidores dela é de mulheres."

À medida que Murillo foi ganhando mais controle no país, o governo passou a ser muito criticado por tomar medidas mais ousadas para garantir o poder de Ortega, levantando questões perturbadoras sobre o estado da jovem democracia da Nicarágua.

A Nicarágua é um país onde uma revolução derrubou a dinastia de uma família, correndo o risco de ser substituída por outra. Ortega, o presidente, é um ex-guerrilheiro de 70 anos de idade que teve um papel fundamental na revolução sandinista que derrubou Anastasio Somoza Debayle, o ditador cuja família governou o país desde os anos 1930 até 1979.

Agora os Ortegas e seus aliados controlam empresas de combustíveis, emissoras de TV e projetos de construções públicas. E na direção está Murillo, com seu pendor pelo trabalho duro que surpreende até mesmo seus opositores. Ela adotou como missão pessoal reformar tudo, desde os parques do país até a imagem de seu marido.

"Foram surgindo sinais. Aos poucos, o rosto dela começou a aparecer como o rosto na propaganda política, primeiro junto com Daniel e depois sozinha", disse Sergio Ramírez, que foi vice-presidente de Ortega nos anos 1980. "Agora parece que ela está buscando por legitimidade política. Essa é uma busca extrema por legitimidade."

Sua relação com Ortega começou em meio ao caldeirão da guerra. Ele passou parte da Revolução Sandinista clandestinamente na Costa Rica, onde se envolveu romanticamente com Murillo.

Rodrigo Arangua/AFP
10.jan.2012 - O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, abraça a mulher, Rosario Murillo, durante cerimônia de posse pelo terceiro mandato, em Manágua

Na época ela já tinha dois filhos, e os criava em um abrigo clandestino repleto de máquinas fotocopiadoras, rádios de ondas curtas e pessoas com nomes falsos. Ortega atendia pelo nome de "Enrique".

Zoilamérica Ortega, a filha mais velha de Murillo, foi adotada por Ortega no final de sua adolescência. Ela se lembra desses primeiros anos como caóticos e descreve um escritório movimentado com pessoas entrando e saindo.

"Ninguém cuidava de nós, literalmente ninguém", ela disse em uma entrevista.

Zoilamérica Ortega, hoje com 48 anos, acusou publicamente Daniel Ortega de abusar sexualmente dela durante anos. Ela disse que ele se aproveitava da falta de supervisão naquele período e começou a molestá-la por volta da época em que os revolucionários sandinistas proclamaram vitória. Ela tinha 11 anos.

Ela trouxe as acusações de estupro a público em 1998. Mas sua mãe, que também teve sete filhos junto com Daniel Ortega, ficou do lado dele.

Juntamente com Ortega e seus filhos adultos, Murillo deu uma coletiva de imprensa chamando sua filha mais velha de mentirosa e dizendo que ela sofria de problemas psicológicos.

Pelo menos uma testemunha confirmou as alegações de abuso, mas uma ação legal contra Daniel Ortega foi derrubada nos tribunais, que são controlados pelo partido sandinista.

Zoilamérica Ortega disse que havia sofrido retaliações por ter vindo a público, alegando que a ONG que ela dirigia sofria cortes regulares de patrocinadores que temiam se desgraçar junto ao governo. Três anos atrás, o governo deportou o marido boliviano de Zoilamérica Ortega, então ela foi obrigada a deixar a Nicarágua. Hoje eles vivem na vizinha Costa Rica.

"Eu só falo com ela para receber ameaças", disse Zoilamérica Ortega sobre sua mãe. "Ela optou por uma aliança de poder."

Alguns dos críticos de Murillo na política e na mídia também argumentam que sua lealdade para com Daniel Ortega e a defesa que ela faz dele em público foram recompensadas com a influência que ela conquistou em todo o país.

O próprio Ortega usou o discurso de aniversário da revolução sandinista em julho para narrar o que ele disse a seu aliado Fidel Castro sobre Murillo. Muitos nicaraguenses entenderam isso como um aceno à decisão dela de ficar ao lado de Ortega, e não do de sua filha.

"Eu disse a Fidel como a lealdade de Rosario vem desde nossa época vivendo na clandestinidade", disse Ortega.

