EUA têm excursão a cemitério onde candidatos fracassados estão enterrados

James Barron

  • Byron Smith/The New York Times

    Mausoléu onde George Francis Train está enterrado no cemitério Green-Wood, no Brooklyn, Nova York

    Mausoléu onde George Francis Train está enterrado no cemitério Green-Wood, no Brooklyn, Nova York

Consideremos um certo candidato presidencial que fez uma fortuna em negócios e imóveis, que adora ser famoso, que nunca havia disputado um cargo público e que pediu a seus seguidores que cancelassem a assinatura de um jornal que o chamou de idiota.

E que está morto.

Esse homem --George Francis Train, que fez campanha como independente em 1872-- é um dos nove candidatos presidenciais fracassados que estão enterrados no Cemitério Green-Wood, no Brooklyn (bairro na região sudeste de Nova York). Um dia esses homens sonharam em conquistar o cargo mais alto do país, em assinar leis, em ser lembrados por doutrinas de política externa, ou pelo menos por reorganizar o mobiliário da Casa Branca. Mas eles se tornaram notas de rodapé na história política, praticamente esquecidos, exceto em Green-Wood.

Neste domingo (6), o cemitério prestará uma homenagem com uma excursão de ônibus de duas horas às nove sepulturas dos ex-candidatos. O ônibus, equipado como uma charrete, passará por altos monumentos e estátuas, assim como por tumbas geralmente despercebidas. Um ex-candidato presidencial está em um elaborado mausoléu com colunas jônicas, mas o nome sobre a entrada não é o dele; é o de seu rico sogro.

Talvez o mais conhecido dos aspirantes presidenciais em Green-Wood seja Horace Greeley, editor do jornal "The New York Tribune" em meados do século 19. Ele e Train foram adversários, estritamente falando, já que ambos fizeram campanha em 1872 --Train chegou a cobrar ingresso para seus comícios e declarou um lucro de US$ 80 mil, equivalentes hoje a US$ 17,9 milhões (cerca de R$ 58 milhões). Train também tem um lugar na história literária. Ele teria sido uma inspiração para o personagem Phileas Fogg, do romance de Jules Verne "A Volta ao Mundo em 80 Dias".

Mas se Train recebeu alguns votos foram por escrito. O historiador de Green-Wood, Jeff Richman, disse que a desorganizada campanha de Train não colocou seu nome nas cédulas de votação em nenhum Estado. Derrotar um presidente no cargo também não era fácil naquela época. Train e Greeley perderam para o presidente Ulysses Grant, que conseguiu um segundo mandato com 56% dos votos.

O túmulo de Greeley é encimado por uma velha estátua em um alto pedestal. Imponente, mas não tão elaborada quanto a tumba do industrial, inventor e filantropo Peter Cooper. Ele tinha 85 anos quando disputou como candidato do Partido Independente Nacional em 1876, o que faz dele o mais velho candidato presidencial na história dos EUA. Recebeu apenas 83.726 votos de um total de 8,4 milhões, ou seja, menos de 1%. Seu túmulo deu trabalho aos escultores em pedra: o monumento tem 30 linhas de texto em relevo.

Byron Smith/The New York Times
Túmulo de Horace Greeley, que fracassou como candidato presidencial

Green-Wood tem um claro viés pró-Clinton. A primeira parada será o túmulo de DeWitt Clinton, que foi vice-governador de Nova York quando disputou a Presidência com James Madison em 1812 (e que não era parente de Bill Clinton). Lisa W. Alpert, diretora de desenvolvimento de Green-Wood, comentou secamente que ele "teria sido o primeiro presidente Clinton" se tivesse ganhado.

Richman disse que se falou em uma dinastia Clinton quando a campanha começou, porque o tio George de DeWitt Clinton tinha sido duas vezes vice-presidente. Ele tinha 72 anos e estava em decadência física e mental, porém. Morreu em abril de 1812, sete meses antes da eleição. A nomeação federalista foi para DeWitt Clinton.

Essa presidência Clinton também não se realizaria. Em julho de 1812, os EUA declararam guerra ao Reino Unido. Embora estivesse na chapa do Partido Federalista, que queria a paz, Clinton percebeu que precisava do apoio dos republicanos, que eram a favor da guerra, mas estavam decepcionados com seu representante, o presidente Madison. Richman disse que Clinton tinha de dizer uma coisa para os federalistas e outra para os republicanos.

Clinton perdeu por 39 votos no colégio eleitoral, recebendo 89, contra 128 de Madison. Na época, como hoje, a Pensilvânia teve um papel importante. Seus 25 votos foram para Madison. "Mas se você subtrair esses 25 de Madison e os der a Clinton este se torna presidente", disse Richman. Ele teria vencido por 9 votos eleitorais.

