O maior teste de Trump: será que conseguirá construir algo que inspire admiração?

James B. Stewart

  • Todd Heisler/The New York Times

    Anthony Foxx (esq), secretário dos Transportes, e Stephen Gardner, executivo da Amtrak, durante tour em túnel do rio Hudson, em Nova York

    Anthony Foxx (esq), secretário dos Transportes, e Stephen Gardner, executivo da Amtrak, durante tour em túnel do rio Hudson, em Nova York

Eis como o presidente eleito Donald Trump poderia unir uma América amargamente dividida, fornecer salários bem remunerados para milhões de trabalhadores descontentes que votaram nele e melhorar a economia, o mercado de ações e a receita tributária.

Tudo o que ele precisa fazer é o que ele supostamente faz melhor: construir algo. E não falo de alguns poucos quilômetros de asfalto ou pintura de uma ponte enferrujada.

Construir algo que inspire admiração. Algo de que os americanos possam se orgulhar. Algo que dê múltiplo retorno ao investimento por gerações.

Construir o equivalente moderno à Ponte Golden Gate, a Represa Hoover, o Túnel Lincoln ou o Hotel Timberline Lodge. Ou, dada a paixão de Trump pelos esportes, outro Bethpage State Park Black Course, o primeiro campo de golfe público a receber o prestigioso Aberto dos Estados Unidos.

Todos esses são projetos públicos do New Deal, da época da Grande Depressão, iniciados sob o presidente Franklin D. Roosevelt e que ainda estão em uso.

Alguém pode citar ao menos um projeto de infraestrutura da Lei de Recuperação e Reinvestimento de US$ 800 bilhões do presidente Barack Obama? Acho que não.

Para ser justo com Obama, os republicanos no Congresso foram amargamente contrários aos planos dele de gastos em obras públicas, e ele lamentou que foram pouquíssimos os projetos de construção prontos para início imediato das obras.

Mas isso não impediu Roosevelt. Sua Administração de Obras Públicas e Administração de Progresso de Obras, usando combinações de dinheiro público e privado, solicitaram propostas de Estados e municípios, contrataram milhões de trabalhadores e acabaram construindo 78 mil pontes, mais de 1 milhão de quilômetros de estradas, mais de 1.000 quilômetros de pistas de aeroporto, 13 mil playgrounds e 125 mil prédios civis e militares, incluindo mais de 40 mil escolas, na maioria dos casos com padrões elevados de projeto e qualidade.

O governo federal construiu os aeroportos La Guardia, Ronald Reagan National Washington e o internacional de Los Angeles, as barragens e represas no alto Mississippi, a hidrelétrica de Bonneville no rio Columbia, a Ponte Robert F. Kennedy em Nova York, a rodovia sobre o mar que liga o arquipélago Florida Keys. A maioria ainda permanece em uso. Em grande grau, essa é a infraestrutura que fez da América grande, para usar o slogan de Trump.

O que Roosevelt realizou "é impressionante", disse Scott Myers-Lipton, um professor de sociologia da Universidade Estadual de San Jose e autor dos livros "Rebuild America: Solving the Economic Crisis Through Civic Works" e "Ending Extreme Inequality" (respectivamente "Reconstruir a América: resolvendo a crise econômica por meio de obras públicas" e "Acabando com a desigualdade extrema" em tradução livre e não lançados no Brasil).

The New York Times Photo Archives
Trabalhadores de barragem pegam bondinho sobre o rio Colorado, em 1932


Mas não são esses números de que as pessoas se recordam hoje. "A maioria das pessoas sabe apenas que havia uma sopa de letrinhas de organizações", ele disse. "O que elas veem e recordam são os marcos: a ponte da baía, o aeroporto nacional Reagan ou o estádio de beisebol em San Jose. Estamos vivendo hoje naquele legado."

Desfazer a reforma da saúde de Obama, reduzir impostos para empresas e principalmente para pessoas ricas, reformar o sistema de imigração e privatizar o Medicare (o atendimento público de saúde para idosos e inválidos), as coisas que os republicanos no Congresso citaram como sendo suas maiores prioridades legislativas, seria divisor em um país já amargamente dividido segundo linhas partidárias e geográficas.

Mas quase todos concordam que os Estados Unidos contam com uma infraestrutura altamente negligenciada enquanto o restante do mundo, principalmente a China, já se encontra muito à frente.

