O espião que me amava: quando a vigilância digital é saudável?

Nick Wingfield

Em Seattle (EUA)

  • Laurent Cilluffo

No meio de um longo percurso de bicicleta há várias semanas, encostei para descansar e peguei meu iPhone para enviar uma mensagem de texto para a minha mulher. Eu tinha a sensação de que ele poderia estar me vigiando.

"Se checar minha localização, verá que não estou morto", escrevi para ela. "Vou tomar um café em Mercer Island."

Por acaso, ela não estava de olho onde eu estava, mas poderia (e já o fez no passado), porque permiti a ela usar a capacidade de rastreamento de localização no meu telefone. Sempre que está curiosa, ela pode me ver representado como um ponto laranja em um mapa digital em seu telefone. Um ponto imóvel poderia ser um marido ciclista com pneu furado, tomando uma cerveja com um amigo ou atropelado por um carro (daí a mensagem tranquilizadora).

De vez em quando, eu também checo a localização da minha mulher, de modo que sei quando ela sai do trabalho e posso saber o horário que ela vai chegar para jantar. Nós dois também monitoramos o paradeiro de nossa filha de 13 anos usando o telefone dela, para nos tranquilizarmos de que ela está voltando da escola para casa ou indo a uma loja.

"Quando você começou a trabalhar para a Agência de Segurança Nacional?", perguntei a mim mesmo brincando.

A maioria dos americanos não gosta da ideia de seu governo espionando suas atividades na internet, e muitos questionam empresas monitorando seus hábitos online para fins comerciais. Mas quando dispõem das ferramentas e oportunidade para brincarem de Grande Irmão com outros em sua família, é difícil para alguns resistir.

Não falo apenas de familiares que se enquadram na faixa de perseguidores assustadores, apesar de certamente haver cônjuges ciumentos e pais excessivamente zelosos por aí, que vigiam seus parceiros e filhos com uma vigilância nada saudável. O monitoramento digital, desde checar com quem seus entes queridos se comunicam a bisbilhotar suas contas nas redes sociais e checar suas localizações, está se tornando comum até mesmo entre pessoas que se consideram cuidadosas para não violar os limites com seus filhos e parceiros.

Existe algo como espionagem responsável dos entes queridos?

A resposta depende de para quem você pergunta. Pessoas que creem fortemente na privacidade rejeitam de cara a ideia, enquanto outros acreditam ser possível se consentimento, confiança e respeito estiverem envolvidos.

"Tudo se resume à dinâmica de poder", disse Mary Madden, uma pesquisadora da Data & Society, uma organização de pesquisa sem fins lucrativos. "É possível imaginar um cenário no qual, em uma família, há uma dinâmica doentia."

Os pais agora monitoram rotineiramente o comportamento digital de seus filhos de uma forma ou de outra. Uma pesquisa do Centro Pew envolvendo adultos e crianças entre 13 e 17 anos, publicada neste ano, apontou que 61% dos pais checam os sites visitados por seus filhos adolescentes, 60% visitaram as contas deles nas redes sociais e 48% conferiram as mensagens e chamadas telefônicas deles. O percentual daqueles que monitoraram o paradeiro de seus filhos adolescentes por meio de seus celulares foi de 16%.

"Estamos chegando mais próximos de um mundo no qual a vigilância dos pais está se tornando mais a norma do que o contrário", disse Madden.

A predominância do monitoramento pelos pais é o resultado lógico de um mundo no qual as crianças passam muito tempo de suas vidas no reino digital, para entretenimento, comunicações e acesso a informação. Smartphones e tablets, o advento das redes sociais e a explosão de novas formas de comunicação, como mensagens de texto, tornaram a tecnologia digital uma parte ainda mais profunda do tecido da adolescência.

À medida que esses fenômenos digitais proliferam, o mesmo acontece com as ferramentas que controlam o acesso a eles por motivos de segurança e saúde. Desde os anos 90, as startups oferecem programas de filtragem para os pais para prevenir que seus filhos vejam conteúdo sexual e outros materiais.

