Lady Gaga e Robert De Niro viram alvo de sites conservadores a favor de Trump

Amanda Hess

  • Domick Reuters/AFP

    Lady Gaga organizou um protesto em um caminhão de lixo em frente a Trump Tower

    Lady Gaga organizou um protesto em um caminhão de lixo em frente a Trump Tower

Ao longo de toda a amarga campanha eleitoral dos Estados Unidos, celebridades liberais como Lady Gaga, Jennifer Lawrence, Lena Dunham e Lin-Manuel Miranda usaram suas poderosas plataformas na mídia para cantar louvores a Hillary Clinton. Agora elas convidaram seus seguidores online a se juntarem a elas no processamento de derrota da democrata e em protestos contra o governo iminente de Donald Trump.

"Quero viver em um 'Country of kindness' (país de gentileza) onde 'Love trumps hate' (amor supera o ódio)", escreveu Lady Gaga pelo Twitter um dia após a eleição.Ela acrescentou uma foto de si mesma em um protesto em frente à Trump Tower em Manhattan, onde ela subiu em um caminhão vestida de preto e ergueu um cartaz pró-Hillary.

Apesar dos tweets enfurecidos, testemunhos terapêuticos pelo Instagram e discursos calorosos poderem confortar seus fãs, essas celebridades de inclinação de esquerda também estão energizando inadvertidamente a oposição. Veículos de notícias conservadores, mais notadamente a "Breitbart News Network", o enclave populista de direita, estão aperfeiçoando a arte de explorar o reconhecimento de nome dos astros democratas e transformar suas palavras e ações em material pró-Trump.

O enorme alcance que as celebridades desfrutam e a bolha de privilégio em que vivem é usada contra elas, moldada em evidência do controle excessivo que os ricos e famosos exercem sobre os americanos comuns.

Esta nova batalha nas guerras culturais está sendo travada não por bombásticos comentaristas famosos de direita, como Rush Limbaugh, mas por ágeis agregadores online, com frequência sem nome, que rapidamente reviram a cultura popular e jogam as histórias mais chamativas para seus leitores, geralmente sem comentários. Basta uma manchete cativante, uma foto pouco lisonjeira e algumas poucas citações (reais) escolhidas a dedo. Como esta: "Lady Gaga protesta em caminhão de lixo em frente a Trump Tower", dizia a manchete da "Breitbart" para seu artigo sobre o tweet dela.

Os Estados Unidos estão divididos pela política, pela mídia e, como deixou ainda mais claro esta eleição, por suas celebridades influentes. Nas semanas que antecederam a eleição, o diretor Joss Whedon, de "Os Vingadores", ativou sua própria fábrica online de anúncios de utilidade pública, "Save the Day" (Salve o dia), e recrutou astros como Robert Downey Jr., Don Cheadle e Scarlett Johansson para produção de vídeos pela internet pró-Hillary. Katy Perry, America Ferrara, LeBron James e Beyoncé se juntaram à candidata democrata em comícios.

E quando o vice-presidente eleito Mike Pence foi assistir a uma apresentação do sucesso "Hamilton" na Broadway, na sexta-feira, um dos astros da peça o repreendeu em nome da "América diversa que está alarmada e ansiosa de que seu novo governo não nos protegerá".

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Sem querer ofender Paris Hilton e Pat Boone, mas o presidente eleito não conta com grandes astros do seu lado. Em vez disso, a "Breitbart" usa principalmente suas páginas de cultura para disparar contra os esquerdistas de Hollywood.

Como parte de sua cobertura do que chama de Big Hollywood, o glamour das celebridades se transforma em material útil para a narrativa do site sobre a influência corrosiva da elite cultural. A imagem que Dunham postou no Instagram de uma viagem restauradora a Sedonia, Arizona, pode ter sido inspiradora para um público de mulheres jovens costeiras, mas para o público da "Breitbart", sob a manchete de "Lena Dunham pesarosa busca respostas no Arizona após vitória de Trump", ficou parecendo uma imagem condenatória de uma celebridade que decidiu seguir em férias para um Estado republicano para um rápido retiro.

