Paris é a nova Calais, com dezenas de refugiados chegando diariamente

Adam Nossiter

Em Paris (França)

  • Dmitry Kostyukov/The New York Times

    Refugiados se abrigam em barracas nas ruas de Paris (França)

    Refugiados se abrigam em barracas nas ruas de Paris (França)

A crise dos refugiados na França mudou da "Selva" de Calais para as ruas de Paris, com centenas de pessoas acampadas em tendas nos bairros no norte da cidade e outras dezenas chegando a cada dia.

Os acampamentos improvisados colocaram diante dos parisienses a questão dos refugiados na Europa, e mais uma vez salientaram a incapacidade do governo francês de resolver um problema que esperava que fosse postergado pela Alemanha e a Itália.

Os números têm sido muito maiores nesses países, mas os migrantes --principalmente africanos e afegãos-- continuam chegando aos poucos a Paris. Até cem chegam por dia, segundo grupos de ajuda. A maioria tem vagas esperanças de chegar ao Reino Unido ou conseguir asilo na França.

Estendendo-se até a Avenue de Flandre, no 19º distrito, um bairro operário, e amontoados sob os viadutos de metrô nas estações Jaurès e Stalingrad, os enclaves de barracas são ilhas de pobreza no meio da prosperidade do Primeiro Mundo.

Até 3.000 pessoas estão acampadas aqui, segundo grupos de ajuda. Desde a primavera de 2015, mais de 18 mil foram abrigadas em Paris --o que significa que foram levadas a centros de recepção em outras cidades francesas e, em alguns casos, expulsos das calçadas de Paris, segundo a Prefeitura e a mídia locais.

Em um padrão que não se modifica há meses, os migrantes se estabelecem nas calçadas de Paris, seus números aumentam gradualmente em um período de semanas e então a polícia vem para removê-los.

Nesta semana houve mais uma sessão dessas. As autoridades prometeram limpar os últimos acampamentos até o fim de semana, enquanto a Prefeitura de Paris disputa com o governo francês quem é responsável pelos migrantes.

Com o fluxo de migrantes que cruzam o mar Mediterrâneo até a Itália atingindo níveis recorde --quase 160 mil até agora neste ano, comparados com 141 mil no ano passado--, há pouca probabilidade de que se reduza aqui. Na quinta-feira (3), a agência para refugiados da ONU relatou que 239 migrantes estavam desaparecidos depois que dois barcos viraram.

As autoridades europeias se reuniram com governos africanos na tentativa de conter o fluxo, que inclui promessas de ajuda e de repatriar os recém-chegados.

Angela Merkel, a chanceler alemã, viajou recentemente a Etiópia, Mali e Níger, prometendo dinheiro e ajuda militar. Foi uma incursão incomum em regiões onde os alemães estiveram ausentes, mas também um testemunho da pressão migratória que seu país está sentindo.

Os parisienses tentam cuidar de suas vidas --compram pão nas padarias e outras provisões nas pequenas lojas de bairro, passam tempo nos cafés e até passeiam pela ilha central da avenida entre as tendas-- contra um pano de fundo de sudaneses, eritreus e afegãos que parecem atônitos, comendo, conversando e vivendo nas calçadas.

Na estação de metrô Stalingrad, onde migrantes africanos se agrupam à sombra da elegante Rotonde de La Villette, do final do século 18, um dos marcos arquitetônicos da capital, os moradores passam apressados, contendo a respiração para não sentir o cheiro de urina.

Dmitry Kostyukov/The New York Times

Há muito menos banheiros portáteis ou públicos do que havia no acampamento de Calais conhecido como a Selva, e eles raramente são limpos pela Prefeitura. Os grupos de voluntário que substituíam a ajuda do governo lá não são muito evidentes em Paris.

Cerca de cem barracas estão amontoadas sob o viaduto de ferro do metrô em Jaurès, junto ao Canal St. Martin. Na segunda-feira (31), crianças afegãs corriam entre as tendas, enquanto um profissional de ajuda aconselhava os rapazes sobre seus direitos, caso a polícia volte.

A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, escreveu ao governo nacional na semana passada sobre a "situação humanitária e sanitária desesperada" dos migrantes, pedindo-lhe que fizesse alguma coisa. Em breve ela pretende abrir um abrigo temporário no 18º distrito. Grupos de ajuda dizem que os 400 lugares disponíveis lá estão muito aquém do necessário.

 

Um francês idoso que saiu para passear à tarde escolhia o caminho entre as tendas e os pequenos montes de lixo na Avenue de Flandre, nesta semana. "Isto é horrível", disse Robert Aversung, 87, olhando para as barracas. Ele se descreveu como um "burocrata aposentado" e militar veterano.

"E o governo não está fazendo nada a respeito", disse ele. "Estas pessoas vieram de Calais", insistiu ele, dizendo que o acampamento aqui havia surgido apenas na última semana. "Não é muito bonito, é?"

Os grupos de ajuda também dizem que cerca de 6.000 migrantes removidos de Calais nos últimos dez dias simplesmente pousaram em Paris, mas o governo nega.

Dentro de algumas pequenas tendas, onde mal cabe uma pessoa, há crianças pequenas; do lado de fora, rapazes entediados e inquietos aguardam as visitas periódicas da polícia, como uma na segunda-feira em que a polícia antimotins parou para verificar documentos.

Os grupos dizem que cerca de 60 afegãos foram levados na segunda-feira. Os que não têm papéis são geralmente levados à delegacia, e alguns deles serão expulsos do país, segundo os grupos de ajuda.

Um afegão que continua na rua, Abdul Adrim Ze, 26, da província de Logar, no leste do Afeganistão, aprendeu francês o suficiente em três meses em Paris para se referir a sua pátria adotiva a contragosto como "terra dos direitos humanos", como fazem os franceses.

Com muito tempo livre, Adrim Ze está aproveitando as aulas de francês oferecidas pelo grupo BAAM (sigla em francês para Escritório de Acolhimento e Acompanhamento de Migrantes).
"Já que não temos trabalho, este é o nosso trabalho", disse ele. "A França é um grande país", acrescentou, esperançoso. "Aqui há democracia."

Mais além na Avenue de Flandre, um jovem sudanês passa o tempo picotando pão diante de sua tenda para alimentar os pombos. Seu vizinho estava sentado em uma cadeira de praia enquanto o frio da noite baixava.

"É muito difícil aqui. Não temos nada", disse Hassan Khairallah, 33, da região de Darfur, no oeste do Sudão. "Temos de aguardar o governo. Temos de aguardar nosso destino."
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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