"Nossos aeroportos parecem de um país de terceiro mundo", disse Trump na Universidade Hofstra, durante o primeiro debate presidencial. "Você pousa em La Guardia, pousa no Kennedy, pousa no LAX, pousa em Newark, vindo de Dubai e do Qatar, onde há incríveis, você vem da China, onde vê aqueles aeroportos incríveis, e então você pousa e vê que nos tornamos um país de terceiro mundo."

Quem discordaria? Hillary Clinton também defendia um grande aumento nos gastos em infraestrutura.

"A melhor coisa individual que o governo federal pode fazer para promover o crescimento econômico é reparar e construir a rede de transportes, as estradas, ferrovias e aeroportos", disse Roger Noll, professor emérito de economia de Stanford e um membro sênior do Instituto de Stanford para Pesquisa de Políticas Econômicas. "Isto está sendo negligenciado há 30 anos."

No ano passado, Dan McNichol, autor do livro "The Roads That Built America" (As estradas que construíram a América, em tradução livre, não lançado no Brasil), uma história do sistema de rodovias interestaduais, e um consultor da Casa Branca em questões de transportes para o presidente George H.W. Bush, percorreu o país em um Hudson Commodore 1949 na missão de investigar o estado da infraestrutura dos Estados Unidos.

"Minha intenção era ver se tratava-se realmente de uma crise ou sensacionalismo da mídia", ele me disse nesta semana da Califórnia, onde está trabalhando em um projeto de ferrovia de alta velocidade para o Estado. "Eu descobri que a situação é terrível em relação ao total da infraestrutura. Para um país que lidera no comércio global, nossos sistemas estão caindo aos pedaços."

Trump prometeu US$ 1 trilhão ao longo de 10 anos, mas ninguém com quem falei acha esse valor suficiente. O dobro disso seria mais realista, disse McNichol. E a proposta de campanha de Trump se limitava a projetos de infraestrutura que se pagariam sozinhos por meio de pedágios ou outras formas de cobrança dos usuários, o que parece ser uma abordagem míope.

A maioria dos economistas diz que a melhor forma de financiar um grande programa de obras públicas, particularmente diante das baixas taxas de juros atuais, seria o governo tomar grande parte do dinheiro emprestado de investidores.

Conseguir realizar algo da mesma escala das obras públicas da época da Depressão seria um grande feito. Os recentes esforços federais de infraestrutura, incluindo a reconstrução após os furacões Katrina e Sandy, assim como o programa de estímulo de Obama, não inspiram confiança.

Central Japan Railway via The New York Times
Trem-bala japonês que serviu de modelo para o trem-bala do Texas
Alan Brinkley, um professor de história da Universidade de Columbia, disse que duvida que Trump possa reproduzir os feitos de Roosevelt.

"Roosevelt tinha uma missão coerente, quando não sempre uma forma consistente de tratar da Grande Depressão e da crise econômica", disse Brinkley. "Ele era eclético em sua abordagem por ser pragmático."

Ainda mais importante, "Roosevelt era informado, cercava-se de pessoas informadas e estava preparado desde o primeiro dia para começar. Não sei ao certo se as políticas de Trump vão além de seus slogans eleitoreiros", disse Brinkley.

"Temo que seu novo PWA", ele acrescentou, referindo-se à sigla em inglês da Administração de Obras Públicas, "acabe significando Promises Without Actions (promessas sem ações)".

Mas visando ser magnânimos, vamos dar a Trump o benefício da dúvida, como sugeriu Obama. Ele precisará de sua própria versão de Harold L. Ickes, o secretário do Interior de Roosevelt, que dirigia a PWA, e do conselheiro Harry L. Hopkins, que administrava a Administração de Progresso de Obras.

Trump também terá que se envolver ativamente. Roosevelt pedia propostas aos Estados e municípios, mas tomou pessoalmente quase todas as decisões finais.

"Roosevelt era fanático a respeito de infraestrutura, estradas, planejamento", disse McNichol. "Como comissário em Nova York, ele ajudou a desenhar a rodovia Taconic Parkway. Ele até mesmo ajudou a desenhar as mesas de piquenique."

Projetos certos de obras públicas, disse Myers-Lipton, da Estadual de San Jose, "tratariam da revolta popular que elegeu Trump, que envolve o sentimento de abandono das pessoas comuns". Durante a Depressão, "o governo construiu belos hotéis, campos de golfe e parques. A visão era de que o que costuma ser reservado à elite deve ser para todos. Esse é o poder das obras públicas".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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