Morte de criança quando a mãe está distraída ao celular preocupa a China

Owen Guo e Mike Ives

Em Pequim

  • Getty Images/iStockphoto

Um vídeo que mostra uma SUV atropelando uma criança, enquanto sua mãe parece distraída com seu celular, provocou manifestações de preocupação nas mídias sociais chinesas a respeito dos riscos do uso exagerado dos smartphones.

Câmeras de vigilância captaram a SUV se movendo devagar e atingindo a menina de 2 anos que havia entrado em seu caminho. Sua mãe, vindo atrás em uma rua de uma cidade provinciana da China, estava grudada em seu telefone e aparentemente não notou que o veículo havia começado a andar. Quando a ambulância chegou, a garota já havia morrido.

Na China, assim como nos Estados Unidos e outros lugares, multidões de pessoas clicam, escrevem mensagens de texto e fazem compras em seus smartphones, e muitas delas fazem isso enquanto se deslocam.

Cerca de 710 milhões de pessoas na China, ou 92% dos usuários de internet do país, acessam a rede através de seus celulares, mais que o dobro desde 2012, segundo dados do governo. Cerca de um quarto dessas pessoas usam somente seus smartphones.

Mas a morte de uma criança no mês passado em Yueyang, na província de Hunan, no Sul, levou a manifestações de revolta nas mídias sociais chinesas a respeito dos perigos de uma obsessão pelo celular. Até uma agência governamental local contribuiu para a discussão, fazendo um apelo para que as pessoas diminuam o uso do smartphone.

"É de cortar o coração!", escreveu o gabinete da procuradoria da província de Shandong no Weibo, a versão chinesa do Twitter. "Guarde seu celular. Salve as crianças!"

A morte de Tutu, como foi identificada a menina nos noticiários chineses, é só o exemplo mais recente de como "andar distraído" pode ameaçar a segurança pública.

Crianças é atropelada enquanto mãe falava ao celular

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Em agosto do ano passado, um menino de 2 anos na província central de Henan morreu depois de ser atingido por uma SUV perto de um shopping center enquanto sua mãe estava entretida com seu celular. E em abril, outro menino de 2 anos foi atropelado e morto na província de Anhui, no leste, enquanto sua mãe olhava para o celular.

Liu Qinxue, um especialista em vício em celular na Central China Normal University em Wuhan, disse que o acidente de Yueyang poderia servir de alerta para os riscos de se usar um aparelho que do contrário é inofensivo e até útil.

Esse uso "existe há muito tempo, e normalmente as pessoas não pensam nos perigos em potencial que ele pode trazer", disse Liu. "Não há discussões ou conscientização suficiente."

Autoridades na China documentaram e anunciaram os riscos de se falar ao telefone ou de se escrever mensagens de texto na direção. Em 2014, por exemplo, a polícia de Xangai disse que falar ao telefone ou enviar mensagens de texto enquanto se dirige causou quase 30% dos 690 acidentes de automóveis fatais entre janeiro e outubro desse ano, de acordo com uma reportagem da mídia estatal chinesa.

A polícia municipal instalou câmeras de alta definição para identificar motoristas que usem smartphones enquanto dirigem, e os infratores são multados em 200 yuans (cerca de R$ 96) e penalizados em um sistema de pontuação.

Em março, um legislador da província central de Hubei propôs que os motoristas que usassem telefones dirigindo fossem processados criminalmente.

Mas legisladores de muitos países têm prestado muito menos atenção ao problema do "andar distraído", de acordo com um estudo de 2015 do "Journal of Traffic and Transportation Engineering". O estudo acrescentou que os dados a respeito de atropelamentos ainda não eram detalhados o suficiente para que os pesquisadores determinassem uma ligação entre andar distraído e problemas de segurança.

Em Hong Kong, um território chinês semiautônomo, estações de metrô têm cartazes que alertam os usuários a não ficarem olhando para o celular enquanto nas escadas rolantes. Autoridades de Seul, a capital sul-coreana, anunciaram recentemente que a cidade instalaria outdoors que alertam os pedestres sobre os riscos de se escrever mensagens de texto enquanto andam.

Mas avisos como esses são raros, quando existem, na China continental.

Analistas dizem que os smartphones estão dominando a vida das pessoas porque eles aparentemente oferecem estímulos ilimitados.

"A presença de aparelhos que estão sempre ligados e sempre com você, que são sempre estimulantes e oferecem um constante 'fluxo' de estímulos, nos levou a um novo tipo de estado psicológico: 'Eu compartilho, logo eu sou'", diz Sherry Turkle, professora do Massachusetts Institute of Technology que estuda a relação entre humanos e aparelhos digitais.

Turkle disse por e-mail que uma capacidade cada vez menor de solidão e autorreflexão haviam gerado uma dependência de smartphones e criaram uma necessidade de "espaços sagrados" livres de celular.

"Converse com seus colegas de trabalho, converse com sua família", ela diz. "Nunca traga um celular para uma refeição. Não use celular no carro. Não leve o celular para reuniões ou salas de aula. Nós podemos nos reencontrar."

Muitos usuários das mídias sociais chinesas ecoaram esse sentimento desde a morte da menina de 2 anos em Yueyang.

"Tribo da cabeça abaixada, está na hora de erguer a cabeça", dizia um comentário no Weibo, usando um apelido popular na China para os obcecados por smartphones.

Tradutor: UOL

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