Por que rosto pintado de preto não é tabu para os australianos?

David T. Smith

Em Sydney (Austrália)

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    Cena do filme "A Hora do Show" (2000), dirigido por Spike Lee, que abordava a prática do "black face"

    Cena do filme "A Hora do Show" (2000), dirigido por Spike Lee, que abordava a prática do "black face"

Indígenas e outros australianos não brancos estão cansados de dizer ao país que a prática degradante é errada.

Nos Estados Unidos, pintar-se de preto para representar uma pessoa de cor --prática conhecida como "black face"-- é considerado uma forma particularmente grotesca de racismo. Na Austrália, isso continua acontecendo. De fato, 2016 tem sido um ano notável para incidentes australianos envolvendo rostos pintados de preto.

Em janeiro, uma torcedora no Aberto da Austrália pintou seu rosto com graxa preta de sapato em suposta demonstração de apoio a Serena Williams. Um mês depois, uma jogadora da seleção feminina de basquete, Alice Kunek, postou uma foto de si mesma vestida como Kanye West, completa com maquiagem de rosto preto.

Em agosto, uma mãe orgulhosa de Perth postou uma foto de seu filho de 9 anos coberto de maquiagem marrom, como tributo ao herói fijiano-australiano dele, Nic Naitanui, o jogador de futebol australiano.

Muitos australianos que consideram o racismo como um mal profundo defenderão o rosto preto como diversão inofensiva, no mínimo como algo "não racista". O argumento deles é que se não há intenção de ser racista, não pode ser racista, independente de quão pouco lisonjeiro as pessoas de cor considerarem suas peles serem adotadas como fantasias.

Esses episódios provocam reações de variam de perplexidade a horror quando os americanos tomam conhecimento deles. "Na Austrália, rosto pintado de preto é ainda apenas levemente ofensivo", foi a manchete no site "Gawker" em 2009.

Escrevendo sobre o incidente envolvendo Serena Williams, Adrian Hasenmayer, da "Fox Sports", disse que rosto pintado de preto era considerado "além de tabu nos tempos modernos", algo que parece autoevidente para os americanos, mas não aos australianos.

Mas por que não é tabu para os australianos?

O problema não é que os australianos não entendam o contexto histórico americano do rosto pintado de preto. O problema é acharmos que apenas os americanos têm motivos para ficar incomodados com isso.

A Austrália e os Estados Unidos compartilham uma história de dominação branca. Ambos foram fundados por assentamentos de colonos cuja existência dependia da expulsão dos povos nativos de suas terras. Ambos negaram direitos políticos e econômicos às pessoas não brancas, cujo trabalho era explorado. E ambos os países adotaram leis de imigração restritivas para manter a tez nacional branca.

As semelhanças não passaram desapercebidas. Em 1894, Theodore Roosevelt alegrou-se pelo fato de a "democracia" na Austrália e nos Estados Unidos ter "mantido para a raça branca as melhores partes da superfície dos Novos Mundos".

Na Austrália, o preço da manutenção das terras para a raça branca foi guerras brutais de fronteira e massacres de populações indígenas, que tiveram início logo após os britânicos colonizarem o continente em 1788. O último massacre registrado ocorreu em 1928.

No século 20, os governos podiam remover as crianças de famílias aborígenes por qualquer motivo. Aos povos aborígenes eram negados igualdade salarial e benefícios do governo, assim como não tiveram direitos plenos de votação até os anos 60.

Hoje, as comunidades indígenas na Austrália sofrem muitas das mesmas dificuldades que os nativo-americanos nos Estados Unidos: altos níveis de pobreza, problemas de saúde, violência, encarceramento e suicídio.

Agora que o racismo é visto como um pecado moral singular, os brancos australianos e americanos compartilham a culpa, em vez de orgulho, pelas práticas do passado. Mas os americanos têm que confrontar ao menos alguma parte de seu passado todo dia.

O legado da escravidão é uma enorme população afro-americana politicamente robusta, cuja luta pela igualdade se transformou em algo central para a política dos Estados Unidos e para a narrativa da história americana.

Os brancos australianos não precisam enfrentar nosso passado da mesma forma.

Os australianos indígenas correspondem a cerca de 3% da população australiana e não contam com qualquer poder político real desde que os assentamentos brancos roubaram violentamente suas terras.

A história deles também não é bem conhecida. Um jornalista australiano descendente de aborígenes, Stan Grant, notou recentemente que os australianos têm mais probabilidade de saber sobre Touro Sentado, o general Custer e Little Big Horn do que sobre líderes da resistência aborígene como Pemulwuy ou massacres em locais como Coniston.

Lembrar da guerra é um elemento central de nossa identidade nacional, mas as guerras da fronteira que criaram a Austrália moderna são deixadas de fora de nossas lembranças oficiais. Nem pensamos muito no legado das políticas da Austrália branca, que excluíram os imigrantes não brancos até a Guerra do Vietnã. Hoje, pessoas de descendência asiática correspondem a 12% da população, mas você não imaginaria isso olhando para os Legislativos ou para os programas de TV.

O domínio branco parece tão natural aqui que os brancos não o reconhecem, apesar de ser chocantemente óbvio para pessoas de fora.