Enquanto transcorria a controvérsia da peça "Hamilton", incitada pela exigência de Trump de que o elenco pedisse desculpas a Pence, a "Breitbart" fez questão de lembrar aos leitores sobre o evento privado de arrecadação de fundos que Miranda realizou para Hillary durante a campanha, onde os preços dos ingressos variavam de US$ 2.700 a US$ 100 mil. E dessa forma, a manifestação de uma celebridade contra Trump se transformou em argumento em sua defesa.

A cobertura pós-eleitoral de Hollywood pela "Breitbart" parece um catálogo de celebridades ofendidas, incluindo Rick Ross (que lançou um vídeo para a canção "Free Enterprise", que inclui na letra uma referência a assassinar Trump). Sob a superfície desses artigos, entretanto, há uma sinalização sutil em ação. Um artigo pós-eleitoral de autoria de Lawrence, no qual ela critica as barreiras ainda enfrentadas pelas mulheres no trabalho, inclui um elogio dissimulado: ela foi "recentemente nomeada a atriz mais bem paga de Hollywood pelo segundo ano consecutivo".

Montagem
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A manchete recente, "Robert DeNiro deprimido: Eleição de Trump fez com que 'me sentisse como depois do 11/09", desfere um golpe duplo, ao casar a imagem de um liberal patético e choroso com uma postura superficial em relação ao terrorismo. O artigo da "Breitbart" sobre "Hamilton", intitulada: "Tolerância: Elenco de 'Hamilton' repreende Mike Pence de um palco na Broadway, é repleta das palavras "tolerância", "repreensão", "Broadway", que apresenta os liberais como uma elite de hipócritas pedantes.

Após a eleição, a "Breitbart" pode parecer pouco diferente de qualquer agregador de notícias de celebridades, mas o contexto político maior do site, como terreno fértil para extremistas, adiciona outra camada. "Breitbart" é o site que alavancou Stephen K. Bannon como líder de pensamento. (Antes presidente-executivo do site, ele pediu licença do cargo para dirigir a campanha de Trump e agora ocupa um alto cargo na Casa Branca.) Tendo isso em mente, um artigo chamando atenção para o judaísmo de Dunham parece um osso atirado aos leitores nacionalistas brancos do site. E o catálogo de celebridades menosprezadas começa a parecer uma lista de inimigos.

A verdadeira ação ideológica é realizada pelo público, cujos membros leem nas entrelinhas desses artigos culturais e então rabiscam nas margens. Duas postagens da "Breitbart" sobre Dunham reuniram mais de 10 mil comentários, incluindo este: "Lena foi uma incrível recrutadora de votos para Trump". Enquanto isso, um artigo sobre Lady Gaga logo migrou para uma página pró-Trump no Facebook que atinge milhões, Make America Great Today (Torne a América grande hoje), que o compartilhou com o chamariz, "Mais mulheres brancas votaram em Donald J. Trump do que em Hillary Clinton".

As celebridades de esquerda há muito pregam para o coro, mas estão cada vez mais mobilizando o outro lado quando seu discurso é redirecionado para a câmara de eco online conservadora. Um estudo realizado no ano passado pelos professores David Jackson e Melissa Miller, da Universidade Estadual Bowling Green, apontou que as declarações políticas de celebridades eram altamente polarizadoras para uma amostra de eleitores de Ohio, e que nenhuma celebridade, seja Trace Adkins, Ted Nugent ou mesmo Oprah, provavelmente inspirará votos para o candidato de sua escolha.

Esses agregadores de direita asseguram que o alcance político de qualquer celebridade de esquerda seja neutralizado pela reação negativa das pessoas que não as idolatram e não concordam com elas. Nada disso impedirá que as celebridades usem seus palanques para promover suas posições políticas. Mas deveriam ser mais inteligentes em considerar como suas palavras serão usadas em outras plataformas.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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