O presidente disse que o interesse e o envolvimento dela na política ficaram evidentes desde o começo, quando ela foi presa por participar de um protesto e se recusou a cooperar com a polícia. Depois que a revolução terminou em 1979, a família se mudou de volta para a Nicarágua, onde Ortega e um comitê de outros oito homens comandavam a nação.

"Os outros comandantes olhavam para Rosario como se ela fosse uma pessoa incômoda que queria se envolver", disse Sofía Montenegro, uma proeminente intelectual feminista do Centro para Pesquisa sobre Comunicação, um grupo de pesquisas de Manágua. "Havia nove homens, e ela não se encaixava. Eles tinham mulheres que não estavam interessadas, e não lhes ocorreria se interessar. Os homens a toleravam."

Mas Murillo, uma poeta que frequentou uma escola de freiras britânica e uma escola de etiqueta suíça, e era fluente em inglês e francês, queria um papel maior. Ex-oficiais do governo dizem que ela fez manobras para controlar o Ministério da Cultura, onde ela bateu de frente com administradores de alto nível e fez com que demitissem pessoas quando estas a deixavam de fora de decisões.

Enquanto isso, uma guerra se desdobrava na Nicarágua, com os revolucionários sandinistas combatendo insurgentes conhecidos como os Contras, que foram apoiados pela administração do presidente Ronald Reagan. Ortega se tornou presidente oficialmente em 1984 e deixou o cargo em 1990, quando a Nicarágua passou a tomar iniciativas na direção da pacificação.

Apesar de ter muitos filhos juntos, o casal só se casou em 2005, quando eles se preparavam para tentar novamente a presidência. Ortega havia perdido três eleições consecutivas. Então, com a ajuda de Murillo, ele venceu em 2006, e sua influência logo foi notada. São dela os créditos pelos ousados esforços do governo de ajudar os pobres distribuindo casas novas, porcos e telhados de metal.

Mas ela também bateu de frente com membros antigos do círculo imediato de seu marido, afastando-os um a um e expulsando-os de seus cargos no palácio presidencial. A Assembleia Nacional e o Judiciário foram ocupados por aliados. A legislação foi alterada de forma que Ortega pudesse concorrer indefinidamente.

Em junho, o Supremo Tribunal baniu uma figura proeminente da oposição de seu próprio partido, o Partido Liberal Independente, impedindo que ele se tornasse um adversário nas eleições de novembro. Em agosto, mais de 20 membros da oposição foram expulsos da Assembleia Nacional depois que eles se recusaram a reconhecer a pessoa que o governo havia escolhido para liderar o partido.

Agora alguns nicaraguenses estão preocupados com a possibilidade de ainda mais poder ser consolidado pela família Ortega.

"Ela quer continuar tendo poder, é uma doença", disse o taxista Sergio González Gutiérrez, 42, junto de sua família em uma mercearia de San José Oriental, o antigo bairro de Murillo. "Se uma empresa privada não permite que um casal trabalhe junto, como isso é permitido para uma nação?"

O governo alega que a Constituição da Nicarágua proíbe somente parentes de sangue —como dois irmãos, ou pai e filho— de concorrer na mesma chapa. Mas muitos analistas políticos dizem que o casal está violando a parte que também exclui as pessoas que são aparentadas "por afinidade."

Dezenas de pessoas entrevistadas para esta matéria, desde oficiais do governo até pessoas nas ruas, dizem acreditar que o plano para colocar Murillo na vice-presidência tem a intenção de garantir a sucessão da família.

"Eu a conheci quando ela tinha 17 anos de idade e era secretária do editor do jornal, e sempre fiquei impressionada com sua capacidade de trabalhar, algo que as pessoas ainda notam", disse Ángela Saballos, porta-voz da Embaixada da Nicarágua em Washington durante o primeiro mandato de Ortega. "Ela deve dormir umas três horas."

Saballos diz que a busca dela pela vice-presidência parece ser uma tentativa de "legalizar todo o trabalho que ela tem feito".

Murillo já é a porta-voz oficial do governo, então nenhum outro burocrata tem autorização para falar com a imprensa além dela. Em um e-mail, ela recusou um pedido de entrevista. (Ela fala em sua maior parte a organizações midiáticas controladas pelo governo, várias delas por seus filhos.)

"Nós já vimos esse filme e sabemos como ele termina", disse Ramírez, o ex-vice-presidente. "Ele termina mal."

Tradutor: UOL

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