De fato, os australianos brancos parecem ter um melhor entendimento de como o racismo moldou a sociedade americana. Graças ao seu alcance cultural e poder político, assim como sua história violenta, os Estados Unidos nos deram muitas de nossas ideias sobre o que é racismo: escravidão, segregação, Ku Klux Klan e brutalidade policial.

Também dá aos australianos um álibi conveniente para o rosto pintado de preto: o rosto pintado de preto é um problema apenas por causa do passado racista dos Estados Unidos, não do nosso.

Os australianos indígenas e não brancos estão cansados de dizer ao país o que há de errado com o rosto pintado de preto.

Nakkiah Lui, um escritor e ator indígena, disse em uma entrevista neste ano que o rosto pintado de preto não é "um ato de respeito, geralmente é algo visando ser engraçado e motivo de graça". Ela faz "você se sentir como se fosse colocado de volta ao seu lugar".

Maxine Beneba Clarke, uma escritora australiana de descendência afro-caribenha, nota que o rosto pintado de preto há muito é usado para ridicularizar os povos aborígenes, do teatro nos anos 1830 até a TV nos anos 2000.

O rapper indígena Briggs descreve a rotina exaustiva de ter que explicar, em 2016, que rosto pintado de preto é racismo. "As pessoas olham para mim como se o problema fosse meu", ele disse a um programa de rádio da "ABC", como se "apontar o racismo fosse pior do que o ato em si".

Os australianos brancos prestam pouca atenção quando os australianos indígenas dizem que o que os brancos veem como entretenimento, eles veem como degradação. Os australianos parecem acreditar que essas queixas criam conflito racial onde não há nenhum. Os povos aborígenes não têm o poder político para nos fazer reconsiderar nosso racismo casual. Mas notamos quando os americanos nos criticam por isso.

Em Melbourne em 2009, Harry Connick Jr. condenou um tributo com rosto pintado de preto aos Jackson Five em um programa de calouros para o qual foi convidado como jurado, em frente a uma audiência estimada de 2,5 milhões de telespectadores (mais de 10% da população da Austrália).

"Apenas quero dizer em nome do meu país", disse Connick, "que passamos tanto tempo tentando fazer com que as pessoas negras não parecessem bufões, que quando vemos algo assim, nós realmente levamos a sério".

Dias de debate se seguiram, com descrença por alguns setores da sociedade por um americano ter cometido a temeridade de criticar os australianos por racismo. Em um artigo, o psicólogo Clemence Due catalogou as muitas respostas online.

"Os Estados Unidos estão desconfortavelmente cientes de sua história de escravidão, levando a um grau de correção política que não se justifica na Austrália", declarava uma.

Outra dizia: "Isso é demais. Sermos chamados de racistas pelos americanos. Nós não importamos escravos negros e batemos neles para trabalharem por nós. Não tínhamos salas de espera, ônibus, escolas 'apenas para brancos', e assim por diante".

O "verdadeiro pecado", segundo o comentarista altamente lido Andrew Bolt, foi não perceber que um americano como Connick se ofenderia com a apresentação. Nos Estados Unidos, ele escreveu, um rosto pintado de preto tem uma "repercussão cultural muito, muito diferente" e refletiu que os americanos não entenderiam que, "para nós, o rosto pintado de preto não é um símbolo icônico de racismo".

Igualmente, em resposta à homenagem de Alice Kunek a Kanye West neste ano, um apresentador descreveu a ofensa provocada pelo rosto pintado de preto como "uma coisa americana", o resultado de uma "longa história na América, mas não aqui".

Esses comentaristas refletem um sentimento australiano maior de que a "correção política" envolvida no policiamento da linguagem e do comportamento é uma criação americana, uma resposta a uma tensão racial que não é necessária em nossa pátria relaxada.

Nós australianos não nos consideramos um país racista. Nós nos orgulhamos de nossa diversidade cultural. Mas nossos governos e conselhos diretores quase totalmente brancos refletem uma realidade histórica de dominação branca que é mais completa do que foi conseguida nos Estados Unidos.

E esse é o motivo para ainda não entendermos plenamente o problema com o rosto pintado de preto. Os australianos brancos raramente são forçados a pensar nas coisas pelo ponto de vista de uma pessoa não branca.

Um dia depois de Barack Obama ter sido eleito presidente dos Estados Unidos, o jornal "The Sydney Morning Herald" declarou que sua presidência "marca uma impressionante mudança cultural, com o senador Obama, filho de um pai queniano e mãe branca do Kansas, se tornando o primeiro presidente afro-americano de uma nação ainda repleta de divisões raciais". Esses sentimentos foram repetidos por todo o mundo em outros países de maioria branca.

Nós nos maravilhamos em como um país com tantos problemas raciais podia eleger um homem negro ao seu cargo mais alto, dando pouca atenção em quão remota essa possibilidade era em nossos próprios países.

O legado da supremacia branca na Austrália não é uma cruz em chamas e um capuz branco. É o luxo da irreflexão branca.

(David T. Smith, diretor acadêmico do Centro de Estudos sobre os Estados Unidos da Universidade de Sydney, é autor de "Religious Persecution and Political Order in the United States", ou "Perseguição religiosa e ordem política nos Estados Unidos", em tradução livre, não lançado no Brasil.)

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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