Clinton seguiu em frente e defendeu o Canal do Erie, o curso de canais e comportas de 580 quilômetros que abriu caminho para o restante do país. Quando ele morreu, em 1828, foi enterrado perto de Albany, "no túmulo de uma família amiga, já que a dele não tinha dinheiro", disse Ruth Edebohls, da Fundação Histórica de Green-Wood", que vai comandar a excursão.

Green-Wood viu uma oportunidade. Richman disse que as autoridades de Green-Wood "precisavam de alguém que fosse uma atração aqui no cemitério".

"Eles decidiram que ninguém seria melhor que o falecido DeWitt Clinton, o mais reverenciado dos nova-iorquinos no início do século 19", disse ele. "Contataram seu filho Charles e obtiveram permissão para exumá-lo." O corpo foi transferido em 1844.

Mas não foi só isso. Green-Wood levantou dinheiro para uma estátua de Clinton que ficou por um curto tempo no City Hall Park em Manhattan. "A estátua foi erguida para fazer as pessoas irem a Green-Wood", disse Edebohls. "Eles provavelmente puseram uma placa dizendo 'Venham me ver em Green-Wood'."

Green-Wood Historic Fund via The New York Times
Cartão da campanha presidencial de George Francis Train em 1872, que foi alterado depois

Assim, na morte Clinton ajudou Green-Wood a se tornar a segunda maior atração turística do Estado de Nova York, depois das cataratas do Niágara. Edebohls disse que não era tão mórbido quanto pode parecer. Green-Wood funcionava muito antes que a cidade tivesse seus próprios parques --o Central Park foi inaugurado no ano em que Green-Wood comemorou o 20º aniversário--, e a estátua de Clinton fez o serviço. "As pessoas começaram a vir", disse ela.

Richman acrescentou: "A ideia era que as pessoas caminhariam pelo terreno ou viriam em carruagens a passeio e diriam: 'Vocês têm túmulos disponíveis?' O cemitério iria bem em termos de vendas". (Afinal a estátua foi transportada e está sobre a sepultura.)

Outros candidatos enterrados em Green-Wood foram perdedores entre os perdedores. Quatro deles, todos democratas, perderam a esperança de ocupar o Salão Oval meses antes da eleição. Não foram sequer nomeados. Um deles foi o candidato bala-na-garganta, William J. Gaynor. Como prefeito de Nova York em 1910, ele havia sido alvo de uma tentativa de assassinato por um ex-funcionário público furioso. Os médicos de Gaynor decidiram que não podiam remover a bala. Ele se recuperou e voltou ao trabalho.

Richman disse que se falou em Gaynor para presidente em 1912, e ele recebeu um voto em cada uma das cédulas na convenção democrata. Eram precisos mais de 40 votos, mas finalmente os delegados exaustos nomearam Woodrow Wilson, o governador de Nova Jersey, que venceu em novembro.

Gaynor morreu em 1913 em um cruzeiro à Europa. Sua tumba é um monumento circular de granito sem estátua. Sua mulher, Augusta, está enterrada ali perto, não longe do túmulo da atriz Laura Keene, a estrela da peça a que Abraham Lincoln assistia quando foi morto.

A sepultura de Train fica em um enorme mausoléu construído por seu sogro, George Turnbull Moore Davis, que tinha sido um assessor do general Winfield Scott durante a Guerra Mexicano-Americana nos anos 1840 e editor do jornal "The Courier of Louisville", no Kentucky. O caminho até o mausoléu está coberto de capim, como se ninguém tivesse parado ali em algum tempo para prestar tributo a um dos candidatos mais chamativos da história americana.

Train havia fundado a ferrovia Union Pacific e o Crédit Mobilier para financiar a estrada de ferro transcontinental, e fizera a viagem que chamou a atenção de Verne, voltando para casa em 80 dias, sem contar o tempo que passou em uma prisão francesa. Em 1873 ele foi preso novamente, dessa vez em Nova York, e foi julgado por insanidade.

As autoridades o enviaram a uma prisão em Nova York conhecida como as Tumbas, "na vã esperança", segundo uma reportagem de 1874, "de que os rigores do lugar o aterrorizassem, fazendo-o fugir da cidade".

Train acalmou-se e tornou-se um organizador, iniciando o Clube dos Assassinos. Seu objetivo, segundo a reportagem de 1874, "era tornar o lugar tão infernal de forma a atrair a atenção dos jornais, e assim manter o nome de Train diante das pessoas".

É claro que o Clube dos Assassinos seguia princípios democráticos. É claro que houve uma eleição. E é claro que Train foi candidato.

Foi assim que Train finalmente se tornou um presidente.

Informações:

O passeio custa US$ 25 (US$ 20 para sócios do Cemitério Green-Wood ou da Sociedade Histórica do Brooklyn); endereço: 500 25th St., Brooklyn; tel. 718-210-3080, green-wood.com.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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