Então surgiram os smartphones e as grandes operadoras de telefonia celular começaram a vender serviços para controle do acesso a conteúdo, aplicativos e com quem as crianças podem se comunicar, juntamente com ferramentas para rastreamento da localização do telefone, usando chips de comunicação wireless nos aparelhos.

Uma operadora, a T-Mobile, diz que tem 4 milhões de clientes usando um serviço gratuito que impede seus filhos de verem conteúdo sexual, violência explícita ou humor grosseiro. Também tem 375 mil clientes que pagam US$ 4,99 (cerca de R$ 16,80) por mês por algo chamado Family Allowances, que permite aos pais impedirem seus filhos de telefonar e enviar mensagens de texto para certos números, desligar seus telefones durante as aulas e no horário da lição de casa, e monitorar quantas mensagens de texto estão enviando.

A T-Mobile tem cerca de 100 mil assinantes que pagam US$ 9,99 (cerca de R$ 33,60) por mês por outro serviço, o FamilyWhere, que permite às famílias rastrear a localização de todos os telefones em suas contas.

Mais recentemente, fabricantes de telefones como a Apple tornaram ainda mais acessíveis capacidades como rastreamento da localização, ao acrescentar aos seus telefones software gratuito. Ativar a função em um iPhone também a ajuda a localizar um aparelho perdido.

Mas um risco dessas tecnologias, é claro, é que muitos pais ficarão tentados a usá-las de forma excessiva e intrusiva. Um pai que microgerencia constantemente a vida de um adolescente (Por que você parou aqui? Por que você foi lá?) corre o risco de sufocar a independência necessária para que ele se desenvolva em um adulto.

Lee Tien, um advogado da Fundação Fronteira Eletrônica, uma organização sem fins lucrativos focada nos direitos online, está entre aqueles que são céticos a respeito do monitoramento digital das crianças.

"É realmente difícil para mim imaginar que um pai que tente ser racional e compreensivo faça isso", disse Tien, que tem dois filhos na faixa dos 20 anos. "Minha abordagem aos pais é que em certo ponto, muito antes da idade da maturidade, é preciso tratá-los como adultos."

Danah Boyd, fundadora da Data & Society e uma professora visitante da Universidade de Nova York, disse que o compartilhamento de informação digital, incluindo a localização, é visto como um sinal de confiança e respeito entre pessoas com relacionamentos estreitos, mas que pode ser facilmente distorcido em abuso de poder.

"O jogo muda quando você conversa sobre uma adolescente de 16 anos que se sente 'perseguida' por seus pais", escreveu Boyd em um e-mail. "Isso ocorre por que o compartilhamento de informação não é um sinal de confiança e respeito mútuo, mas um processo de vigilância."

Em seu trabalho de campo com adolescentes, ela disse, ela ficou perturbada ao descobrir que as normas de privacidade estabelecidas pelos pais influenciaram os relacionamentos das crianças com seus pares. Os adolescentes compartilham suas senhas para redes sociais e outras contas com namorados e namoradas.

"Eles aprendem isso ao nos observarem e com a linguagem que usamos quando explicamos por que exigimos suas senhas", ela disse. "E está tudo bem nisso, apesar de ser estranho, em um relacionamento saudável. Mas é devastador em um doentio."

O mesmo vale para casais adultos que usam as tecnologias digitais para controlarem um ao outro.

No meu caso, tem um uso mundano.

Minha mulher e eu descobrimos que monitorar a localização um do outro torna parte da logística da vida familiar agitada mais fácil e mais segura. Não precisamos enviar mensagens de texto um para o outro do carro para dizer que estamos a caminho, exceto quando um de nós faz uma parada não planejada, como eu fiz.

Sarah McQuade, uma mãe dona de casa em Kittery, Maine, fez um arranjo semelhante com seu namorado, que vive a cerca de 110 km dela. Eles usam um aplicativo chamado Glympse, que permite às pessoas compartilharem suas localizações em períodos definidos de tempo.

Quando seu namorado sai para encontrá-la, o aplicativo permite a ela saber que ele está em movimento, especialmente nas estradas traiçoeiras no inverno. "Se você faz isso para fins de verificação, em vez de segurança e conveniência, então talvez você precise repensar porque o está usando", ela disse.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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